O Papa que beijou minha filha

Como resumir sentimentos em poucas linhas? Escreve Zé Caetano, ex CEO de ZENIT

Taubaté, (Zenit.org) Zé Caetano | 1394 visitas

Esse foi o último domingo em que celebrávamos a Missa em comunhão com Bento XVI. No próximo já será Sé Vacante. Muita gente falou o que quis do Papa nesses dias, alguns falaram a verdade, outros mentiram, especularam, se enraiveceram. Houve pseudo-católicos comparando Bento com João Paulo II, e até uma parca jornalista de um jornal de grande circulação, quem em toda sua arrogância, resolveu considerar Josef Ratzinger como um covarde (não me atrevo a repetir o termo que usou, não possui nenhuma fineza e nenhum decoro). Resolvi, então eu, falar da renúncia desse Papa ao Trono de Pedro.

Do alto de meu pequeno banquinho de uma perna só, de tirar leite de vaca, desses que se usava amarrado na cintura nas antigas fazendas do interior paulista, região de onde vim, como ex-quase-vaticanista-meio-jornalista que sou, com muito orgulho, tendo trabalhado 9 anos cobrindo a vida da Igreja, e com o coração de católico eu vou falar. Para mim, Bento XVI foi "o Papa que beijou minha filha".

Nasci sob Paulo VI, tive um mês de João Paulo I, cresci e virei adulto com João Paulo II. Em 1980, eu estava no ombro de meu (hoje falecido) pai na Basílica de Aparecida a poucos metros do João de Deus. Quando ele veio falar com as famílias no Rio, acompanhei de perto sua jornada. Depois, em 2003, sofri como um filho que via o pai enfermo numa audiência de Quarta-feira ao vê-lo muito debilitado pelo Parkinson. Era um martírio tentar entender o que ele falava e ouvir sua respiração no microfone. Amei João Paulo II, mas não tive contato próximo com ele.

Com Bento foi diferente. Quem me conhece sabe que eu já era fã do cardeal Ratzinger e conhecia todos seus escritos mais famosos. Sabia que ele era fiel ao depósito da Fé. Quando houve o conclave para a sucessão de João Paulo II, pedi ao Espírito Santo para escolher bem o novo Papa, mas que se Ele quisesse me ouvir, que fosse o meu chará José Ratzinger. Acho que ele ouviu e minhas lágrimas de tristeza dos dias antes tornaram-se lágrimas de alegria no anúncio do Habemus. Como desidratei naqueles dias temíveis.

Quando Bento XVI esteve no Brasil, estive pertinho dele, e ali, na Basílica de Aparecida, a menos de 3 metros, cruzamos pela primeira vez o olhar. Ele sorria e eu sorria em resposta. Sim, ele meu viu, tenho certeza. Eu, então, seguia passo a passo seu pontificado. Era meu trabalho noticiar bem aquilo que ele fazia.

Para minha surpresa, quando os bispos africanos foram chamados para se reunir em Sínodo no Vaticano, fui convocado para trabalhar no grupo de língua portuguesa que cuidava dos textos oficiais daquele encontro. Nessa época eu morava em Roma com minha família, por sinal, bem pertinho da “porta dos fundos” da Cidade do Vaticano. Um ou outro amigo me considerava vizinho do Papa. 

Porém, já se aproximava o dia em que voltaria ao Brasil e nesses exatos últimos dias, meus sogros estiveram em Roma por ocasião do aniversário de meu sogro. Pedi então dispensa a meu chefe na Secretaria do Sínodo e, como presente para meu sogro, pedi também que esse chefe, com sua influência, me conseguisse convites mais próximos do Papa na Praça de S. Pedro.

Eu pensei em 50 metros, o que, em dimensões vaticanas, é bem próximo, mas quando vi, estava a 5 metros do trono papal. Estava muito feliz, com minha família, tão pertinho do Papa (ai que luxo! – como diria Raul Seixas, um controverso roqueiro brasileiro). Contudo, o Senhor da minha vida havia me reservado um presente de despedida de Roma muito maior. 
No finalzinho da audiência, quando o Papa passaria bem na nossa frente de Papamóvel, um dos cerimoniários, o Maurício, sugeriu em levar minha filha mais nova, a Manuela, que tinha 8 meses, até o Papa, para que ele a abençoasse. Ele pediu desculpas por não levar a Myriam, então com 2 anos, mais ou menos, pois também já tinha idade, e não aguentaria o peso.

Quando o carro se aproximou, entreguei minha bebê nas mãos do Maurício, que a levou até o Papa, que então a tomou em suas mãos e a beijou na testa (nesse momento houve um grande óh das 25 mil pessoas na Praça de S. Pedro, pois a imagem era mostrada nos telões espalhados - mas eu juro que não me dei conta disso na hora). Logo quando o Papa Ratiznger devolveu-me a Manuela, seus olhos se cruzaram com os meus novamente. Sim, nos olhamos profundamente. Em minhas lágrimas ele viu meu obrigado e nos seus e vi um sorriso, como que de um vovozinho querido, ou um velho pai que ama seus filhos. Um homem doce. E naquele momento único ficamos amigos, daqueles amigos que não precisam de palavras para expressar o amor. O meu amigo Papa. Ele também acenou para Myriam e para Ana Paula, minha esposa.

Depois eu receberia em casa, uma bela carta agradecendo por meu trabalho em nome da Igreja, assinada por seu Porta-voz. Ele me conhecia, e me disse obrigado também. Eu que nada fiz comparado a todo suor e lágrimas que ele mesmo tinha derramado pela Igreja de Nosso Senhor. Mas o meu amigo Papa me disse obrigado.

Portanto, falem o que quiser de meu amigo, mas serei obrigado a desconsiderar se falarem mal dele, da mesma maneira que desconsidero quem fala mal dos meus amigos de casa. Bento XVI é meu amigo e jamais esquecerei seu olhar profundo.

Obrigado, Bento XVI, obrigado Ratzinger... Obrigado, meu chará, Josef. Aprendi muito com o senhor. Aprendi a pedir perdão pelos meus defeitos e assumir a verdade da minha vida. Aprendi que Deus é simples e que a coisa mais importante de todas é o Amor. 

Queria poder me encontrar com o senhor, e levar a Manuela, que completou 4 anos exatamente nesse último domingo em que o sacerdote proclamava seu nome na Oração Eucarística, para que o senhor veja como ela está crescendo sadia, e sabe te reconhecer como "seu Papa", e corre para abraçar a TV quando vê o senhor em alguma imagem, sem que ninguém a encoraje a isso. Queria novamente cruzar meu olhar com o seu e novamente dizer "Grazie!", como lhe disse naquele dia de outubro em 2009. Mas acho que não nos veremos mais, pelo menos as circunstâncias assim indicam, pois o senhor vai para a clausura do mosteiro e eu, bom, eu já não sou mais o ex-quase-vaticanista-meio-jornalista que era e sou apenas um fotógrafo disputando com o aluguel na grande cidade de São Paulo. Não sei o que o futuro me reserva, já que Nosso Deus sempre está tramando algo, mas hoje eu não tenho condições de estar aí em Roma.

Contudo, rezarei por seu descanso, principalmente pelas horas mais dolorosas que serão as do dia 28 às 20h de Roma. Imagino que não seja fácil renunciar a seu múnus. Se para mim foi difícil deixar meu cargo de vaticanista, imagine para o Papa! Mas conte com minhas pobres orações, meu amigo.

Quem sabe essa minha mensagem chegue até o senhor através, talvez, das mesmas pessoas que me deram o presente de estar a seu lado nesses anos. Pessoas às quais também digo: “Grazie, di cuore!”

Fique com Deus, Papa Bento, fique com Deus!
*Zé Caetano, é fotógrafo em São Paulo, e foi CEO da agência ZENIT até 2010. Seu Twitter é @zeh_caetano