O Papa e a Cúria participaram da pregação de Quaresma

O padre Cantalamessa indica o valor das Escrituras para escutar o que sugere a cada um individualmente

Roma, (Zenit.org) Sergio Mora | 512 visitas

O pregador da Casa Pontifícia, o padre Raniero Cantalamessa, realizou nesta sexta-feira a última pregação da quaresma. Foi na capela Redemptoris Mater do Vaticano, com a presença do Santo Padre, cardeais, bispos e membros da cúria romana. O tema foi “Sobre os ombros de gigantes - as grandes verdades da nossa fé contempladas pelos Padres da Igreja latina".

O sacerdote disse que diante do ataque às Sagradas Escrituras, "a Igreja opõe a sua doutrina e a sua experiência", e que na Dei Verbum, “o Vaticano II reiterou a validade perene das Escrituras, como a palavra de Deus para a humanidade". E sobre a sua validade considerou que “talvez a prova mais convincente seja a da experiência”.

"A afirmação da divindade de Cristo em Nicéia, no ano 325, e do Espírito Santo em Constantinopla, no ano 381, aplica-se integralmente às Escrituras. Nela experimentamos a presença do Espírito Santo, Cristo nos fala ainda hoje, o seu efeito sobre nós é diferente ao de qualquer outra palavra; portanto, não pode ser simples palavra humana”, disse.

"Como quando em um quarto – recordou o sacerdote capuchinho – iluminado pela tênue luz de uma vela se acende de repente uma poderosa luz de néon. Cristo, que é ‘luz do mundo’, é também luz das Escrituras”.

Disse, entretanto, que "a contribuição mais significativa dos Padres latinos, não está na descoberta de significados novos e ocultos da palavra de Deus, mas na sistematização do vasto material exegético que vinha se acumulando na Igreja, no desenho de um tipo de mapa para orientar-se na sua utilização”.

O pregador da Casa Apostólica assegurou que “Gregório Magno e os Padres no geral acertavam no ponto fundamental: que é preciso ler as Escrituras tendo como referência Cristo e a Igreja. Já o faziam antes deles, como visto, Jesus e os apóstolos”. Embora reconheceu que “a parte obsoleta da sua exegese está em ter acreditado que podiam aplicar este critério a cada palavra da Bíblia, de modo muitas vezes fantasioso, forçando o simbolismo".

A distinção que evidenciou é “a diferença entre uma leitura pessoal e uma leitura impessoal da palavra de Deus”, porque “os Padres se aproximavam da palavra de Deus com uma pergunta constante: o que fala, agora e aqui, à Igreja e a mim pessoalmente?” dado que as Sagradas Escrituras “sempre têm novas luzes que devem irradiar e novas tarefas a serem mostradas pessoalmente a cada um”. É, em definitiva, a doutrina clássica da inspiração divina da Escritura, a que proclamamos como artigo de fé no Credo, quando dizemos que o Espírito Santo é aquele que “falou pelos profetas”.

E lembra que muitos Padre comparam a Escritura com um espelho e não se precisa passar todo o tempo examinando a forma e o material com o qual está feito, como os problemas críticos que a Escritura sugere, as fontes, os gêneros literários, etc., “mas colocar em prática os claros” porque como diz Gregório ‘se entende realizando-a’.

Há duas maneiras de preparar uma pregação, disse o padre, uma é “sentar-me na mesa e eleger eu mesmo a palavra para anunciar e o tema” e depois colocar-me de joelhos para pedir apressadamente a Deus que abençoe o que escrevi”, mas não é a via profética. “Temos que seguir a ordem inversa: primeiro de joelhos, e depois na mesa”.

"Todos nós - disse o padre Cantalamessa – temos experimentado o que pode fazer uma só palavra de Deus profundamente acreditada e vivida primeiro por quem a pronuncia, e às vezes até mesmo sem sabe-lo; muitas vezes deve-se constatar que, entre muitas outras palavras, foi a que tocou o coração e conduziu a mais de um ouvinte ao confessionário”.

"Quero terminar esta meditação – concluiu o pregador – com um pensamento de gratidão aos irmãos judeus, também como felicitação pela próxima visita do do Santo Padre a Israel. Se a interpretação que damos da Escritura nos separa deles, nos une o comum amor por elas”.

[Trad.TS]