O secretário de três papas nos fala da renúncia de Bento XVI

Monsenhor Alfred Xuereb, secretário dos papas João Paulo II, Bento XVI e Francisco, nos conta o que aconteceu em fevereiro de 2013, quando Joseph Ratzinger renunciou ao pontificado

Roma, (Zenit.org) Anna Artymiak | 1088 visitas

 "Havia o risco, pelo menos dentro do que eu podia imaginar, de começarem muitas críticas contra o papa Bento XVI. Eles poderiam dizer: ele começou um trabalho e não teve coragem de terminar".

"Mas o que eu vi foi o heroísmo dele justamente neste gesto: ele não olhou para o risco de acharem que a renúncia fosse uma escolha pusilânime; ele tinha certeza do que nosso Senhor lhe pedia naquele momento".

Quem fala é monsenhor Alfred Xuereb, que já foi prelado de antecâmara pontifícia no papado de João Paulo II, segundo secretário de Bento XVI e é o atual primeiro-secretário particular do papa Francisco.

Monsenhor Georg Ratzinger, os secretários Georg Gänswein e Alfred Xuereb e as quatro consagradas Memores Domini que cuidavam dos aposentos pontifícios conheciam fazia tempo as intenções de renúncia de Joseph Ratzinger.

Algumas decisões e eventos tinham sido uma antecipação silenciosa do que estava para acontecer em 11 de fevereiro de 2013, mas a renúncia de Bento XVI ao papado foi uma surpresa e um choque para o mundo.

O senhor estava ciente da decisão da renúncia? Como essa decisão foi comunicada ao senhor? Qual foi a sua reação? Já havia sinais de que Bento XVI estava tomando essa decisão?

Monsenhor Alfred Xuereb: Algum tempo antes, eu já estava impressionado com o recolhimento intenso que o papa Bento XVI guardava antes da missa na sacristia. A missa devia começar às 7h. Só que, às vezes, o relógio soava no pátio de São Dâmaso e ele continuava em recolhimento. Ele rezava. Houve um período em que ele se recolhia de um modo ainda mais intenso que o habitual. Eu tinha uma sensação clara: alguma coisa muito importante estava acontecendo no coração do papa, havia alguma intenção particular pela qual o Santo Padre estava rezando. Eu não sei com certeza, mas talvez aquele tenha sido o período de luta interior que ele viveu justamente antes de tomar a decisão heroica da renúncia. A notícia foi comunicada a nós de maneira pessoal. Eu fui convocado por ele oficialmente e me sentei em frente à mesa dele. Não era a primeira vez, mas eu sentia que ia receber uma comunicação muito importante. Obviamente, ninguém esperava. Ele estava calmo, como quem já tinha passado por uma batalha interior e superado o momento da indecisão. Ele estava sereno como quem sabe que está dentro da vontade do Senhor. Assim que eu ouvi a notícia, a minha primeira reação foi: "Não, Santo Padre! Por que o senhor não pensa um pouco mais?". Então eu mesmo me freei e me disse: "Bom, quem sabe há quanto tempo ele não está examinando esta decisão!”. Então voltaram à minha mente, num piscar de olhos, aqueles momentos longos e recolhidos da oração antes da missa e eu escutei com atenção as palavras dele. Tudo já estava decidido. Ele me repetiu duas vezes: "Você vai continuar com o novo papa". Talvez ele tivesse uma intuição. Não sei. No dia em que eu me despedi do papa Bento XVI em Castel Gandolfo, chorei e lhe agradeci pela sua grande paternidade.

Como a notícia mudou o seu dia-a-dia?

Para mim, mudou muito. Eu tinha crises de choro, era muito difícil me afastar do papa Bento XVI. No dia 11 de fevereiro de 2013, na Sala do Consistório, eu estava sentado em um banquinho, ao lado. Enquanto ele lia, eu chorava. A pessoa que estava do meu lado me dava cotoveladas e me dizia: "Controle-se, eu também estou emocionado". Eu fiquei impressionado com as expressões dos cardeais que estavam na minha frente. Me lembro do cardeal Giovanni Battista Re, que não conseguia acreditar nos seus ouvidos. Na mesa, naquele dia, nós conversamos sobre isso e eu disse: "Mas, Santo Padre, o senhor permaneceu muito tranquilo". "Sim", ele respondeu, com um sim decidido. A decisão estava tomada. O parto tinha acontecido. Agora cabia a nós aderir àquela grande escolha que ele tinha feito: uma escolha de governo, que, no começo, podia parecer a escolha de um abandono do governo. Muitos cardeais, depois do consistório, alguns porque não tinham ouvido bem, outros porque não falam bem o latim, abordaram os cardeais Angelo Sodano e Giovannni Battista Re para entender melhor o que o papa Bento XVI tinha dito. O Santo Padre continuou sereno até o último dia, quando partiu para Castel Gandolfo.

Nem todo mundo entendeu as razões da renúncia...

O papa Bento XVI estava convencido do que nosso Senhor lhe pedia naquele momento. “Eu não tenho mais forças para continuar a minha missão”, ele disse. “A minha missão acabou, eu renuncio em favor de outro que tenha mais forças do que eu e leve a Igreja adiante”. Porque a Igreja não é do papa Bento, mas de Cristo.

Muita gente começou a enviar ao papa Bento XVI o que ele chamou de "sinais comoventes de atenção, amizade e oração"...

Eu me lembro muito bem. Depois de 28 de fevereiro de 2013, começaram a chegar a Castel Gandolfo milhares de cartas. Era impressionante. Antes não chegavam tantas. Todo mundo correu para escrever para o papa. Mas o bonito era ver que as pessoas anexavam alguma coisa à carta: um objeto artesanal, uma partitura, um calendário, um desenho. Como se as pessoas quisessem dizer "Obrigado por tudo o que você fez, nós apreciamos o sacrifício que você fez por nós; queremos não só expressar estes sentimentos, mas lhe dar algo de nosso". Entre essas cartas, vinham muitas de crianças. Eu enchia uma prateleira com as cartas que chegavam. Naturalmente, o papa não tinha tempo de olhar todas elas, porque eram milhares. Uma noite, passando ao lado da prateleira, eu falei: "Veja, Santo Padre, estas são as cartas que chegaram hoje. Muitas delas são de crianças". Ele se virou para mim e disse: "Essas são cartas muito bonitas". Essa ternura com as crianças me comoveu muito. O papa sempre teve um caráter terno. Talvez, ele quisesse acrescentar: "Ao contrário das cartas que me preocupam, que trazem problemas". Eu acho que elas eram uma espécie de antídoto, uma carícia para ele, que o ajudaram a se sentir querido.

O senhor estava com o papa Bento XVI durante o conclave. Como o papa emérito viveu aqueles dias?

Ele viveu com muita expectativa o conclave, a eleição. Ele estava ansioso para saber quem ia ser o sucessor. Para mim foi comovente o telefonema que o novo pontífice fez imediatamente ao papa Bento XVI. Eu estava ao lado dele e passei o telefone. Que emoção ouvir Bento XVI dizendo: "Eu lhe agradeço, Santo Padre, por ter pensado em mim. Eu lhe prometo desde agora a minha obediência. Eu lhe prometo a minha oração". Ouvir essas palavras de uma pessoa que eu tinha acompanhado durante tanto tempo e que era o meu papa, ouvir isso me despertou uma emoção muito forte.

E depois, chegou a hora da despedida...

Eu continuei com ele mais dois ou três dias depois da eleição do papa Francisco. O dia que eu tinha que ir embora, eu me lembro de cada minuto, porque foi, se é que eu posso usar essa palavra, dilacerante para mim. Eu vivi quase seis anos acompanhando uma pessoa que me queria bem como um pai, que me permitiu uma confidencialidade sempre respeitosa, mas muito íntima, e agora tinha chegado o dia de me afastar dele. O papa Bento tinha escrito uma carta belíssima, da qual ele me deu uma cópia que eu conservo como uma joia, declarando para o novo papa alguns dos meus pontos fortes; eu acho que ele quis evitar escrever os meus defeitos; e assegurando que me deixava livre. Eu me lembro até do jeito que eu fiz as malas. Me diziam: "Depressa, o papa precisa de você, ele está abrindo as cartas sozinho. Não tem ninguém ajudando. Mande as suas coisas para baixo rápido". Eu não sabia nada do que estava acontecendo na Casa Santa Marta, nem sabia que o papa Francisco não tinha secretário. E aí veio o momento tocante em que eu entrei no escritório do papa Bento para me despedir pessoalmente. Depois teríamos o almoço, mas eu me despedi naquele momento. Eu estava chorando e falei do jeito que pude: "Santo Padre, é muito difícil para mim me afastar do senhor. Muito obrigado por tudo o que o senhor me deu". A minha gratidão não era porque ele me permitiu trabalhar com o novo papa, como se alguém escreveu, mas pela sua grande paternidade. O papa Bento, naqueles momentos, não se emocionou. Ele se levantou, eu me ajoelhei, como de costume, para beijar o anel. Ele me deixou beijar o anel, mas levantou a mão e me deu a sua bênção. Foi assim que nos despedimos. Depois tivemos o almoço, mas eu não consegui dizer uma palavra.

Como foi que aconteceu a sua nomeação como segundo secretário do papa Bento XVI?

Eu já trabalhava como prelado de antecâmara, que tem a função de acompanhar as personalidades que o Santo Padre recebe em audiência privada na biblioteca. Um dia me disseram: "O papa precisa falar com você". Foi um impacto quando eu me vi sentado na mesma cadeira em que, durante anos, primeiro com João Paulo II e depois com o próprio Bento XVI, eu convidava as pessoas a se sentarem ao lado da mesa do papa. Bento XVI queria falar comigo pessoalmente e me disse palavras belíssimas: "Como você sabe, monsenhor Mietek está voltando para a Ucrânia. Nós ficamos muito contentes com ele e eu achei que você poderia substituí-lo. Eu sei que você esteve na Alemanha, então você também sabe um pouco de alemão". Eu respondi que tinha estado em Münster, que tinha trabalhado num hospital que o papa me disse que conhecia. Ele conhecia também a região onde morávamos e a paróquia, e até mesmo o pároco, porque ele tinha morado nas proximidades e dado aulas por lá. Ele conhecia dois professores, o professor Pieper e o teólogo Pasha. Por causa da guerra, a casa dele tinha sido destruída e ele ficou hospedado com as mesmas pessoas que depois me alojaram. O Santo Padre também disse algo sobre Malta e acrescentou: "Naturalmente, agora cada um terá as suas tarefas". Então eu percebi que tinha que começar logo. E comecei de imediato.

Imagino que, daquela vez, o senhor fez as malas com alegria...

E com emoção! Com muita emoção.

O papa Bento XVI continuou a tradição de João Paulo II de levar para a oração pessoal as muitas intenções que ele recebia através da secretaria?

Sim, João Paulo II já fazia isso e era uma tarefa de mons. Mietek. Ele foi o meu predecessor, por assim dizer. Eu herdei essa tarefa. Era um trabalho muito bonito. As intenções chegavam quase todos os dias. Muitas não chegavam até nós pela secretaria particular, mas diretamente na Secretaria de Estado. Lá elas eram respondidas dizendo que o papa iria incluí-las na intenção geral durante a oração. Bento XVI se impressionava muito: quantas doenças, várias que nós nem conhecíamos, e quantas famílias vivendo o drama da doença! Ele pensava não só na pessoa doente, mas também na família toda, que, dia e noite, Natal e Páscoa, inverno e verão, tinha que cuidar dos seus doentes, alguns em situação muito grave. Quantas famílias em angústia, porque eram recém-nascidos, crianças pequenas... E quando chegava alguma intenção de oração de Malta ou da minha cidade, ele me perguntava: "Essas pessoas você conhece?". Algumas vezes eu conhecia, outras vezes não. Mas o que me impressionava era que, depois de alguns dias, e várias vezes depois de rezar o terço nos jardins, o papa se virava para mim e perguntava: "Teve alguma notícia do senhor -e dizia o sobrenome-, de quem você me falou?". Em alguns casos, infelizmente, eu tive que dizer que a pessoa tinha falecido, e sempre me emocionava porque o Santo Padre se recolhia e recitava o “Descansem em paz”. E ele me convidava a rezar também. O papa, que tinha mil coisas, mil pensamentos, considerava a sua oração pelos enfermos como um ministério pastoral importantíssimo. Eu deixava no genuflexório dele os papéis com os nomes das pessoas que tinham pedido orações. O genuflexório tinha uma espécie de caixinha. Eu sei que ele os folheava frequentemente. Eles ficavam lá e eu nunca os retirava até que ele me dissesse.

Já está próxima a canonização de João Paulo II. Bento XVI costumava recordar o papa antecessor?

Sim, claro. Ele o chamava de “o papa”. Quando ele dizia “o papa”, no começo, eu não entendia. Ele se considerava alguém que estava colaborando com o papa. Eu acho que ele serviu fielmente ao papa não só porque sabia o que significa teologicamente "o Sucessor de Pedro", mas também por causa da veneração particularíssima pelo papa, que ele tinha aprendido no ambiente religioso da Baviera. Neste sentido, para ele, servir ao papa foi um grande presente.

Da sua posição, como você via essa relação de amizade entre João Paulo II e o cardeal Ratzinger?

Eu participei só uma vez nas reuniões que o cardeal Ratzinger teve com João Paulo II, precisamente na sessão plenária da Congregação para a Doutrina da Fé, da qual ele era prefeito. Eu só posso confirmar o que já era conhecido de todos, ou seja, que João Paulo II tinha uma confiança grandíssima no cardeal Ratzinger, recorria a ele para pedir pareceres e também para planejar ou corrigir documentos importantes. O próprio fato de que João Paulo II não aceitou, por diversas vezes, os pedidos de renúncia do cardeal Ratzinger, que já tinha completado 75 anos de idade, quer dizer que ele não queria perder um homem de confiança, um colaborador tão importante. Aqui eu vejo mais um aspecto da santidade de João Paulo II, a sua grande visão. Ele enxergava muito à frente e, talvez, previa que o cardeal Ratzinger seria o seu sucessor.

Como vocês viveram a beatificação de João Paulo II?

O papa Bento estava muito feliz. Podíamos ver isso também na missa, no jeito que ele fez a homilia e no modo como ele pronunciou a frase "Agora ele é beato!". Bastaria rever o vídeo dessa pequena parte para ver o quanto ele estava feliz!

Monsenhor Alfred Xuereb nasceu em Malta em 1958. Seu serviço à Santa Sé começou sob o pontificado de João Paulo II, em 2001, na Primeira Seção da Secretaria de Estado. Mais tarde, ele se tornou colaborador de dom James Harvey na Prefeitura da Casa Pontifícia. Em setembro de 2003, assumiu a função de prelado de antecâmara pontifícia, ou seja, o cargo responsável pela apresentação ao papa dos convidados recebidos em audiências privadas no Palácio Apostólico. Neste período, mons. Alfred Xuereb teve a oportunidade de conhecer João Paulo II mais de perto. A partir de setembro de 2007, ele desempenhou ao lado de mons. Georg Gänswein a função de segundo secretário de Bento XVI. Antes dele, o cargo era do polonês Mieczysław Mokrzycki, agora arcebispo de Lviv, na Ucrânia. Após a eleição do cardeal Jorge Mario Bergoglio ao trono de Pedro, ele se tornou o primeiro secretário particular do papa Francisco.

Esta entrevista foi originalmente publicada em polonês no blog católico Stacja 7 (www.stacja7.pl).