O papa Francisco e a favela fabulosa

Mensagem de paz e esperança para os moradores da comunidade de Varginha

Rio de Janeiro, (Zenit.org) Alfonso M. Bruno | 599 visitas

Pelo ritmo de apostolado do papa Francisco nesta viagem apostólica ao Brasil, seria adequado reconhecê-lo como patrono dos próximos Jogos Olímpicos no Rio de Janeiro. O atleta do espírito, aliás, teve um encontro, ontem, com alguns dos atletas mais representativos do país.

Para os antigos gregos, as Olimpíadas tinham um significado religioso e, durante os cinco dias de competição, eram suspensas as guerras.

O papa Francisco, como mensageiro de paz e de esperança no Rio, está contribuindo, de alguma forma, para "pacificar" os conflitos que existem entre mundos, culturas e classes sociais contrapostos, numa sociedade dividida e polarizada, na qual prossegue o processo de "limpeza" de guetos: no caso, as favelas.

Citius, Altius, Fortius: “Mais rápido, mais alto, mais forte” é o lema dos Jogos Olímpicos, e pode ser aplicado ao desafio lançado pelo papa aos jovens desta Jornada Mundial da Juventude. Ele, que recebeu do prefeito Eduardo Paes as chaves da cidade, já tinha aberto a porta do coração dos cariocas e dos brasileiros.

Atravessando às 11h30 a rua Leopoldo Bulhões, que dá acesso à comunidade de Varginha, Francisco entrou na capela de São Jerônimo Emiliani e abençoou o novo altar.

Francisco é uma correnteza, como aquelas que, nas chuvas torrenciais, arrastam as casas e as pessoas dessa região da cidade sem que as autoridades façam nada para ajudar, disse em seu discurso de boas-vindas o voluntário Rangler dos Santos Irineu, que é catequista juntamente com a esposa, Joana.

Rangler propôs, “já que Sua Santidade gosta de sair dos protocolos”, chamá-lo simplesmente de padre Francisco, como um pai que acolhe a todos, especialmente os mais pobres.

Ao sair da igreja, o papa recebeu uma echarpe do San Lorenzo, seu time do coração na Argentina.

Cruzando a favela, que recebeu algumas melhorias para a ocasião, Francisco beijou, acariciou, apertou a mão de crianças, jovens, idosos, doentes, recebendo presentes, lembranças, objetos a ser abençoados.

Depois de entrar em uma casa humilde, onde permaneceu durante oito minutos, Francisco
foi recebido numa tribuna simples, onde foi novamente saudado e ouviu novos agradecimentos pelo testemunho de predileção por uma comunidade entre as mais pobres da cidade.

Usando a expressão de Santa Catarina, que chamava o papa de “doce Cristo na terra”, os jovens mencionaram a ligação entre São Jerônimo Emiliani, a quem é dedicada a igreja local, e a juventude da comunidade, da qual ele é o padroeiro.

Pouco depois, o papa tomou a palavra. Disse que gostaria de "ter batido de porta em porta, pedindo um copo de água fresca, tomando um cafezinho, conversando e escutando pais, filhos e avós...".

Mas teve que escolher uma comunidade em particular, que representasse todos os cantos do Brasil, todas as "periferias existenciais e sociais".

Francisco encorajou o espírito de partilha e de solidariedade, usando a feliz expressão brasileira "botar mais água no feijão". "Só quando somos capazes de compartilhar é que enriquecemos de verdade. Tudo o que se compartilha se multiplica! A medida da grandeza de uma sociedade é determinada pelo seu modo de tratar os mais necessitados, aqueles que não têm nada além da sua pobreza", disse o papa.

Seu discurso sempre se voltava ao Documento de Aparecida. “Eu quero lhes dizer que a Igreja é advogada da justiça e defensora dos pobres contra as desigualdades sociais e econômicas intoleráveis​,​ que bradam aos céus”.

A proteção da vida, a promoção da família, a educação integral e não apenas focada em noções gerais, a atenção à saúde, não só física, mas também espiritual, a segurança, não podem ficar de fora dos interesses de uma nação.

Interrompido por aplausos frequentes, o papa não queria terminar o discurso sem insistir para que os jovens da periferia não se acostumem com o mal. A corrupção e a injustiça indignam e desanimam, mas “a realidade pode mudar, o homem pode mudar”.

Confiando todos a Nossa Senhora Aparecida e dando a sua bênção, Francisco terminou com sucesso aquele encontro, projetando, a partir de uma favela, uma esperança e um projeto novo de redenção humana e espiritual.