O pedido de perdão de João Paulo II foi uma ótima intuição

Entrevista com o cardeal Georges Cottier, testemunha do Vaticano II (parte 2)

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Por José Antonio Varela

ROMA, quarta-feira, 18 de julho de 2012(ZENIT.org) - Nesta segunda parte da entrevista, realizada em sua casa no Vaticano, o cardeal Cottier fala da saudade de seu “chefe”, papa Wojtyla, reconhecendo que muitas de suas ações como Pontífice foram fruto do espírito do Concílio Vaticano II. E todos os outros atos foram caracterizados por uma intuição que abriu à humanidade o caminho para a  paz e a fraternidade.

Falando da Nova Evangelização, como o senhor vê o recente apelo do papa? Qual é o aspecto mais importante?

Cardeal Cottier: A nova evangelização, antes de tudo, quer dizer duas coisas. Primeiro, a tradição missionária que a Igreja sempre teve. Vivemos num mundo novo, com dois novos fenômenos: a globalização, que não existia antes, e a crise do ocidente. Este é o pano de fundo da nova evangelização: não precisamos dizer coisas novas. Temos uma cristandade ocidental, especialmente na Europa, mais do que na América, em que as pessoas pensam que conhecem o cristianismo, mas estão desligadas dele. Por que isso acontece? Talvez porque nós continuamos administrando os sacramentos através das estruturas tradicionais, mas não continuamos pregando o evangelho o suficiente. Quando o cristianismo vira um fato social, as pessoas se deixam levar pelas tradições, pelos costumes, e o conteúdo tende a se esvaziar. E assim temos gerações, inclusive nas famílias cristãs, que não sabem nada do cristianismo, a tal ponto que, muito justamente, vem-se falando de analfabetismo cristão.

Na sua opinião, os católicos sabem pregar e anunciar Jesus?

Cardeal Cottier: Ah, depende. Para dizer a verdade, eu não sei se nós sabemos. Tudo depende da graça de Deus. Somos dominicanos e eu acho que temos que fazer um grande esforço. Temos que pregar Jesus, mas também promover a educação cristã, a catequese, porque a pregação, de repente, nos acorda. Quem faz isso de um jeito forte e muito emotivo são as seitas evangélicas, mas eu não sei se isso dura a vida inteira. Eu diria que nunca devemos separar o anúncio e a catequese, porque o mal é a ignorância. Não basta viver uma súbita conversão. Temos que viver a fé.

O papa João Paulo II já é beato. Quais foram as grandes contribuições dele para o mundo e para a Igreja?

Cardeal Cottier: Muitas. Eu acho que João Paulo II foi um homem de esperança. Quando ele disse "Não tenham medo", ele falava para os países ocupados pelo comunismo, mas também falava isso porque tinha visto um certo declínio no ocidente, e queria acordar a Igreja, em todos os lugares. Além disso, o amor pela vida, fantástico, que ele testemunhou particularmente no último período, já marcado profundamente pela doença. E a juventude captou tudo isso ...

O senhor foi teólogo de João Paulo II durante anos. Qual foi a sua participação mais importante nesta posição?

Cardeal Cottier: Eu tinha que rever todos os textos falados ou assinados pelo papa, porque, com muitos colaboradores, nós tínhamos que enfatizar a unidade do pensamento, a legitimidade, a clareza. O trabalho diário era praticamente isso. Eu diria que o importante são os grandes atos do papa. Por exemplo, dois anos depois da minha chegada, eu li o Catecismo da Igreja Católica e me lembro de ter feito isso com grande alegria. Eu li também as encíclicas, o que foi uma coisa muito interessante para mim, porque algumas delas eram confiadas à Congregação para a Doutrina da Fé, e lá, como consultor, eu tive a oportunidade de fazer parte de grupos de trabalho e de ver o gênio do cardeal Ratzinger, agora papa, que tinha um verdadeiro dom para orientar os grupos de trabalhos, definir uma linha, ouvir. Tudo era muito bonito... Outra experiência que me impressionou muito foi a preparação do Ano Santo.

O ano 2000? Daquele ano, todos nos lembramos da "purificação da memória", querida pelo papa ...

Cardeal Cottier: Sim. Eu era presidente da Comissão Teológica Histórica e na época saiu a Tertio Millennio Adveniente. O papa teve a ideia de pedir perdão pelos pecados dos cristãos no passado, uma coisa bonita, mas que criou muitas perplexidadesem alguns. Eu soube que, na primeira reunião, ele explicou aos cardeais e muitos ficaram em dúvida, mas na verdade foi uma ótima intuição. Nós, os cardeais, tivemos que preparar congressos científicos sobre o assunto, com muitas dificuldades, porque o assunto era novo e o desconcerto foi manifestado também por alguns teólogos. Quando decidimos quais questões podiam ser úteis, pensamos em três: a primeira foi a escravização dos africanos, a deportação, especialmente para a América do Norte e do Sul. O segundo tema foi a inquisição, e o terceiro foi a responsabilidade dos cristãos no antissemitismo, mas diferenciando o antissemitismo do antijudaísmo.

O papa quis que fosse um ato público, certo?

Cardeal Cottier: Sim. E outra grande recordação pessoal é que, mesmo já bem cansado, mas com uma coragem extraordinária, o papa fez todo o programa para o Ano Santo. Eu me lembro especialmente do dia 12 de março, quando nós tivemos a liturgia para pedir o perdão. Você via o papa apoiado na cruz e os responsáveis lendo uma oração. Foi uma liturgia belíssima, e todos contribuímos para isso.

A parte 3 desta entrevista será publicada quinta-feira (19).


A parte 1 encontra-se em: http://www.zenit.org/article-30843?l=portuguese

(Tradução:ZENIT)