O sistema econômico não é um fim em si mesmo

Reflexão sobre a crise mundial do arcebispo de Dublin

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Por José Caetano

DUBLIN, segunda-feira, 12 de outubro de 2008 (ZENIT.org).- Para o arcebispo de Dublin (Irlanda), Dom Diarmuid Martin, «o desenvolvimento econômico, indiferentemente da importância que tenha, simplesmente nunca é um fim em si mesmo».

O prelado irlandês tira lições da atual crise financeira em um artigo enviado a Zenit, no qual esclarece que a «economia tem uma função social», e o desenvolvimento deveria levar a uma igualdade social, a uma melhora das pessoas e das estruturas humanas que consolidam a sociedade.

Dom Martin revela que o desenvolvimento econômico traz sempre consigo «responsabilidade social» e que, raras vezes, o progresso descontrolado tenha produzido sustentabilidade.

O arcebispo compara esse progresso descontrolado com a narração bíblica da Torre de Babel, na qual os construtores acreditavam poder alcançar o céu, mas que acabou na divisão das pessoas e no colapso da construção.

«O mercado é vital – continua o arcebispo – mas tem uma função essencialmente social», só podendo funcionar em um quadro ético e jurídico onde se proteja o vulnerável e se «freie a arrogância natural do poderoso». «Os homens de negócio irresponsáveis não só jogam com o futuro de uma grande empresa», mas estão afetando as vidas de todas as pessoas do mundo.

Dom Martin explica que a especulação do mercado sem suficientes mecanismos reguladores danifica a economia, e para controlar a situação ele crê que é necessária uma ação conjunta do mercado e do governo. «Um mercado que tenha a liberdade de operar como deve» e um governo que não interfira massivamente na sociedade e no mercado, mas que garanta um «quadro ético e jurídico dentro do qual o mercado possa florescer».

O prelado crê que os «negócios devem estar demarcados pela realidade da sociedade» e compartilhem sua responsabilidade com ela, destinando parte dos grandes lucros à educação e à pesquisa, e ressalta também a importância de um sistema legal que contemple uma arquitetura de negócios que se tornou internacional.

Dom Diarmuid também se questiona sobre o papel de um líder cristão nesses momentos de crise, se esse deveria falar ou fechar-se em uma sacristia deixando o trabalho para os especialistas. Contudo, relembra que o trabalho das Igrejas cristãs é precisamente pregar o Evangelho, que é uma mensagem dirigida a cada indivíduo e tem implicações sociais para quem o segue.

«A mensagem básica das Igrejas cristãs é o amor de Deus» – sublinha – «e há duas características do amor de Deus que são especialmente importantes em um mundo moderno», sendo uma delas a gratuidade, isto é, Deus ama as pessoas sem nenhuma condição.

A outra característica do amor de Deus é a «superabundância», ou seja, «o amor de Deus te surpreende».

Para o arcebispo de Dublin, «estes dois valores se encontram opostos à sociedade de consumo dirigida pelo mercado», explicando que, se você paga por alguma coisa, não terá nada a mais, porém só aquilo que pagou.

Segue ainda ressaltando que o “mundo necessita de valores que criem generosidade», que façam com que nos preocupemos com o outro, ainda que seja fraco.

Por fim, conclui o prelado, «a economia cumprirá seu papel se estiver complementada por um governo eficaz, mas também por uma sociedade com coração e com generosidade».