O papa à FAO: o escândalo do século XXI é que ainda exista fome e desnutrição

Mensagem lida pelo observador vaticano na sede da FAO: não esquecer a família rural e superar a cultura do descartável

Roma, (Zenit.org) Rocio Lancho García | 520 visitas

"O desperdício de alimentos é mais um dos frutos da ‘cultura do descartável’, que frequentemente leva a sacrificar homens e mulheres aos ídolos do lucro e do consumo; um triste sinal da ‘globalização da indiferença’, que vai nos ‘acostumando’ lentamente ao sofrimento dos outros, como se ele fosse normal".

Este é um dos parágrafos mais impressionantes da mensagem do santo padre Francisco por ocasião da Jornada Mundial dos Alimentos, que neste ano trata de "Sistemas alimentares sustentáveis para a segurança alimentar e para a nutrição".

A mensagem do papa foi enviada ao brasileiro José Graziano da Silva, diretor geral da FAO, entidade da Organização das Nações Unidas que se ocupa da alimentação e da agricultura. A missiva foi lida pelo Observador Permanente da Santa Sé junto à FAO, dom Luigi Travaglino, durante a solene cerimônia realizada na manhã de hoje na sede da organização em Roma.

No texto, o santo padre destaca que a Jornada Mundial da Alimentação "nos coloca diante de um dos desafios mais sérios para a humanidade: o da trágica condição em que ainda vivem milhões de pessoas famintas e desnutridas, entre elas muitas crianças". O papa alerta: "Isto se torna ainda mais grave num tempo como o nosso, caracterizado por um progresso sem precedentes em diversos campos da ciência e por possibilidades cada vez maiores de comunicação".

O santo padre também adverte, no texto, que "é um escândalo que ainda exista fome e desnutrição no mundo", e enfatiza que não se trata apenas de responder às emergências imediatas, mas de enfrentarmos, juntos, um problema que interpela a nossa consciência pessoal e social, a fim de chegarmos a uma solução justa e duradoura. Francisco ressalta o paradoxo que vivemos hoje: num "momento em que a globalização permite conhecer as situações de necessidade no mundo e multiplicar os intercâmbios e as relações humanas, parece crescer a tendência ao individualismo e ao encerramento em si mesmo, o que nos leva a uma certa atitude de indiferença".

Jamais podemos nos acostumar com a fome e a desnutrição, afirma Francisco. E propõe uma solução: "Considero que um passo importante é derrubar com decisão as barreiras do individualismo, do encerramento em si mesmo, da escravidão do lucro a todo custo; e isto não apenas na dinâmica das relações humanas, mas também na dinâmica econômica e financeira global".

O papa também afirmou que é necessário "educar-nos na solidariedade, redescobrir o valor e o significado desta palavra tão incômoda e tão frequentemente deixada de lado, e fazer com que ela se torne uma atitude de fundo para as nossas decisões em âmbito político, econômico e financeiro, nas relações entre as pessoas, entre os povos e entre as nações".

Em uma segunda parte do texto, o santo padre aborda o tema escolhido pela FAO para este ano: os “sistemas alimentares sustentáveis para a segurança alimentar e para a nutrição”. Nesta temática, Francisco vê "um convite a repensarmos e renovarmos os nossos sistemas alimentares a partir de uma perspectiva da solidariedade, superando a lógica da exploração selvagem da criação e orientando melhor o nosso compromisso de cultivar e cuidar do meio ambiente e dos seus recursos, para garantirmos a segurança alimentar e avançarmos rumo a uma alimentação suficiente e sadia para todos".

Francisco recorda, no texto, que os dados proporcionados pela FAO indicam que aproximadamente um terço da produção mundial de alimentos não é disponibilizado às pessoas por causa das perdas e desperdícios cada vez maiores. Bastaria eliminar essas falhas na logística para reduzir drasticamente o número de famintos no mundo.

Por isso, o papa destaca que "o desperdício de alimentos é um dos frutos da ‘cultura do descartável’, que frequentemente leva a sacrificar homens e mulheres aos ídolos do lucro e do consumo; um triste sinal da ‘globalização da indiferença’, que vai nos ‘acostumando’ lentamente ao sofrimento dos outros, como se ele fosse normal".

O desafio da fome, explica o papa,  não tem somente uma dimensão econômica ou científica, mas também "ética e antropológica". Deste modo, "educar na solidariedade significa educar-nos na humanidade: edificar uma sociedade que seja verdadeiramente humana significa sempre colocar no centro a pessoa e a sua dignidade, e nunca vendê-la à lógica do lucro".

Finalmente, o pontífice recordou que já estamos às portas do ano internacional que, por iniciativa da FAO, será dedicado à família rural. Por isso, o terceiro ponto de reflexão no discurso foi "a educação na solidariedade e numa forma de vida que supere a ‘cultura do descartável’ e enfatize realmente toda a pessoa e a sua dignidade, como é característico da família". A família, aprofundou o papa, "é a primeira comunidade educativa, onde se aprende a cuidar do outro, do bem do outro, a amar a harmonia da criação e a desfrutar e compartilhar os seus frutos, favorecendo um consumo racional, equilibrado e sustentável". Por isso, Francisco exortou a "apoiar e proteger a família para que ela eduque na solidariedade e no respeito, passo decisivo para caminharmos rumo a uma sociedade mais equitativa e humana".

Para concluir a mensagem, o papa afirma que a "Igreja Católica percorre essa estrada junto com vocês, consciente de que a caridade, o amor, é a alma da sua missão".

Francisco deixa um convite: que esta celebração não seja uma simples data anual, mas uma verdadeira oportunidade para exigirmos de nós mesmos e das instituições um comportamento de acordo com uma cultura de encontro e de solidariedade.