O papa Francisco na Cátedra do bispo de Roma

Monsenhor Brandolini, vigário capitular de São João de Latrão, explica o significado antigo do rito do assentamento romano

Roma, (Zenit.org) Salvatore Cernuzio | 903 visitas

Na Oitava de Páscoa, domingo 7 de abril, o Santo Padre Francisco presidirá a celebração da Eucaristia por ocasião da toma de posse da Cátedra Romana. O rito será às 17h30, na “mãe de todas as Igrejas”, a basílica de São João de Latrão e o acesso será livre para todos os fieis que queiram participar. O assentamento ou “toma de posse” desta sede, está prevista pela Constituição apostólica de João Paulo II Universi Dominici Gregis, sobre a eleição do pontífice, e tem raízes históricas muito antigas.

Zenit entrevistou o bispo Luca Brandolini, vigário capitular de São João de Latrão, que como liturgista expressa a sua opinião sobre os “primeiros passos” do novo sucessor de Pedro.

ZENIT: Excelência, qual é o significado desta festa?

- Mons. Brandolini: A celebração do domingo é o antigo rito do "sentar-se na Cátedra romana” e não de “toma de posse”, porque não toma posse de nada. Enquanto que os ritos da entrega do Pálio e do anel do Pescador colocavam em evidencia a dimensão universal do ministério do pontífice eleito, o do domingo ilumina a raiz totalmente eclesial, colocada pela providência de Deus na Igreja de Roma, da qual brota justamente o ministério petrino. Acontece na basílica de São Salvador (mais conhecida como São João de Latrão), porque, por costume antigo, é identificada como Igreja "mãe e cabeça" de todas as igrejas de Roma e de todo o mundo, como está escrito nos umbrais das colunas da fachada. Como todas as catedrais, além do mais, faz referência à cátedra, a sede episcopal da qual o bispo exerce o seu serviço doutrinário e litúrgico, "símbolo do poder do ensinamento, que não é um poder mas um serviço e uma obediência à palavra educação, que não é um poder, mas serviço e obediência à palavra de Deus, e é parte essencial do mandato de "ligar e desligar", confiado pelo Senhor a Pedro, como disse Bento XVI, quando se sentou na cátedra no dia 5 de maio de 2005. A celebração tem, por tanto, uma dimensão marcadamente pneumatológica, porque exalta o Espírito como origem do carisma e do ministério de Pedro, que dá começo e cumpre todas as coisas.

ZENIT: Como será a celebração do domingo?

- Mons. Brandolini: O papa Francisco será acolhido na porta principal da Basílica pelo cardeal Arcipreste, o cardeal vigário Agostino Vallini, o Cardeal Camillo Ruini, vigário emérito, pelo Conselho Episcopal da diocese e pelo Conselho dos párocos prefeitos. Depois beijará o Crucifixo, fará a aspersão e em procissão será acompanhado ao Palácio do Vicariato onde se revestirá. Assim começará a celebração com uma saudação do cardeal arcipreste, inspirado por uma tradição patrístico-litúrgica muito antiga, depois da qual o papa Francisco subirá à Cátedra para ser aclamado como bispo de Roma. Num segundo momento, doze pessoas cumprirão o rito da obediência: o cardeal vigário e o vice-gerente; dois sacerdotes, um pároco e um vice-pároco; dois diáconos, um permamente e um que se prepara para o ministério presbiteral; dois religiosos ao serviço da diocese de Roma; dois adultos, normalmente um homem e uma mulher, e dois adolescentes que receberam a Confirmação. Ao término disso começará a eucaristia.

ZENIT: De acordo com a Lenda Maior de São Francisco, o Papa Inocêncio III sonhou com um pobre frade que sustentava nos seus ombros a basílica de Latrão, símbolo da Igreja universal. À luz desta lenda, qual é o significado da volta de um novo Francisco a São João de Latrão pela primeira vez?

- Mons. Brandolini: Acho que é preciso rejuvenescer a Igreja, porque ela é semper reformanda, como repetidamente enfatizou o Concílio Vaticano II. Assim, o papa Francisco fará seu discernimento em torno desta reforma da Igreja adaptada aos nossos tempos, também baseado na sensibilidade que amadureceu com a sua experiência como bispo. Temos visto qual é o estilo do novo pontífice, muito simples, humilde, de atenção prioritária para todo o mundo da pobreza. Acho que continuará o seu caminho sobre estes mesmos trilhos sobre os quais já deus os primeiros passos.

ZENIT: O que você acha, pessoalmente, desse pontífice?

- Mons. Brandolini: Acho que é como todo bispo deveria ser, ou seja - usando as palavras de Santo Agostinho – Pastor bonus in populo, o bom pastor no meio do seu povo. Isso é, na minha opinião, a primeira tarefa que todo bispo deve cumprir, sem tirar nada à dimensão teológica, doutrinal, que também forma parte do seu ministério. O papa já demonstrou ser um “bom pastor” neste sentido, com muita simplicidade, mas também com grande profundidade e riqueza de conteúdos. Em especial, me emocionou muito a argumentação da Missa Crismal da Quinta-feira santa sobre a figura do sacerdote: as imágens do óleo que desce sobre a casula e inunda a todos, ou do “pastor com cheiro de ovelha”, são expressões realmente significativas.

ZENIT: O Santo Padre definiu-se a si mesmo até agora como bispo de Roma e não como papa...

- Mons. Brandolini: E espero que seja o Bispo de Roma! João Paulo II, por exemplo, visitou quase todas as paróquias da capital e também muitos hospitais. Quando fui bispo auxiliar para a Saúde de Roma, o beato João Paulo II,  a cada ano, na Quaresma e Advento, visitava hospitais, escolas, realidades eclesiásticas e assim por diante. Espero que o papa Francisco faça o mesmo, sempre tendo em conta as forças físicas. Wojtyla tinha 58 anos quando foi eleito, Bergoglio tem quase 77.

ZENIT: O que se espera do primeiro discurso que o bispo de Roma fará na sua catedral?

- Mons. Brandolini: Que fale sobre a cidade de Roma. Mais especificamente, vem à mente o que destaca o cardeal Vallini nas suas homilias: que Roma é uma cidade muito rica de recursos, não só do ponto de vista humano, mas também cristão. É uma cidade multicultural, multiétnica, mas que precisa de um novo e mais forte anúncio do Evangelho e uma comunicação aberta com todas as realidades ao serviço da promoção do homem, da vida social, do ecumenismo e do diálogo inter-religioso.

ZENIT: Nas primeiras celebrações do Papa Francisco temos visto uma "simplificação" dos ritos. Qual é a sua impressão como liturgista?

- Mons. Brandolini: Estamos plenamente de acordo com o que diz a Constituição conciliar sobre a Liturgia, a Sacrosanctum Concilium, ou uma "nobre simplicidade". Talvez em tempos recentes tornou-se um pouco mais pesado este aspecto do ponto de vista exterior. Então, estou convencido de que, através desta "simplificação", o mistério celebrado é revelado e se torna presente mais diretamente. O aspecto exterior, de fato, corre o risco de chamar a atenção mais sobre a dimensão estética do que sobre o mistério, que precisa contudo do silêncio, do clima de oração e da escuta, fundamentais na experiência litúrgica.

ZENIT: Quanto à "redução" que o Papa fez das leituras da missa da Páscoa, o que você acha?

- Mons. Brandolini: Está tudo previsto no Missal. Acho que o Santo Padre usou uma indicação que permite a escolha das leituras e diminuir com base nas circunstâncias, tais como quem preside ou a assembleia que participa. Há fragmentos que não devem faltar nunca como o Gênesis, o Êxodo e a Carta de São Paulo aos Romanos. As leituras proféticas, por exemplo, de quatro podem ser convertidas em uma. Não acho que o Papa tenha querido reduzir para diminuir o sentido de uma celebração que, na Liturgia da Palavra, oferece um quadro geral da história da salvação. E mais, parece-me que tudo foi conservado na Vigília Pascal em São Pedro, sobretudo os sacramentos de iniciação cristã que qualificam esta celebração.