O nome de Jesus

Dom Alberto Taveira Corrêa, arcebispo de Belém do Pará, convida a refletir sobre a identidade daquele que virou as páginas da história da humanidade

Belém do Pará, (Zenit.org) Dom Alberto Taveira Corrêa | 385 visitas

João Batista, precursor do Salvador, parente de Jesus segundo a carne, amadureceu em seu processo de reconhecimento daquele que passou à sua frente, do qual reconhecia não ser digno de desamarrar as sandálias. O Evangelho de São João descreve com arte a cena (Jo 1,29-34) em que João o apresenta como o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo. Não haveria modo mais adequado para expressar a identidade daquele que se achava diante de João. À margem do Jordão, enviado a batizar com água, João Batista tinha visto o Espírito pairar sobre Jesus. Mudou sua vida e o mundo mudou. Chegou aquele que as profecias haviam anunciado. Chegou aquele que virou as páginas da história da humanidade, pois tudo se conta pela sua vinda, antes de Cristo ou depois de Cristo. Veio a nós aquele que se chama Deus conosco, Emanuel, Deus salva! Ele é a luz das nações, para que a salvação chegue aos confins da terra (Cf. Is 49, 3.5-6).

A Liturgia da Igreja usa fórmulas bíblicas com as quais resume a fé cristã, de modo que a oração expressa as convicções profundas, que sustentam o testemunho a ser oferecido ao mundo. Dentre estas, chama atenção o início da primeira Carta de São Paulo aos Coríntios, correspondente a uma das saudações usadas no início da Santa Missa: “Paulo, chamado a ser apóstolo do Cristo Jesus, por vontade de Deus, e o irmão Sóstenes, à igreja de Deus que está em Corinto: aos que foram santificados no Cristo Jesus, chamados a serem santos, junto com todos os que, em qualquer lugar, invocam o nome de Nosso Senhor Jesus Cristo, Senhor deles e nosso. Para vós, graça e paz, da parte de Deus, nosso Pai, e do Senhor Jesus Cristo” (1 Cor 1,1-3).  A oração da Igreja começa no alto, vem de Deus, a quem cabe a iniciativa! É também do Apóstolo das Gentes o belíssimo hino da Carta aos Filipenses (Fl 2, 6-11), utilizado também com frequência na oração da Igreja, que assim se conclui: “Ao Nome de Jesus, todo joelho se dobre no céu, na terra e abaixo da terra, e toda língua confesse: ‘Jesus Cristo é o Senhor’, para a glória de Deus Pai. E as orações litúrgicas, em sua maior parte, são feitas ao Pai, por Cristo e no Espírito Santo. Assim a Igreja nos ensina quem é caminho, verdade e vida. Em Jesus Cristo está a salvação, a vida e a liberdade.

Aprendemos que a invocação do nome de Jesus traz consigo a graça e a salvação. Tive o grande consolo de muitas vezes, ao me deparar com pessoas que se encontravam à beira da morte, predispondo-as para a absolvição dos pecados, pronunciar ao ouvido delas “Meu Jesus, misericórdia”, ou dizer repetidamente o nome de Jesus, na certeza de que ali se encontrava a força necessária para o definitivo encontro com o Senhor, quando lhes era dada a possibilidade de abrir os olhos para as realidades definitivas, a fim de entrar na contemplação da face de Cristo, aquele que é porta para o Reino dos Céus.

São de grande inspiração bíblica as invocações feitas na Ladainha do Santíssimo Nome de Jesus, com a qual a devoção da Igreja nos convida a nos voltarmos para o centro de nossa profissão de fé: Jesus Filho de Deus vivo, esplendor do Pai, pureza da luz eterna, Rei da glória, sol de justiça, Filho da Virgem Maria, amável, admirável, Deus forte, Pai do futuro século, Anjo do grande conselho, Poderosíssimo, Pacientíssimo, Obedientíssimo, Manso e Humilde de coração, Amante da castidade, Nosso amado, Deus da paz, Autor da vida, Exemplo das virtudes, Zelador das almas, Nosso Deus, Nosso Refúgio, Pai dos pobres, Tesouro dos fiéis, Bom Pastor, Verdadeira Luz, Sabedoria eterna, Bondade infinita, Nosso Caminho e Nossa Vida, Alegria dos Anjos, Rei dos Patriarcas, Mestre dos Apóstolos, Doutor dos evangelistas, Fortaleza dos Mártires, Luz dos Confessores, Pureza das Virgens, Coroa de todos os Santos.

É dele que nos vem a certeza de tudo o que é necessário à salvação, tanto que a mesma Ladainha suplica que Ele nos livre de todo mal, de todo o pecado, da  ira de Deus, das ciladas do demônio, do espírito de impureza e do desprezo de suas inspirações. Continuamente nos voltamos ao Senhor, pedindo a liberdade plena, pelo mistério de sua Encarnação, pela sua Natividade, pela Infância de Jesus, pela sua Vida nesta terra, pelos seus Trabalhos, pela sua Agonia e Paixão, pela Cruz e Desamparo, pelas Angústias passadas, pela Morte, Sepultura e Ressurreição, pela Ascensão, suas Alegrias e sua Glória.

As Ladainhas são manifestações de amor e piedade, com as quais repetimos invocações que percorrem diversos aspectos do mesmo mistério. Os refrões que nos conduzem a dizer “tende piedade de nós” ou “livrai-nos, Senhor” conduzem nossa piedade ao centro da fé professada, tanto que todas as ladainhas da Igreja se concluem com a invocação que ecoa a apresentação feita por São João Batista, chamando-o “Cordeiro de Deus”, diante do qual dizemos “livrai-nos, Senhor”, “ouvi-nos, Senhor” e “tende piedade de nós”.

Há poucos dias, celebrando a Santa Missa na “Igreja de Jesus”, no Dia do Santíssimo Nome de Jesus, assim se expressou o Papa Francisco: “Tende entre vós os mesmos sentimentos que havia em Cristo Jesus: Ele que era de condição divina não reivindicou o direito de ser equiparado a Deus. Mas despojou-se a si mesmo, tomando a condição de servo” (Fl 2, 5-7). O que o Papa disse aos jesuítas, peço licença para tomar posse dos mesmos desejos, pois correspondem ao seguimento de Jesus da parte de todos os que pronunciam o seu Santo Nome: “Queremos ser distinguidos com o nome de Jesus, militar sob a insígnia da sua Cruz, e isto significa: ter os mesmos sentimentos de Cristo. Significa pensar como Ele. Significa fazer o que ele fez e com os seus mesmos sentimentos, com os sentimentos do seu Coração. O coração de Cristo é o coração de um Deus que, por amor, se despojou. Quem segue a Jesus, deveria estar disposto a despojar-se de si mesmo. Somos chamados a este abaixamento: ser «despojados», pessoas que não vivem concentradas em si mesmas porque o centro de suas vidas é Cristo e a sua Igreja.