O que o Islã ensina aos cristãos?

Piero Gheddo perguntou ao Padre Davide Carraro, do Pontifício Instituto para as Missões Exteriores (PIME)

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Padre Piero Gheddo

ROMA, sábado, 21 de janeiro de 2012 (ZENIT.org) .- O Pe. Davide Carraro do PIME tem 31 anos e esteve dois anos no Egito para aprender o árabe e depois ir para a Argélia. Faço-lhe uma pergunta que me fascina: "Você viveu dois anos entre um povo com grande maioria muçulmana. Do Islã nós já conhecemos aqueles aspectos que são negativos. Pergunto: quais são os aspectos positivos desta religião? O que pode ensinar, a nós, cristãos, a vida de um povo muçulmano? ".

Davide responde: "A vida social no Egito é marcada pela oração, pela chamada à oração, pelas muitas pessoas que rezam em público, não se envergonham de rezar em público, e mais, este é realmente um gesto considerado positivo, uma pessoa que não se envergonha de professar sua fé. Até mesmo na maneira deles falarem, há, muitas vezes, expressões religiosas: Como Deus quer ... Estamos nas mãos de Deus ... Deus abençoe a todos nós ... Deus está sempre presente no seu modo de falar e até mesmo no seu vestir. Por exemplo, uma mulher de véu é um símbolo religioso, aquela mulher é temente a Deus, No Egito, muitos homens têm uma marca negra ou cinza na testa que indica a oração ("zabiba"), que é feita colocando a testa no chão. Às vezes fazem uma pequena tatuagem que indica isso.

"Depois, há uma chamada pública à oração três vezes por dia que é muito forte, o sentem todos: "Vinde à oração, que é muito mais importante do que o sono". É um lembrete que dá ritmo ao dia. Para nós, o relógio da torre ou do campanário ritma o tempo que passa. No islã a chamada do muezzin lembra que estamos sempre com Deus, na presença de Deus. Que depois vão ou não vão para a oração é um outro problema, mas a sociedade publicamente faz a chamada para a presença de Deus. Sente-se na atmosfera uma certa religiosidade que não sinto na Itália. Que depois seja formal ou autêntica é uma outra coisa, mas para nós Ocidentais, que perdemos o sentido de Deus na nossa jornada, na nossa vida, isto é um forte apelo".

Lembro-me do Padre Davide que nos anos trinta e quarenta, quando eu era um menino na minha cidadezinha de Tronzano Vercellese, quando os sinos tocavam o Angelus, três vezes ao dia, manhã, tarde e noite, mesmo aqueles que trabalhavam nos campos ou caminhavam pelas estradas paravam e faziam o sinal da cruz recitando uma oração. A minha infância e juventude em Tronzano (eu nasci em 1929) foi marcada por essa atmosfera religiosa na vida pública e nas famílias (por exemplo a oração comum do terço nas tardes) que hoje perdemos na Itália.

 "E eis que - continua Davide - no Egito ainda é muito forte. Até os cristãos cóptos egípcios fazem tatuagens no pulso, desde crianças, uma pequena cruz sempre visível quando se estica a mão para cumprimentar, para pegar alguma coisa.

Os coptas, vendo que os muçulmanos rezam, ou no mês do Ramadã, saem por aí com o Alcorão na mão, dizendo que são sinais de hipocrisia, porque depois jogam bombas em nós. Mas aqui entramos em um outro tema. Para dialogar com estes nossos irmãos muçulmanos, devemos também ver os seus aspectos positivos. Se nos outros também vemos seus aspectos positivos, assim é possível construir um diálogo, uma amizade."

"Outra coisa que me impressionou no Egito é o grande respeito que eles têm pelo Alcorão, sempre, não só publicamente, mas também em privado. O sentido do sagrado e do livro sagrado. Por exemplo, nunca se coloca nenhum livro sobre o Alcorão, que deve ser mantido em um lugar de honra, elevado, isolado. Isto indica o senso da presença contínua de Deus na nossa vida e na vida da sociedade.

"É verdade que vivem uma religião diferente da nossa, mas justamente esse fato, encontrando-os, dá-nos a oportunidade de entender também o valor da nossa fé e nosso Livro.

"Por exemplo, eu, como estrangeiro, no pequeno comércio, no restaurante, tive mais decepções com os cristãos coptas que dos muçulmanos, os muçulmanos têm sido mais honestos do que os cristãos. Talvez porque nós, como cristãos, sempre insistimos, e com razão, num Deus que é amor, Deus nos ama, Deus nos perdoa, perdemos um pouco o temor de Deus. Os muçulmanos não. Eles têm o senso da presença contínua de Deus, que vê e julga tudo, talvez eles têm medo de Deus, mas não perderam o temor de Deus. No Egito e na Argélia, em contato com as pessoas comuns, tive impressões positivas. A violência que explode, as vezes, eu mesmo nunca a vi. No Egito, andando por aí, eu vi as igrejas queimadas pelos muçulmanos e conheci um padre Comboniano no Cairo, que mataram quando queimaram uma igreja. Mas na rua, nos contatos com as pessoas, não se respira esta atmosfera".

[Tradução TS]