O Papa fala que a coisa mais importante é curar as feridas

Entrevista a Dom João Carlos Petrini, presidente da Comissão Episcopal Pastoral da Vida e Família da CNBB

Brasília, (Zenit.org) Thácio Siqueira | 642 visitas

Depois da entrevista concedida à revista dos jesuítas La Civiltá Cattolica, e publicada no dia 16 desse mês, ZENIT entrevistou o Presidente da Comissão Episcopal Pastoral da Vida e Família da CNBB, Dom João Carlos Petrini.

Dom Petrini, também bispo de Camaçari, compartilhou com os nossos leitores algumas das suas impressões a respeito de temas que o Pontífice vem repetindo desde que assumiu a Sede de Pedro.

Acompanhe a entrevista na íntegra:

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ZENIT: Como você interpreta os temas que a mídia veio polemizando e que o Papa tratou na sua recente entrevista à Civilta Cattolica? Por acaso, o Papa está falando que agora é certo o que antes era condenado como errado na Igreja?

Dom Petrini: O Papa Francisco apresenta de maneira nova a grande tradição da Igreja. Nesse sentido, O Papa recorda aos membros da Igreja e aos homens e às mulheres que buscam caminhos de luz e de paz na vida pessoal e social que existe Algo que vem antes de qualquer julgamento moral, antes de dizer se uma atitude é certa ou errada.

O que vem antes é o olhar de Jesus Cristo, pronto para acolher e perdoar, se apenas encontra uma abertura do coração. Um exemplo disso é o olhar de misericórdia sobre Zaqueu, que era o chefe da máfia da época, mas procurava ver Jesus. E Jesus não se apressou a condena-lo pelas suas atitudes reprováveis. Antes, lhe disse: “Desce depressa porque hoje quero ir à tua casa”. E Zaqueu, depois do encontro com Jesus começou a mudar de vida, como o próprio evangelho comenta. (Lucas, 19, 1-10).

O Papa fala que a coisa mais importante é “curar as feridas e aquecer os corações dos fieis, a proximidade”. Esta atitude corresponde ao modo como Jesus se comportava. Por isso, havia fariseus qeu reclamavam porque ele frequentava a casa dos pecadores e tomava as refeições com eles!

Esta atitude que acolhe, ampara, derrama óleo sobre as feridas, como fez o bom samaritano quando viu um homem caído na beira da estrada, é o que vem antes de qualquer juízo moral. Na medida em que a pessoa, tocada dessa maneira por Jesus Cristo, se dá conta do que está acontecendo, se liga e procura corresponder ao afeto que a abraça.

O Papa não quer substituir juízos negativos sobre certas atitudes com juízos positivos, não quer dizer agora que está certo o que a Igreja, há séculos, vem dizendo que está errado. Ele chama a nossa atenção sobre uma postura parecida com a atitude de Jesus para enfrentar os dramas humanos: antes acolher e amar, deter-se naquilo que vem antes de qualquer juízo: antes vem Jesus, seu olhar de misericórdia, sua ternura que acolhe e procura curar as feridas.  

ZENIT: Como é possível isso?

Dom Petrini: O que mais o Papa pede aos membros da Igreja é que encontrem as pessoas com o mesmo coração e com o mesmo olhar com o qual Jesus encontrava as pessoas do seu tempo. Ele acolhia sem restrições a todos, inclusive aos piores pecadores. Somente condenava com dureza os hipócritas, isto é, aqueles que encobriam com uma casca de falsidade, de pura aparência, suas atitudes reprováveis, procurando fazer passar por justiça o que era injusto. Mas, a quem se apresentava com simplicidade, com um coração pobre, isto é, sem nada a defender, Jesus dava o perdão e a possibilidade de uma vida nova. Por isso, Jesus é reconhecido como “o Salvador”, Aquele que pode salvar o homem e a mulher do nosso tempo da insensatez, do vazio, da solidão, do desespero.

ZENIT: O sobre as mulheres?

Dom Petrini:      As mulheres tiveram uma participação muito relevante na história de Jesus, a começar por Maria que aceitou ser mãe do Filho de Deus. Mas muitas mulheres acompanhavam Jesus durante os anos de sua vida pública. E a história da Igreja está repleta de grandes mulheres que realizaram obras admiráveis, reformaram congregações, persuadiram Papas a tomarem atitudes mais corajosas. Até mesmo na Idade Media tão maltratada como idade de trevas, brilharam muitas mulheres como estrelas de primeira grandeza. O Papa Francisco, já na viagem de retorno do Rio de Janeiro a Roma, tinha se referido a elas recomendando que seja aprofundado o conhecimento dessa realidade e que se estude mais a teologia da mulher. Isto já é uma grande novidade que poderá abrir novas possibilidades de integração das mulheres na vida da Igreja. É bom ficarmos com as palavras do Papa, sem querer forçar para atribuir a ele outras intenções.

ZENIT: Para o Papa o que é mais para a Igreja nesse momento?

Dom Petrini: O Papa fala do nosso mundo, tão desenvolvido com suas tecnologias sedutoras que resolvem muitos problemas do quotidiano é, ao mesmo tempo, um mundo de sofrimentos, de violências, de solidão. E o pior é que todos estão tão atarefados em correr atrás de suas fantasias de felicidade que os dramas humanos dos quais dificilmente alguém escapa, essas dores são ignoradas, essas solidões não são vistas. O mundo, diz o Papa, se parece com um hospital de campo depois de uma batalha. Depois da batalha de cada dia, muitos ambientes de vida são parecidos a um hospital de campo, cheios de feridos. O Papa, dirigindo-se aos católicos diz: não percam tempo a verificar o colesterol ou a glicose no sangue. O momento apresenta outra urgência: cuidar das feridas. Por isso, é importante – e ele deve ter repetido essa idéia uma dúzia de vezes – acolher, cuidar, acompanhar, mostrar nossa proximidade humana, sair de casa para ficar perto dessas pessoas que sofrem e anunciar-lhes que Alguém as ama, mais do que pai e mãe. Depois, não faltarão oportunidades para cuidar de outras questões.  Quero terminar repetindo algumas palavras dessa importante entrevista do Papa: “Os ministros do Evangelho devem ser pessoas capazes de aquecer o coração das pessoas, de caminhar na noite com eles, de saber dialogar e também descer em sua noite, na sua escuridão, sem perder-se.”