O Natal torna possível a esperança

Mensagem de Natal do Cardeal-Patriarca de Lisboa

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LISBOA, sábado, 25 de dezembro de 2010 (ZENIT.org) - Apresentamos, a seguir, a mensagem de Natal do Cardeal-Patriarca de Lisboa, Dom José Policarpo.

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1. Mais uma vez é noite de Natal. A comemoração do nascimento de Jesus em Belém originou, ao longo dos séculos, uma tradição cultural de paz e fraternidade. Nesta noite, as pessoas abrem espontaneamente o coração a valores porventura adormecidos no dia-a-dia da vida: a paz interior, a beleza da comunhão e da fraternidade, a aceitação simples de um Deus connosco, no rosto humano de um Menino que nasceu para nós. É a mensagem de Belém, transformada em cultura, que a todos envolve: Glória a Deus nas alturas e na terra paz, para os homens bons. Saúdo-vos a todos nesta noite diferente e quero muito que esta minha saudação seja um grito de esperança para Portugal, para o Portugal concreto, neste final de 2010 e início de 2011.

Eu sei que, para muitos portugueses, para muitas famílias, este não será um Natal fácil; será tanto mais exigente quanto a alegria da festa esteja ligada ao bem-estar material. Mas também em Belém, há dois mil anos, a alegria daquele nascimento não foi impedida pela pobreza da gruta, último recurso para um casal deslocado, para quem não havia lugar nas hospedarias da cidade. Eles viveram e exprimiram aquilo que, mais tarde, seria a mensagem de Jesus: a pobreza não impede, necessariamente, a alegria. Ao contrário, Ele chama bem-aventurados aos pobres, mais sensíveis às verdadeiras alegrias da esperança no Reino de Deus.

2. Nas últimas semanas, tem-se falado, sobretudo, no Portugal económico. Analisou-se a crise económico-financeira, dissecaram-se as suas causas, discutiram-se as soluções, de austeridade inevitável, segundo parecer generalizado de peritos, analistas e políticos. É certo que, principalmente no contexto ocidental em que estamos inseridos, a saúde da economia é condição para o crescimento da sociedade. Mas em momentos de especiais dificuldades, como o que atravessamos, as crises não encontrarão verdadeira solução, se não pusermos o acento no Portugal cultural, na verdadeira identidade espiritual do nosso Povo, caldeada ao longo de séculos por valores que constituem a verdadeira alma de Portugal. É, pois, o momento de abraçarmos com coragem e determinação esta nossa identidade, espiritual e cultural, de modo que nenhuma crise ou sofrimento as ponham em questão.

Recordarei convosco, esta noite, alguns desses valores constitutivos da tradição cultural portuguesa, procurando ver, convosco, como eles podem ajudar a viver, com grandeza, o momento presente. Antes de mais a solidariedade. Portugal é um Povo solidário e acolhedor. Essa dimensão exprimiu-se de tantas maneiras: no sentido comunitário de aldeias e municípios, onde todos aprenderam a dar-se as mãos na busca de soluções comunitárias, para o desenvolvimento local, para a solução dos problemas sociais; na criatividade das iniciativas culturais. Povo solidário, exprimiu esse acolhimento a todos os que vêm de fora, turistas, emigrantes, forasteiros ou peregrinos. Os que chegam, diferentes na cor, na raça, ou mesmo na religião, são nossos irmãos.

Esta crise pode suscitar, em cada um de nós, este espírito de solidariedade. Estejamos atentos ao nosso próximo, que pode ser o nosso vizinho. Façamos do seu sofrimento a nossa causa; não olhemos só para aquilo de que nos privaram ou nos obrigaram a pagar a mais; mas partilhemos generosamente o que temos com quem tem menos do que nós.

A força espiritual de Portugal é, e sempre foi, a família, enraizada na beleza do amor de um homem e de uma mulher, aprofundado na experiência sublime da fecundidade. A família é a fonte da coragem. Fortalecidos na comunhão familiar, os nossos antepassados travaram todas as batalhas, arriscaram todas as aventuras, para escrever, por vezes com sangue, o nome de Portugal. Ela é o alfobre da fidelidade, e o amor, mesmo o amor por Portugal, supõe sempre a fidelidade, tantas vezes provada e experimentada, mas vencedora com a graça própria do sacramento do matrimónio. Quem não é fiel na família, dificilmente o será aos grandes desafios e objectivos da comunidade nacional. A generosidade na busca generosa do bem-comum, aprende-se na família. As famílias portuguesas, de modo particular as famílias cristãs, são convidadas a envolver no seu amor comunitário outras famílias em dificuldade.

A alma de Portugal é a de um povo crente, que confia na ajuda de Deus e na protecção maternal de Maria, Mãe de Jesus. Não receemos recorrer a essa protecção, amorosa e poderosa. Se nunca aprendestes a rezar, deixai que a espontaneidade do vosso coração aflito se transforme em prece, rezai com outras pessoas que saibam rezar. Partilhar a fé e a oração pode ajudar a resistir neste momento difícil. E que cada um não reze só por si, mas pelos outros, sobretudo pelos que estão aflitos e mais sofrem.

3. Hoje é Natal. Nesta noite bela, é possível a todos deixar renascer a esperança. O seu fundamento é o amor de Deus que nos visita, fazendo-se Homem nosso irmão; é o amor dos irmãos que, em momentos difíceis, nos fazem sentir o calor da fraternidade. A esperança só se fundamenta no amor, no amar e sentir-se amado. Só o amor nos dá força para lutar e nos ensinará a confiar. Olhemos o presépio e sintamo-nos como aquele Menino, abraçados pela mesma Mãe.

Bom Natal!

† JOSÉ, Cardeal-Patriarca

(Com agência Ecclesia)