O sacerdote na “praeparatio” e na ação de graças da Santa Missa

Coluna de teologia litúrgica dirigida por Mauro Gagliardi

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ROMA, domingo, 27 de junho de 2010 (ZENIT.org) - O padre Paul Gunter, professor do Pontifício Instituto Litúrgico de Roma e Consultor do Ofício de Celebrações Litúrgicas do Sumo Pontífice, oferece-nos neste artigo uma detalhada descrição das orações que o sacerdote pode utilizar para se preparar para a celebração litúrgica da Santa Missa e para fazer a Ação de Graças depois dela. Estas orações se encontram, com diferente extensão, nos missais das duas formas do Rito Romano. O artigo evidencia a importância de uma preparação para a celebração e do devido agradecimento posterior, seja em base do vínculo entre o exemplo de Cristo e a vida do sacerdote, quer pelos efeitos benéficos que este costume produz também nos fiéis que participam da liturgia (Mauro Gagliardi).

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Por Paul Gunter, OSB

 1. A oração íntima e pessoal de Jesus

Para o sacerdote, frutificar na vida e no ministério depende da união com Deus, união que está na base também do fato de que os fiéis se dirijam a ele para que reze por eles. Jesus Cristo confiou àqueles que o seguiam mais de perto uma palavra que esclarece o sentido de todo o bem que fariam: "Eu sou a videira e vós, os ramos. Aquele que permanece em mim, como eu nele, esse dá muito fruto; pois sem mim, nada podeis fazer". O próprio Senhor Jesus, no contexto dos muitos milagres realizados, estabeleceu um tempo para estar só, para dedicar à oração a seu Pai celestial. Para Jesus, a oração oficial da liturgia era sustentada por uma vida interior na qual a reserva apoiava essa intimidade que nutre a oração pessoal. As dimensões eclesial e comunitária se reforçam por uma relação pessoal similar com Deus, que cada fiel espera poder aprofundar.

A busca de Deus, que dá significado à vida dos que o amam, serve de recordação quotidiana do fato de que toda bênção provém e ao mesmo tempo se dirige para o Deus onipotente. A Sagrada Escritura descreve de forma vívida o alimento que Jesus tomava de sua vida de oração escondida: "ele se retirava a lugares desertos para orar" (Lc 5, 16). Do mesmo modo, notamos a importância dos diferentes momentos do dia, pelo fato de que Jesus se mostra particularmente atento ao silêncio da oração, em que busca a vontade do Pai. Momentos similares animam um especial recolhimento e uma proximidade ininterrupta: "De madrugada, quando ainda estava bem escuro, Jesus se levantou e saiu rumo a um lugar deserto. Lá, ele orava" (Mc 1, 35); "Depois de despedi-las, subiu à montanha, a sós, para orar. Anoiteceu, e Jesus continuava lá, sozinho" (Mt 14,23).

 2. A oração íntima e pessoal do sacerdote

O sacerdote, consciente de participar na obra de Cristo, esforça-se por seguir seu exemplo, por guiar o santo povo de Deus ao Pai, através de Cristo no Espírito Santo. Ele sabe muito bem que, dado que seus defeitos danificam a credibilidade de seu testemunho, deve pedir com não menor urgência a Deus que infunda nele as virtudes próprias de seu estado. Parte da homilia proposta no rito de ordenação do presbítero instrui aquele que vai ser ordenado desta forma: "Assim continuarás a obra de santificação de Cristo. Através de teu ministério, o sacrifício espiritual dos fiéis se faz perfeito, porque está unido ao sacrifício de Cristo, é oferecido através de tuas mãos em nome da Igreja de forma incruenta sobre altar, na celebração dos sagrados mistérios. Reconhece o que fazes, imita aquele que tocas, para que, celebrando o mistério da morte e ressurreição do Senhor, possas mortificar em ti mesmo todos os vícios e preparar-te para caminhar em uma vida nova" [1].

Vê-se, por isso, que o motivo de uma particular preparação do sacerdote antes da Missa e o agradecimento depois dela reside no benefício para a Igreja inteira, porque o sacerdote que santifica o povo cristão necessita em primeiro lugar de ser moldado pelo espírito de santidade. Sempre é de ajuda para o sacerdote tomar um momento para considerar os textos que rezará durante a Missa, seja no dia em que a assembleia participará, ou não. Oportunas reflexões prévias sobre os textos podem estimular um desejo mais profundo de Deus. A preparação textual constitui uma preparação litúrgica coerente para a Santa Missa. Um sacerdote que cultiva o silêncio pessoal no tempo que precede e que segue à Santa Missa, com sua própria disposição animará o espírito de meditação. 

Um sacerdote em atenção pastoral poderia ter de lutar para estabelecer o silêncio desejável em toda sacristia, especialmente se se apresenta a necessidade de ter de receber nela os fiéis. Mas precisamente para ele em particular, os textos de preparação antes da Missa e de agradecimento depois desta podem ser rezados em qualquer momento. Estes reconhecem também as limitações de tempo e por isso se apresentam como um apoio espiritual mais que como uma imposição de obrigação sobre o sacerdote que tenta celebrar a Missa de modo mais reverente possível. Deve-se assinalar que a rubrica que se encontra sob os títulos da Praeparatio ad Missam e da Gratiarum Actio no Missal de 1962 reconhece estas exigências concretas do sacerdote [2]. Nenhum ato de amor, por definição, é apressado. Tendo oferecido o supremo sacrifício do amor de Cristo, é de esperar que um sacerdote seja movido a fazer o que seja possível para encontrar um tempo, ainda que seja breve, para uma ação de graças depois da Missa. E se sentirá reforçado por tê-lo feito. 

A preparação de um sacerdote para a Missa será ulteriormente apoiada pelo ciclo da Liturgia das Horas, que enriquece a vida de todo sacerdote. A antiga sabedoria do Ritus Servandus in Celebratione Missae, que se encontra ainda na primeira parte do Missal de 1962, presume a importância intrínseca do Ofício Divino para a vida interior do presbítero. Esta estabelecia que o Mattutino e as Laudes deveriam estar completos antes da celebração. Também se deve dizer que o contexto dessa prescrição secular não podia ter presente a Missa da tarde [3].

Dado que a Missa celebra-se atualmente em qualquer hora do dia litúrgico, já não se aplica esta norma de modo restritivo, no entanto, os Princípios e Normas para a Liturgia das Horas explicam atentamente a conexão entre a celebração da Eucaristia e a Liturgia das Horas: "Cristo mandou: ‘há que rezar sempre, sem nunca desistir'(Lc 18, 1). Por isso, a Igreja, obedecendo fielmente a este mandato, não cessa nunca de elevar orações e nos exorta com estas palavras: ‘Por meio de Jesus, ofereçamos a Deus um perene sacrifício de louvor' (Hb 13, 15). A este preceito, a Igreja responde não só celebrando a Eucaristia, mas também de outras formas, e especialmente com a Liturgia das Horas, a qual, entre as demais ações litúrgicas, tem como característica, por antiga tradição cristã, santificar todo o transcurso do dia e da noite" [4].

 3. A Praeparatio ad Missam

3.1 A comparação dos textos oferecidos para a Praeparatio mostra que as próprias orações estão incluídas nas duas formas do Rito Romano, ainda que tenham sido reduzidas a quatro no Missale Romanum de 1970. Neste, encontramos a oração Ad Mensam de Santo Ambrósio; a Omnipotens sempiterne Deus, ecce accedo de São Tomás de Aquino; uma oração à Beata Virgem Maria, O Mater pietatis et misericordiae; e a Fórmula de Intenção Ego volo celebrare Missam [5]. À raiz de uma primeira reforma das indulgências feita depois do Concílio Vaticano II e publicada no Enchiridion das Indulgências de 1968, não se mencionam as indulgências que foram unidas à recitação destas orações por Pio IX, cujos detalhes tinham sido publicados no Missal de 1962. 

3.2 Amplos textos adornam esse Missal, a antífona Ne reminiscaris pede a Deus que seja misericordioso apesar de nossos pecados e dos daqueles que nos precederam. Esta vai seguida dos salmos 83, 84, 85, 115 e 129. O Kyrie eleison, Christe eleison, Kyrie eleison e o Pater noster, cujas duas últimas linhas formam o início de uma série de versículos, são seguidos por um número de orações breves. Em alguns manuais devocionais, estas sete orações se atribuem a Santo Ambrósio e estão assinaladas aos diferentes dias da semana. Seja como for, pelo modo como estão colocadas no Missal, considera-se que se devem dizer sucessivamente sob uma única conclusão. Todas, exceto a sétima, concentram-se sobre a obra de santificação do Espírito Santo. A sétima é seguida por uma doxologia mais longa, que conclui a série. A primeira reza para que o Espírito Santo resplandeça em nossos corações, para que possamos celebrar dignamente os santos mistérios. A segunda pede que possamos amar a Deus perfeitamente e louvá-lo dignamente. A terceira, que possamos servir a Deus na castidade e pureza de espírito, enquanto que a quarta implora ao Paráclito que ilumine nossas mentes. A quinta pede a força do Espírito Santo para expulsar as forças do inimigo. A sexta pede a sabedoria e a consolação, e a última pede a Deus que nos purifique e que faça de nós o lugar de sua morada. 

3.3 A extensa Oratio Sacerdotis ante Missam está dividida no Missal em sete partes, uma por cada dia da semana, e forma uma meditação orante sobre a imitação das virtudes de Cristo, Sumo Sacerdote. Seu significado é tão confortante como exigente. A relevância de seus diversos temas é adequada a seu estilo literário, que é insistente e íntimo. No domingo, o sacerdote pede ao Espírito Santo que o ensine a tratar os santos mistérios com reverência, honra, devoção e íntimo temor. Na segunda-feira, concentra-se sua necessidade de castidade perfeita, enquanto que na terça-feira, o sacerdote reconhece sua própria indignidade ao celebrar a Missa e, enquanto proclama sua fé no que Deus pode suprir quando lhe falte, pede para perceber sua presença enquanto celebra e também ser rodeado pelos anjos. Na quarta-feira, sai à luz o elenco das necessidades sociais das pessoas pelas quais Cristo derramou seu Sangue. Na quinta-feira, o sacerdote, enquanto implora a misericórdia divina, recorda como a providência socorre a fragilidade humana: "Tu amas tudo o que existe, e não deprecias nada de quanto fizeste" [6]. Na sexta-feira, o sacerdote reza especialmente pelos defuntos e no sábado reflete sobre o grande dom do Santíssimo Sacramento e suplica que este lhe possa conceder a ver a Deus face a face.

3.4 O Ad Mensam de Santo Ambrósio pede que o Corpo e o Sangue possam perdoar ao sacerdote seus pecados e protegê-lo de seus inimigos. A Oração de São Tomás de Aquino, em contrapartida, pede que o poder curador do Santíssimo Sacramento possa preparar o sacerdote para a visão eterna de Deus. Na Oração da Beata Virgem Maria, o sacerdote reza não só por si mesmo, mas por todos seus irmãos que celebram a Missa nesse dia em todo o mundo. Seguem orações a São José, a todos os anjos e santos e, finalmente, uma oração ao santo em honra do qual será celebrada a Missa. A Fórmula de Intenção recorda ao sacerdote a intenção da Igreja a respeito da celebração da Missa, assim como seu papel dentro da mesma. O sacerdote não opera sozinho. O que ele realiza foi entregue por Cristo a sua Igreja, confirmado pelo Magistério e apoiado pela Tradição. O sacerdote faz presente o Corpo e o Sangue de Cristo. Ele segue o rito da santa Igreja Católica. Seu objetivo é louvar a Deus e a Igreja celeste, enquanto reza pela terrena, e em particular por todos aqueles que se encomendaram a suas orações, como também pelo bem-estar de toda Igreja Católica. Depois, ao rezar por todos os fiéis, o sacerdote pede que o Senhor conceda a ele e a todos alegria com paz, mudança de vida, um espaço de verdadeira penitência, a graça e o consolo do Espírito Santo e a perseverança nas boas obras.

 4. A Gratiarum Actio post Missam

4.1 O corpo de textos que forma o agradecimento após a Missa mostra amor, humildade e fé que se exaltam no dom sublime da Santíssima Eucaristia. O Missale Romanum de 2002 contém a Oração Universal atribuída ao Papa Clemente XI e a Ave Maria. Ademais, em comum com o Missal de 1962, contém a Oração de Santo Tomás de Aquino; as Aspirações ao Santíssimo Redentor ou Anima Christi; a Oferenda de si, ou Suscipe; a Oração ante Nosso Senhor Jesus Cristo crucificado, En Ego; e a Oração à Beata Virgem Maria. A estes textos no Missal de 1962 se anexavam as indulgências dos papas Pio X, XI e XII, enquanto que alguns textos do Missale Romanum de 2002 foram incluídos também no Enchiridion das Indulgências.

4.2. No Missal de 1962, uma antífona precede ao Benedicite (cf. Dn 3,56-58) e ao Salmo 150. Observando a própria estrutura da Preparação à Missa, o Kyrie eleison e alguns versículos abrem o caminho para algumas orações. A primeira delas reza para que, como os três jovens foram tirados ilesos das chamas, assim possam os servos do Senhor evitar as feridas do pecado. A segunda pede que as obras boas que Deus começou em seus servos possam chegar a seu cumprimento, enquanto que a terceira, que tem um tema semelhante à primeira, é uma oração a São Lorenzo, diácono e mártir, a quem busca vencer o sofrimento. As devoções que o sacerdote pode recitar pro opportunitate possuem expressões semelhantes aos pedidos de proteção em nossa viagem para o céu. Após a oração de São Tomás há outra (alia oratio) e o hino métrico Adoro Te, segue a amada oração do Anima Christi. O Suscipe e o En Ego precedem outra oração, que pede que a Paixão de Cristo seja a força do sacerdote, sua defesa e glória eterna. Antes das orações a São José e ao santo em honra do qual se celebrou a Missa, a Oração à Beata Virgem Maria oferece a Jesus, que foi recebido na Santíssima Eucaristia, à Virgem Mãe, para que Ela possa voltar a oferecer-lhe no supremo ato de adoração (latreia), o culto perfeito, à Santíssima Trindade.

 5. Conclusão 

O Ordenamento Geral do Missal Romano estabelece: "É por isso de suma importância que a celebração da Missa, ou Ceia do Senhor, esteja ordenada de tal forma que os sagrados ministros e os fiéis, participando nela cada um segundo sua própria ordem e grau, tragam abundância dos frutos pelos quais Cristo institui o Sacrifício eucarístico de seu Corpo e de seu Sangue e o confiou, como memorial de sua Paixão e ressurreição, à Igreja, sua amadíssima Esposa" [7]. A preparação do sacerdote para a Missa e o ato de ação de graças sucessivo se completam mutuamente. Estes nutrem a reverência nos corações e nas mentes dos fiéis que são ajudados a participar com maior intensidade na liturgia celebrada por um sacerdote que se beneficiou da oportunidade de recolhimento. O que anima a preparação prévia promove também a ação de graças sucessiva à Missa. Ambas guiam continuamente a Igreja para e a partir do Sacrifício eucarístico que celebra e faz presente os frutos do mistério pascal até que Cristo volte no fim dos tempos.

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Notas originais em italiano:

1) Pontificale Romanum, «De Ordinatione Episcopi, Presbyterorum et Diaconorum», cap. 2, n. 151: «Munere item sanctificandi in Christo fungéris. Ministério enim tuo sacrifícium spirituále fidélium perficiétur, Christi sacrifício coniúnctum, quod una cum iis per manus tuas super altáre incruénter in celebratióne mysteriórum offerétur. Agnósce ergo quod agis, imitáre quod tracta, quátenus mortis et resurrectiónis Dómini mystérium célebrans, membra tua a vítiis ómnibus mortificáre et in novitáte vitæ ambuláre stúdeas».

2) La dicitura Praeparatio ad Missam stampata in nero è seguita dall'altra: pro opportunitate sacerdotis facienda scritta in rosso, il che qualifica i testi come risorse facoltative che il sacerdote può usare a seconda delle circostanze.

3) «Sacerdos celebraturus Missam [...] saltem Matutino cum Laudibus absoluto».

4) Institutio Generalis de Liturgia Horarum, cap. 1, n. 10.

5) Missale Romanum, editio typica tertia 2002, nn. 1289-1291.

6) Sap 11,24 forma l'introito del Mercoledì delle Ceneri, sia nella forma ordinaria che straordinaria del Rito Romano.

7) Institutio Generalis Missalis Romani, 2002, n. 17.

[Traduzido por ZENIT]