O túmulo do Apóstolo Pedro na Necrópole do Vaticano (Parte I)

A existência das relíquias do santo é confirmada por análises científicas

Roma, (Zenit.org) Paolo Lorizzo | 1213 visitas

O berço da cristandade. É assim que é chamada a Basílica de São Pedro, com todos os elementos que envolvem o maior monumento do cristianismo, para a alegria dos fiéis e turistas que a visitam aos milhões todos os anos.

Poucos, no entanto, refletem sobre o fato de que a presença da basílica foi diretamente condicionada, desde a sua primeira fundação por obra do imperador Constantino, pela necrópole cristã/pagã que abriga os restos mortais do Apóstolo Pedro.

Foi apurado, apesar dos que ainda afirmam que ele jamais pôs os pés em Roma, que Pedro foi martirizado no circo de Calígula e de Nero, e seus restos mortais foram identificados embaixo do corredor esquerdo da basílica e enterrados logo ao lado.

O Ager Vaticanus, correspondente à área de planície aluvial entre a colina do Vaticano, o Janículo e o Monte Mário, parece ter sido destinado desde o começo ao uso funerário. A parte monumental se caracterizava pela presença da Meta Romuli e pelo Terebinthus Neronis. A Meta Romuli era uma sepultura em forma de pirâmide, da época de Augusto, com arquitetura típica do período, assim como a Pirâmide Vaticana. Foi demolida em 1499 por ordem do papa Alexandre VII, criando-se então a Via Alexandrina para conectar o Vaticano com o Tibre. Havia ao lado o Terebinthus Neronis, um mausoléu de planta circular, com uma torre sobreposta, que foi demolido no século VII e cujos blocos do pavimento circundante foram utilizados para os degraus da basílica. Segundo a tradição, no espaço entre os dois túmulos monumentais é que veio a acontecer o martírio de São Pedro, motivo pelo qual, durante muitos séculos, a pirâmide foi usada como símbolo do martírio.

Para fundamentar essas versões e reconstruir o histórico do que aconteceu imediatamente após o martírio, vêm em nosso auxílio as fontes literárias que representam testemunhos importantes do passado. No final do século I, vem à luz o testemunho de Clemente, líder da comunidade cristã de Roma. Ele descreve a perseguição de Nero, que vitimou Pedro, e os acontecimentos sangrentos que aconteceram no circo sobre a colina do Vaticano, casos que, depois, foram descritos também pelo historiador Tácito.

Ligeiramente mais recentes, do século II, são os dois escritos “A ascensão de Isaías” e “Apocalipse de Pedro”, que não só confirmam que Pedro morreu em Roma, como informam a época: logo após o martírio neroniano de 64 d.C. A presença do Apóstolo em Roma também é sustentada pelo fato de que ninguém, no passado, tenha alegado a posse do seu túmulo, um sinal de que as fontes podem limitar-se apenas ao raio de ação da Cidade Eterna. A primeira referência ao túmulo do Apóstolo remonta ao período imperial tardio (século II-III d.C.) e é feita por Eusébio, historiador da Igreja. Ele menciona um presbítero romano chamado Gaio, que se refere à sepultura chamando-a de “troféu” de Pedro no Vaticano.

As fontes literárias, durante muitos séculos, foram o único elemento certo nos quais basear-se para reconstituir eventos obscuros e fatos históricos que, havia muito tempo, estavam esquecidos. Felizmente, alguns anos atrás, veio em socorro dos historiadores a arqueologia, que, como veremos, não só confirmou a existência do túmulo de Pedro como também permitiu a sua redescoberta. Parece incrível, mas somente em 1939, sob o pontificado de Pio XII, foi iniciada uma investigação sistemática a fim de confirmar ou refutar as fontes literárias acumuladas ao longo dos séculos.

Na década de 1940, foram feitas escavações para verificar as hipóteses históricas. Devido à sua má gestão e execução, as respostas não apareciam. Os trabalhos evidenciaram, no entanto, uma série de dados que, no longo prazo, se tornaram valiosos para a estudiosa Margherita Guarducci, em sua coerente reconstituição histórica dos acontecimentos.

Sabemos que o imperador Constantino decidiu soterrar a antiga necrópole no início do século IV, nivelando o terreno para a futura basílica, que foi construída com base em um ponto fixo subterrâneo.

Também foi apontado que, sob o altar da Confissão, atualmente usado para funções religiosas, havia uma sobreposição de uma série de altares colocados exatamente em cima de um monumento que, pensava-se, tinha sido criado em honra de Pedro entre os anos de 321 e 326. O monumento de Constantino incorporou três realidades arquitetônicas precedentes: um muro da segunda metade do século III (chamado pelos arqueólogos de “Muro G”), uma edícula funerária (que seria identificada com o já referido “troféu de Gaio”, recostado a uma parede revestida de gesso vermelho) e um pequeno túmulo escavado diretamente no solo, construído no interior da edícula funerária. No momento da abertura da tampa do túmulo, o contexto foi alterado e nenhuma relíquia óssea foi trazida à luz.