O que é importante para ajudar a reconstruir o Haiti?

Após dois anos da tragédia, responsável pelo projeto de ajuda da AIS fala ao ZENIT

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ROMA, quinta-feira, 12 de janeiro de 2012(ZENIT.org) - Rafael D’Aqui, advogado, estudou Direito Civil e Canônico na Universidade Lateranense de Roma , é responsável pela Seção América Latina I, da Fundação Pontifícia - Ajuda à Igreja que Sofre  (AIS) - . Ele contou ao ZENIT sobre sua experiência de trabalho no projeto de ajuda ao Haiti.

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Quando você recebeu a proposta para acompanhar os projetos no Haiti, já havia acontecido a tragédia do terremoto do 12 de janeiro de 2010?

Durante o meu tempo de estágio preparatório para o trabalho aqui na sede internacional da AIS, entre julho e setembro de 2009, já havia tido contato com projetos do Haiti. No dia da tragédia, estava trabalhando na redação brasileira da Rádio Vaticano e a notícia da morte da Dra. Zilda Arns no terremoto em Porto Príncipe, recordo-me, nos deixou a todos consternados. Alguns meses, mais tarde, em julho de 2010, assumi o cargo de Responsável de Projetos da Seção que já acompanhava os trabalhos no Haiti, o que me satisfaz, pois a grande necessidade do país nos motiva a trabalhar mais e com redobrada motivação por esse povo tão sofrido. Em minha seção, acompanho projetos pastorais na região geográfica entre a Bolívia e o México (excluindo, portanto Cuba, Brasil, Argentina, Chile, Paraguai e Uruguai, que pertencem à Seção América Latina II).

A tragédia mudou alguma coisa na execução dos trabalhos da AIS naquele país?

Nossa Seção sempre buscou acompanhar de perto toda a situação haitiana, especialmente do nosso interlocutor principal, que é a Igreja – na pessoa dos bispos, sacerdotes, religiosas e religiosos – gente que sempre esteve em primeira linha muito comprometida com o desenvolvimento do país. Nossa primeira atitude foi buscar de todo jeito contactar nossos parceiros de projeto no local. Três meses após a catástrofe, convidamos o presidente da Conferência Episcopal Haitiana, Dom Kébreau e o então Administrador Apostólico de Porto Príncipe, Dom Lafontant, para uma visita à nossa sede. Antes de minha chegada para assumir o cargo na Seção, já uma equipe de trabalho nossa havia estado nos locais mais tocados pela tragédia.

Quando você foi ao Haiti, qual foi a maior necessidade encontrada?

Vimos logo a necessidade de visitas e contatos mais frequentes para atender bem a demanda. Ouvir e conhecer mais profundamente a dor e a consternação de nossos irmãos haitianos tornou-se assim uma prioridade para nossa seção. Por isso em meu primeiro ano de trabalho aqui busquei dedicar-me especialmente a conhecer pessoalmente mais deste país. Já realizei 2 viagens ao Haiti neste último ano e pude encontrar todos os bispos e conhecer mais de perto mais do sofrimento da população. Ambas as viagens que realizei contaram com especial ajuda e colaboração da Conferência Episcopal Haitiana, que articulou um programa e algumas entrevistas nas 10 dioceses do país.

Qual é o critério utilizado para a execução dos projetos que você acompanha? Vocês contam com a ajuda da população local?

Nosso trabalho na AIS prioriza atender, como desejava o nosso fundador, Pe. Werenfried van Straaten, as urgências e as carências mais sentidas da Igreja local para que a boa nova chegue a todos os homens. Para isso, dedicamos muito de nossa viagem para deixar que a própria Igreja no Haiti nos mostre o que podemos fazer, dentro de nossas possibilidades, para que os seus agentes continuem sendo “tudo para todos”. Essa foi a impressão mais forte que tive da Igreja nesse país. O sacerdote, a religiosa, os agentes da pastoral do dia-a-dia são sinal de esperança para a população. Entrevistando alguns sacerdotes, nos surpreende ver estes homens que dedicam a sua juventude – muitos são bem jovens! – em localidades onde faltam todas as estruturas. E eles nos dizem: “amigo, aqui o pároco sou eu, mas o padre é também pro povo médico, advogado, juiz, motorista... se um pessoa está doente ou uma mulher grávida precisa dar à luz, não tenha dúvida que a nossa gente não hesitará em nos chamar, mesmo que seja no meio da madrugada”.

O que mais te impressionou durante estas viagens? Você se lembra de algum momento em particular?

Durante as duas viagens, certamente muitas cenas me impressionaram. Mas particularmente nos dá uma grande sensação de impotência e uma certa tristeza ver a Catedral e o Palácio Presidencial de Porto Príncipeem ruínas. Osdois monumentos da capital haitiana continuam incomodando a paisagem até hoje, 2 anos após a tragédia. Eles são símbolo de muitas vidas que ficaram em pedaços naquele país, depois da catástrofe natural. Hoje, acredita-se que apenas 50% dos escombros foram retirados das ruas. A impressão que deixa após a segunda viagem de trabalho é que eles quase que se “integraram” à paisagem urbana, em meio a uma avalanche de carros que entopem as vias e alguns acampamentos que resistem à provisoriedade para os quais foram criados.

A primeira viagem de trabalho, em novembro de 2010, foi especialmente marcada por um período tenso que pudemos testemunhar. Coincidiram, durante a visita de nossas equipes, o início da trágica epidemia de cólera, algumas rebeliões contra a MINUSTAH (forças de paz da ONU que ocupam o território) e clima tenso em razão da disputa presidencial.

A segunda viagem foi em maio do ano passado. Nela buscamos compreender melhor a dinâmica na qual o país foi introduzido. Procuramos conhecer um pouco mais das localidades igualmente necessitadas fora do eixo Porto Príncipe-Jacmel. Com a migração interna após o 12 de janeiro de 2010, alguns tentam a vida em outras regiões do país, longe da agitação da capital e em terras onde supostamente estariam livres de tremores. Dessa segunda viagem nasceram alguns posts em meu blog:www.novavereda.blogspot.com/search/label/Haiti com entrevistas, pessoas, histórias e músicas que ouvi na minha estada.  

As pessoas do local, especialmente após a catástrofe de 2010, sonham com alguma coisa?

Surpreendeu-me o fato de que muitos haitianos sonham com um visto que lhes possibilitava uma chance de vida melhor no exterior. Isso é, em minha opinião, um sintoma de que muitos não encontram oportunidade, as desigualdades no país são assustadoras e, infelizmente, o Estado historicamente não foi capaz de atender às demandas da população. Milhares tentam a vida no Canadá, outros na França e alguns também nos EUA. Essa comunidade da diáspora é o “ganha pão” de muitas famílias. A insegurança alimentar, a falta de infra-estrutura de base (água, esgoto, educação para todos, moradia digna), somada ao altíssimo índice de desemprego, faz com que muitas lideranças, muitos “cérebros” fujam da realidade. Outros tantos que se encontram no país, não tem oportunidade.

Qual era a situação das pessoas, particularmente, nos acampamentos? Como você foi recebido?

Eram os lugares de maior sofrimento, mesmo acompanhados por alguma presença eclesial, nem sempre é fácil... Há dois sentimentos: os estrangeiros nos trouxeram a tragédia, ou é do exterior que vem a salvação. Nunca sabemos com qual atitude vamos nos deparar. Mesmo um bom tempo após a tragédia, há uma ferida “psicológica” que pode custar a sarar. Com razão muitos não aceitam serem fotografados em condições indignas, como as que oferecem os acampamentos ou favelas como a de Cité Soleil, na capital, onde o lixo se confunde com os animais, os veículos e as pessoas. Mas em geral, há que ser sincero e dizer que tive uma experiência muito positiva. O povo é em geral bastante acolhedor e simpático. Há muita gente cansada de esperar. Há muitos que trabalham também para reacender a esperança.

Passaram-se dois anos desde a catástrofe, o que a população espera de vocês e das outras organizações que ajudam na reconstrução do Haiti? Como você acompanha a situação do local atualmente?

A grande tentação nesse momento pode ser a de reconstruir tudo de qualquer maneira. Talvez alguns esperem uma resposta mais ágil das organizações, mas precisamos assegurar nossos benfeitores e a população beneficiada pelos projetos de que as construções que serão feitas respeitarão realmente medidas técnicas anti-sísmicas e também anti-ciclônicas, já que anualmente o país é tocado por fenômenos naturais que ocasionam danos nesse sentido.

Acompanhamos a situação principalmente através do parecer dos bispos de cada localidade. Mesmo não podendo estar mais presente fisicamente, pois tenho que acompanhar projetos também em outros países, buscamos estar unidos sempre na oração e obter informações. Um princípio de trabalho da Fundação AIS (www.acn-intl.org) é tudo começar pela oração. Rezamos primeiro com nossos benfeitores pela situação dos nossos irmãos no mundo. Buscamos nos atualizar com os nossos contatos para manter nossa rede de benfeitores em dia com as notícias que nos chegam das diversas partes do mundo. Por fim, aqueles que se sentem tocados por uma ou outra realidade tem também a ocasião de fazer uma partilha concreta pelo bem de outros mais necessitados no mundo.

E o que seria realmente mais importante para ajudar a população Haitiana?

Creio firmemente que investir e apoiar o trabalho com a Igreja católica é um ponto chave. Temos visto que os missionários fazem o bem a todos sem discriminação. Muitas seitas e outros movimentos religiosos, além das ONGs tem entrado no país com uma caridade que infelizmente faz bem só a si mesmo ou a grupos restritos. Uma irmã uma vez indignada dizia que o trabalho das ONGs é assim: “precisa não enxergar de um olho ou ter uma perna torta pra poder receber alguma coisa dessa gente”. Claro que cada um tempo o seu papel e há organizações que trabalham com seriedade. A Igreja trabalha diretamente com a população e está aberta a todos. Um bispo nos explicava: “aqui a primeira coisa que a gente faz quando abre uma missão é criar a escola. O padre é também professor. Se não ensinarmos o povo a ler, não encontramos ninguém que possa fazer as leituras na missa!”. De fato, há um costume de construir “capelas-escolas”, onde nas localidades mais desatendidas dá-se uma oportunidade a muita gente pra começar seus estudos. Da mesma maneira, trabalha-se com os órfãos, com os doentes (nos dispensários e nos hospitais). Temos buscado ajudar especialmente às congregações religiosas locais, pois boa parte da educação passa pela mão das irmãs que são professoras seja no ensino público que privado.

Um bispo nos dizia durante nossa viagem: “Mais importante que reconstruir paredes hoje – que também precisamos – é educar o povo e reconstruir o país a partir do coração de cada homem”.  

Por: Maria Emília Marega