O retorno à beleza original da vida consagrada

Entrevista com o cardeal João Braz de Aviz, prefeito da Congregação para os Institutos de Vida Consagrada

Roma, (Zenit.org) Jose Antonio Varela Vidal | 1225 visitas

Na festa da Apresentação de Jesus no Templo, comemorado no sábado (2), a Igreja celebrou o Dia da Vida Consagrada, instituído pelo Beato João Paulo II.

Para saber mais sobre as atividades deste dicastério e falar sobre algumas questões atuais, ZENIT entrevistou o cardeal brasileiro João Braz de Aviz, prefeito da Congregação para os Institutos de Vida Consagrada e Sociedades de Vida Apostólica.

ZENIT: O que aprofundar no Dia da Vida Consagrada deste ano?

Cardeal Braz de Aviz: A experiência cristã de seguir Jesus é um caminho para todos os batizados, mas a vida consagrada é uma chamada um pouco especial, no sentido de que não há um mandamento sobre isso. Algumas pessoas para seguir Jesus deixam todos os bens e vivem na pobreza. Outra dimensão é a da virgindade, não porque não dão valor ao casamento, mas porque ouviu dizer que Deus é maior do que o casamento. Isto significa seguir a Jesus, como Cristo seguiu o Pai, e Maria seguiu a Deus na virgindade.

ZENIT: E a obediência?

Cardeal Braz de Aviz: A questão da obediência e do respeito pela autoridade é uma dimensão muito bela, porque a pessoa escolhe obedecer a Deus e o faz aceitando a mediação da autoridade humana inspirada pelo Senhor. Essas são as formas próprias da vida consagrada. Onde nascem comunidades maduras, nascem os consagrados, porque desde o início da Igreja tem sido assim. Agora é necessário um retorno à beleza original, isto é, àquela dos fundadores, caracterizada pelo testemunho profundo, que mostra como seguir a Deus de modo completo.

ZENIT: Depois de cinquenta anos da publicação do decreto do Concílio Vaticano II sobre a renovação da vida religiosa Perfectae Caritatis, quais são os frutos e quais são as estradas a serem percorridas?

Cardeal Braz de Aviz: O Concílio Vaticano II foi um momento decisivo para aprofundar e desenvolver a vida consagrada. A Caritatis Perfectae foi uma grande contribuição nesse sentido. A partir daí, houve um apelo da Igreja a todas as famílias religiosas, de uma atualização dos seus estatutos e suas regras.

Agora, depois de 50 anos, é evidente que precisamos voltar à autenticidade do testemunho. Penso também na necessidade de caminharmos juntos, ajudando-nos reciprocamente para viver mais intensamente a própria consagração.

E penso ainda, o que ouvimos de nossos pastores, sobretudo dos últimos Papas, que devemos redescobrir as duas dimensões essenciais da Igreja: a dimensão hierárquica e a dimensão profética e carismática.

Os carismas e a profecia, não são coisas pequenas, mas algo que vem junto com o ministério. O ministério continuará a discernir o carisma, mas deve fazê-lo depois que conhece e ama o carisma.

ZENIT: No mundo moderno onde há uma forte secularização qual é a voz profética dos consagrados?

Cardeal Braz de Aviz: A tarefa do carisma é "transmitir a experiência de Deus”. Eu tenho que me perguntar: Deus realmente me faz feliz? Ou eu tenho outras fontes de felicidade? Eu encontro a felicidade em outras pessoas ou de outras maneiras?

Este é um grande desafio, porque não basta falar, é preciso que o outro veja em nós que é exatamente assim. E nós não existimos apenas para ajudar aqueles que têm problemas de saúde, educação e pobreza. Para o homem e a mulher, os consagrados carregam uma identidade e um exemplo que é o de seguir o Senhor. E se essa identidade não é percebida, não conseguimos ir para frente e não conseguimos transmitir aos outros.

ZENIT: Que espaço ocupa e como procedem as novas experiências de vida consagrada, muitas das quais formadas por leigos?

Cardeal Braz de Aviz: Esse tipo de vocação é muito original. É uma realidade moderna reconhecida pelo Papa Pio XII. É uma forma muito bela de consagração porque se trata de pessoas leigas. As pessoas são conscientes de que não são padres ou freiras, mas são profundamente religiosos porque são consagrados através de votos. Às vezes não têm uma vida intensamente comunitária como o carisma indica, mas vivem inseridos nas comunidades locais. Testemunham e vivem como cristãos no próprio ambiente, nem todos sabem que eles são consagrados.

É uma vocação um pouco especial e muito bonita. O número é crescente, tanto para os institutos seculares, bem como para a Ordem das Virgens, que é algo que já estava presente nas primeiras comunidades da Igreja.

ZENIT: Como o senhor avalia a experiência Ordo Virginum ?

Cardeal Braz de Aviz: Avalio muito positivamente. Na Congregação temos alguém que se preocupa com essa questão e segue diretamente essa realidade. É algo que está se espalhando, muitos bispos têm visto o nascimento de vocações e têm apoiado. Nós estamos próximos e queremos que se desenvolvam.

ZENIT: Por que só para mulheres? Os homens não podem se consagrar assim?

Cardeal Braz de Aviz: O Ordo Virginum é mais para as mulheres, mas há homens consagrados, nesse sentido eu não vejo por que não.

ZENIT: Quais são as questões que o senhor considera relevantes para o futuro próximo?

Cardeal Braz de Aviz: Os temas são vários. Pessoalmente eu vejo certa atenção em relação à vida contemplativa. A Igreja está muito atenta em conservá-la e promove-la. É necessário ajudar os mosteiros, especialmente os que estão se esvaziando, as pequenas realidades que têm problemas internos.

Devemos resolver o problema de irmãos religiosos não presbíteros. Aqui, também, se trata de uma vocação especial porque neles aparece mais forte o carisma.

ZENIT: Qual a mensagem o senhor deixaria para os leitores de Zenit que são consagrados?

Cardeal Braz de Aviz: Gostaria de enfatizar o apelo do Santo Padre para o Ano da Fé e retomar os ensinamentos do Concílio Vaticano II como vida verdadeira. Para nós consagrados, o mais importante agora é acreditar neste dom que Deus nos deu como dom de amor. Não é que somos pessoas que deixamos tudo e não temos nada. Pelo contrário, somos pessoas que deixamos tudo para ter muito mais! Deus é a razão da nossa alegria e da nossa felicidade.