O papa participa de vigília pelas vítimas da máfia

Entrevista com o pe. Tonio Dell'Olio, um dos organizadores da vigília de oração

Roma, (Zenit.org) Rocio Lancho García | 493 visitas

O Santo Padre preside nesta sexta-feira, 21 de março, uma vigília de oração com familiares de vítimas da violência mafiosa. Eles participarão do evento acompanhados por representantes territoriais da fundação Líbera, presidida pelo pe. Luigi Ciotti, em nome de algumas das 1.600 associações afiliadas à fundação.

A vigília acontecerá em Roma, na paróquia de São Gregório VII, a partir das 17h30. No encontro, serão lidos os nomes das cerca de 900 vítimas que a máfia fez na Itália nos últimos anos. Francisco poderá se aproximar das feridas espirituais que a violência organizada provoca no seio das famílias. Para conhecer detalhes do evento, ZENIT conversou com o pe. Tonio Dell'Olio, sacerdote responsável pelo setor internacional da Líbera e um dos organizadores da vigília. O pe. Tonio, que já tinha se encontrado com o então cardeal Bergoglio para tratar do trabalho da fundação contra a máfia, propôs este encontro ao agora pontífice: Francisco se mostrou muito interessado e respondeu: "Temos que fazer pelo menos isto!".

Como nasceu a ideia de fazer este encontro com o Santo Padre?

Pe. Tonio: Eu tinha contato pessoal com ele desde quando ele ainda era o cardeal Bergoglio. Na organização Líbera, que é uma rede de 1.600 associações nacionais e locais, nós temos também uma rede internacional que estamos construindo, e, por isso, eu fui várias vezes para a Argentina, para o México, para a Colômbia, países onde você sente mais a presença e a pressão da criminalidade organizada. Em 2010, houve uma oportunidade de me encontrar com o cardeal Bergoglio. Eu fiquei muito impressionado e impactado com o conhecimento e com a profunda sabedoria dele sobre a situação social da criminalidade organizada. E essa amizade foi crescendo. Quando ele foi eleito pontífice, eu propus um encontro com os familiares das vítimas das máfias, numa reunião que tivemos em janeiro com o presidente da Líbera, Luigi Ciotti. E o papa se mostrou muito entusiasmado e favorável a essa reunião com os familiares, porque ele dizia que este é o compromisso que nós temos que ter como Igreja, acolher as vítimas. O papa dizia: "Pelo menos isso nós temos que fazer!". E desde aquela data nós começamos a preparar o encontro. Não queríamos que fosse um encontro para debater o assunto, mas sim um encontro de oração.

E como vai ser exatamente o encontro?

Pe. Tonio: Vamos ter uma vigília de oração. Vão ser lidos todos os nomes das vítimas da máfia na Itália. Temos cerca de 900 nomes. Vamos ler o Evangelho, uma reflexão do papa e de alguns representantes da organização. Na sexta-feira, vamos ler o nome das cerca de 900 vítimas; calculamos que pelo menos 80 delas eram crianças ou jovens de 0 a 17 anos de idade. A máfia sempre diz que vai respeitar a infância, mas esta é que é a realidade. Sabendo como é o estilo do Santo Padre, que sempre quer falar, saudar e abraçar as pessoas, nós previmos também um encontro dele com os participantes, ou pelo menos com muitos deles.

Nas vezes em que você se encontrou com o Santo Padre, o que ele disse sobre o trabalho que vocês fazem?

Pe. Tonio: Ele é muito sensível com este assunto. Ele nos dizia que a Igreja tem que dar um exemplo, no sentido não só de se afastar do contato com homens e mulheres que fazem parte da criminalidade organizada. Nós sabemos também que a máfia é uma forma de pensamento e o Santo Padre nos incentivava muito a trabalhar no sentido evangélico, de anúncio, cultural, para afastar a mentalidade mafiosa. E sempre falar com grande liberdade em favor das vítimas e pelas vítimas. Não podemos só das vítimas que morreram, porque também existem as vítimas do tráfico de mulheres, de escravos, de jovens explorados nos bairros das periferias... Assim como os dependentes de drogas, que existem porque é um negócio que está nas mãos das máfias. Sim, nós notamos uma proximidade muito grande do papa e muito apoio no trabalho que estamos fazendo.

Que repercussão você acha que pode ter este encontro com Francisco em favor dos familiares das vítimas da máfia?

Pe. Tonio: Nós sabemos que, talvez de forma inconsciente, a atitude da Igreja no passado, e estamos falando de comunidades em diversas cidades ou regiões do nosso país em particular [a Itália, ndr], nem sempre teve a mesma visão das coisas. Por exemplo, existem sacerdotes que ajudaram pessoas que se escondiam, porque estavam sendo procuradas pela polícia, e com aquela ideia de que "eu tenho que ajudar todo mundo", eles ajudavam também aquelas pessoas. Além disso, a máfia italiana mais tradicional, como a Cosa Nostra e a Ndrangheta, sempre tiveram o costume de participar da religiosidade popular da Igreja. Temos também pessoas da máfia que tinham lugar reservado dentro das igrejas. Com esses pequenos exemplos, eu quero dizer que nem sempre a vigilância da Igreja foi forte neste âmbito. E nem sempre foi dada a importância de anúncio que tem que ser dada à denúncia. Eu acho que as palavras do papa Francisco, o sinal que ele vai dar nesta sexta-feira e o conhecimento que ele tem do assunto da máfia pode incentivar muito a Igreja, pastores e leigos, a ter um perfil muito bem definido sobre a vigilância e a denúncia na questão da máfia.

E dentro da Igreja também há muita gente que vem lutando contra a máfia...

Pe. Tonio: Claro, nós temos exemplos de mártires que é importante recordar. Temos em particular um padre, Pino Puglisi, que foi beatificado no ano passado. E outros dois que começaram o processo [de beatificação]: o pe. Peppe Diana e o juiz Rosario Livatino.

Como é o dia-a-dia do trabalho da associação?

Pe. Tonio: Existe um trabalho anti-máfia, que é feito pela polícia, pelos juízes e pelos tribunais. Mas também é importante o trabalho social e cultural, que é o nosso perfil. Nós trabalhamos com a educação e com a formação, tanto de modo formal quanto através de cursos, nas escolas, de educação para a legalidade. Isto significa não é só estudo das leis, mas também educação cidadã. A educação informal seria nas áreas das cidades onde as organizações criminosas ganham mais força, porque elas saem em vantagem nas áreas de condições sociais mais baixas, se aproveitando dos jovens de rua. Além disso, nós promovemos também leis cada vez mais eficazes contra a máfia. Por exemplo, em 1996, depois de levantar um milhão de assinaturas, propusemos uma lei ao parlamento que foi aprovada, para confiscar bens da máfia. Isso não serve só para atingir o coração dos interesses mafiosos, que nós sabemos que é acima de tudo o enriquecimento e o aumento do patrimônio, mas também para utilizar socialmente os bens confiscados, especificamente os edifícios e a terra. Os edifícios agora são usados como escritórios municipais, organizações sociais, casas familiares para órfãos e idosos... Mas a questão das terras é mais complicada. Depois de aprovar esta lei, nós formamos cooperativas juvenis que vão trabalhar essas terras confiscadas e produzir o que pode ser comercializado: vinho, massa, azeite, verduras... E tudo isso vai para a venda com a marca "Líbera Terra". Fazendo assim, nós não só atingimos a "riqueza ruim" dos mafiosos, mas contribuímos para criar cultura, mentalidade nova, e os cidadãos contribuem com a compra desses produtos. Até agora, o modelo está funcionando muito bem e nós vamos propô-lo para outros países. E, desta forma, vamos contrastar a economia criminosa ou a máfia econômica que é mais tolerada agora, em época de crise, porque é um poder tão forte que se infiltra na economia lícita.