"O Santo Sudário nos diz até que ponto Deus amou a humanidade"

Entrevista com o cardeal Angelo Comastri, na conferência sobre a Síndone na Pontifícia Universidade Lateranense

Roma, (Zenit.org) Salvatore Cernuzio | 884 visitas

O Cristo do Santo Sudário ainda está no centro das iniciativas dos ateneus pontifícios durante este Ano da Fé. Ontem, na Universidade Lateranense, foi realizada a conferência “Síndone e fé: um diálogo possível?”. Organizada em parceria com a diocese de Turim, a iniciativa contou com a presença, entre outros, do cardeal Angelo Comastri, vigário geral de Sua Santidade para a Cidade do Vaticano. Durante o evento, ZENIT e ACIprensa entrevistaram o cardeal.

Eminência, quais são as últimas pesquisas sobre o Sudário?

Cardeal Comastri: As últimas pesquisas sobre o Sudário não acrescentaram muito ao que já sabíamos. Já foi cientificamente apurado, apesar do exame de carbono 14, que não é confiável, que aquele sudário é o sudário que envolveu o corpo de Jesus. Há muitos elementos que atestam. Por exemplo, temos o exame do pólen, que foi feito por um criminologista que não tinha filiação religiosa nenhuma e que nos relatou que o pólen corresponde às características de Jerusalém e das suas redondezas, de Constantinopla e do âmbito alpino, ou seja, ele refaz todo o caminho que historicamente o sudário percorreu. Os estudos recentes nos trazem a certeza das narrações antigas, nos dizem o seguinte: "Podem contemplar, estudar, meditar sobre o Santo Sudário com a certeza de que vocês estão contemplando, estudando e meditando sobre a Paixão de Cristo".

A conferência na Universidade Lateranense destaca “a forte mensagem que o Sudário quer dar ao homem de hoje”. Que mensagem é essa?

Cardeal Comastri: A mensagem forte é que o Sudário registra uma paixão impressionante, um sofrimento que é difícil de descrever. E o sofrimento do Filho de Deus feito homem só pode ser explicado com um amor imenso e sem limites. A tal ponto que João Paulo II, no livro Cruzando o Limiar da Esperança, afirmou que “sem aquela paixão”, que, acrescento eu, está documentada claramente no Sudário, “a verdade de que Deus é amor ficaria suspensa no ar”. O Sudário nos diz até que ponto Deus amou a humanidade.

Mudando de assunto, o senhor já teve a oportunidade de encontrar várias vezes o papa Francisco. Como ex-prelado do santuário mariano de Loreto, como o senhor descreve a devoção mariana do papa?

Cardeal Comastri: O papa Francisco declarou explicitamente, indo até Santa Maria Maior um dia depois da eleição, que ele pretendia viver o pontificado entregando-o nas mãos de Maria. Por outro lado, ele não poderia fazer diferente: não pode haver um cristão que não seja mariano, como disse Paulo VI no Santuário de Nossa Senhora de Bonaria, em Cagliari. O papa é o primeiro cristão, e por isso ele tem que ser necessariamente mariano.

O que o senhor acha das "inovações" que o novo papa está trazendo para a Igreja?

Cardeal Comastri: O papa está simplesmente dando um "banho" de simplicidade, de humildade. Eu acho que isso é muito bonito, porque o tempo deposita um pouco de poeira e de mundanidade [na Igreja]. Voltar para a simplicidade do Evangelho é com certeza um ganho para toda a Igreja e, sem dúvida, é uma coisa que todos nós desejamos.

Faz alguns dias, no aniversário de 86 anos de Bento XVI, o senhor disse que a oração do papa emérito sustenta os enormes esforços do papa Francisco. O senhor pode nos explicar esta frase?

Cardeal Comastri: A oração, para quem crê, é sempre uma grande força. A bíblia enfatiza isto repetidamente. Quando ela fala sobre a jornada do povo de Israel rumo à Terra Prometida, existe um episódio sintomático, de grande profundidade, que diz que, quando o povo lutava durante a viagem, Moisés subia até a montanha e orava com os braços erguidos. E quando ele orava, o povo vencia. E quando ele abaixava as mãos, o povo perdia. Isto pode ser aplicado tranquilamente ao papel de Bento XVI neste momento. Com aquele gesto, ele quis dizer isto: "Eu não abandono a Igreja, mas continuou a servi-la nas condições que são possíveis para mim nesta idade e na minha saúde, e eu a sirvo orando". E a oração de Bento XVI é uma grande ajuda para o papa Francisco, para a Igreja e para todos nós.

O senhor se encontrou com o papa emérito depois que ele se retirou em Castel Gandolfo?

Cardeal Comastri: Não. Depois do retiro dele, houve uma grande reserva, no sentido de que ele próprio quer permanecer na máxima discrição possível para não criar nenhuma intromissão no pontificado do sucessor. Mas eu espero vê-lo assim que ele voltar para o Vaticano. Será uma grande alegria encontrá-lo e expressar o meu carinho e a minha gratidão, que, evidentemente, permanecem inalterados.