"O mundo reconheceu em João XXIII um pastor e um pai"

Palavras do papa Francisco no final da missa celebrada pelo bispo de Bérgamo na Basílica Vaticana, por ocasião do 50º aniversário da morte do beato papa Roncalli

Roma, (Zenit.org) | 502 visitas

Por ocasião do 50 º aniversário da morte do Beato Papa João XXIII, foi celebrada na tarde de ontem, na Basílica Vaticana, a Santa Missa presidida por Dom Francesco Beschi, bispo de Bergamo. Às 18h15, no final da Missa, o Santo Padre Francisco entrou na Basílica e apòs ter rezado diante da urna contendo os restos mortais do Beato, reuniu-se com os participantes da peregrinação da diocese de Bergamo. Após a saudação do Bispo Beschi, o Papa dirigiu aos presentes o discurso que publicamos abaixo:

Queridos amigos da diocese de Bérgamo,

É uma alegria dar as boas-vindas a vocês, junto ao túmulo do Apóstolo Pedro, neste lugar que é o lar de todos os católicos. Saúdo com afeto o seu bispo, dom Francesco Beschi, e lhe agradeço pelas amáveis ​​palavras que me dirigiu em nome de todos. Faltam algumas coisas a dizer, mas ele mesmo as dirá.

Exatamente cinquenta anos atrás, exatamente neste momento, o beato João XXIII deixou este mundo. Quem tem uma certa idade, como eu, ainda retém viva na memória aquela comoção que se espalhou por toda parte naqueles dias: a Praça de São Pedro se tornou um santuário a céu aberto, acolhendo dia e noite os fiéis de todas as idades e condições sociais, em oração pela saúde do papa.

O mundo inteiro tinha reconhecido no papa João um pastor e um pai. Pastor porque pai. O que o tornou assim? Como ele conseguiu chegar ao coração de tantas pessoas tão diferentes, inclusive de muitos não-cristãos? Para responder a essa pergunta, podemos nos voltar para o seu lema episcopal, Oboedientia et pax: obediência e paz. “Essas palavras”, observou Roncalli na véspera da sua ordenação episcopal, “são, de certa forma, a minha história e a minha vida” (Diário da Alma, retiro preparatório para a consagração episcopal, 13-17 de março de 1925). Obediência e paz.

Eu gostaria de começar pela paz, porque este é o aspecto mais evidente, aquele que as pessoas perceberam no papa João. Angelo Roncalli era um homem capaz de transmitir a paz; uma paz natural, serena, cordial; uma paz que, com a sua eleição para o pontificado, se manifestou ao mundo inteiro e recebeu o nome de bondade. É tão bonito encontrar um sacerdote, um padre bom, cheio de bondade.

E isso me faz pensar numa coisa que Santo Inácio de Loyola - mas não estou fazendo publicidade! - dizia aos jesuítas quando falava das qualidades que um superior deve ter. E ele dizia: tem que ter isso, isso, isso, isso... uma longa lista de qualidades. Mas no fim dizia o seguinte: "E se ele não tem essas virtudes, que pelo menos tenha muita bondade". É o essencial. É um pai. Um pai, um padre, com bondade.

Esta foi, sem dúvida, uma característica da sua personalidade, que lhe permitiu construir amizades sólidas em todos os lugares e que se destacou em particular no seu ministério como representante do papa, desenvolvido durante quase três décadas, muitas vezes em contato com ambientes e mundos muito distantes daquele universo católico em que ele nasceu e se formou. Foi justamente naqueles ambientes que ele se mostrou um efetivo tecelão de relações e um bom promotor da unidade, dentro e fora da comunidade da Igreja, aberto ao diálogo com os cristãos de outras Igrejas, com expoentes do mundo judeu e muçulmano e com muitos outros homens de boa vontade.

Na verdade, o papa João transmitia a paz porque tinha um espírito profundamente em paz: ele tinha se deixado pacificar pelo Espírito Santo. E esta alma pacificada era o resultado de um trabalho longo e exigente consigo mesmo, um trabalho que deixou vestígios abundantes no Diário da Alma. Nele nós podemos ver o seminarista, o padre, o bispo Roncalli lutando no caminho da purificação gradual do coração. Nós o vemos, dia a dia, atento para reconhecer e mortificar os desejos que vêm do próprio egoísmo, para discernir as inspirações do Senhor, deixando-se guiar por sábios diretores espirituais e deixando-se inspirar por mestres como São Francisco de Sales e São Carlos Borromeu. Ao ler aqueles escritos, testemunhamos o tomar forma de uma alma, sob a ação do Espírito Santo que opera na sua Igreja, nas almas: foi Ele, precisamente, que, com essas boas disposições, pacificou a sua alma.

E aqui nós chegamos à segunda e decisiva palavra: obediência. Se a paz foi a marca externa, a obediência foi para Roncalli a disposição interior: a obediência, aliás, foi a ferramenta para ele alcançar a paz. Ela tinha um sentido muito singelo e concreto: prestar na Igreja o serviço que os superiores pediam, sem procurar nada para si mesmo, sem fugir do que lhe pediam, mesmo quando isto significou deixar a sua terra, lidar com mundos desconhecidos para ele, permanecer durante muitos anos em lugares onde a presença de católicos era muito escassa.

Esse deixar-se conduzir, como uma criança, construiu o caminho sacerdotal dele, que vocês conhecem bem, de secretário de dom Radini Tedeschi e professor e diretor espiritual no seminário diocesano, a representante pontifício na Bulgária, na Turquia e na Grécia, na França; a pastor da Igreja de Veneza e, finalmente, a bispo de Roma. Através dessa obediência, o sacerdote e bispo Roncalli também experimentou uma fidelidade mais profunda, que poderia ser chamada, como ele diria, de “abandono à Divina Providência”. Ele reconheceu constantemente, na fé, que através desse caminho de vida aparentemente guiado por outros, não pelos seus gostos nem pela sua própria sensibilidade espiritual, Deus estava desenhando um dos seus projetos. Ele era um homem de governo, um condutor. Mas um condutor conduzido, pelo Espírito Santo, por obediência.

Ainda mais profundamente, mediante esse abandono diário à vontade de Deus, o futuro papa João viveu uma purificação, que lhe permitiu distanciar-se completamente de si mesmo e aderir a Cristo, deixando assim emergir aquela santidade que a Igreja depois reconheceu oficialmente. "Quem perde a sua vida por mim a salvará", nos diz Jesus (Lc 9,24). Esta é a verdadeira fonte da bondade do papa João, da paz que se espalhou por todo o mundo; esta é a raiz da sua santidade: a sua obediência evangélica.

E isto é uma lição para todos nós, mas também para a Igreja do nosso tempo: se nos deixarmos conduzir pelo Espírito Santo, se mortificarmos o nosso egoísmo para dar espaço ao amor de Deus e à vontade de Deus, então vamos encontrar a paz, então seremos construtores da paz e espalharemos a paz em torno de nós. Cinquenta anos após a sua morte, a sábia orientação do papa João, o seu amor pela tradição da Igreja e a consciência da sua constante necessidade de renovação, a intuição profética da convocação do Concílio Vaticano II e a oferta da própria vida pelo seu sucesso, permanecem como marcos na história da Igreja do século XX e como um farol de luz para o caminho que temos pela frente.

Caro povo de Bérgamo, vocês têm um justo orgulho do "Papa Bom", brilhante exemplo da fé e das virtudes de gerações inteiras de cristãos da sua terra. Mantenham o espírito dele, estudem com profundidade a vida e os escritos dele, mas, acima de tudo, imitem a santidade dele. Deixem-se guiar pelo Espírito Santo. Não tenham medo dos riscos, assim como ele não teve medo. Docilidade ao Espírito, amor à Igreja e coragem! Deus vai fazer tudo. Que lá do céu ele continue acompanhando com amor a sua Igreja, que ele tanto amou na vida, e obtenha para ela, junto a Deus, o dom de numerosos e santos sacerdotes, de vocações para a vida religiosa e missionária, bem como para a vida familiar e para a dedicação dos leigos na Igreja e no mundo. Obrigado pela sua visita ao papa João! Eu abençoo todos vocês de coração.