O túmulo do Apóstolo Pedro na Necrópole do Vaticano (Parte II)

A existência das relíquias do santo é confirmada por análises científicas

Roma, (Zenit.org) Paolo Lorizzo | 770 visitas

No final dessa longa campanha de escavação, muitas perguntas ainda pairavam na mente dos estudiosos. Não somente não aparecia o nome de Pedro, apesar dos muitos grafites da época encontrados na parede traseira (e inicialmente estudados apenas de modo superficial), mas, ainda mais importante para a sua identificação, não foram encontrados os ossos no local em que se acreditava que eles pudessem estar (no túmulo de terra).

O fio da meada começou a ser desenrolado pela arqueóloga Guarducci a partir de 1952. Foi ela quem encontrou e reconheceu o nome do apóstolo em uma tumba da necrópole originalmente pertencente à gens Valeria, mas também nos grafites, agora sim estudados adequadamente, que estavam presentes no chamado “Muro G”.

Para completar a identificação, faltava o achado do elemento mais importante: as relíquias de Pedro.

Ter identificado o túmulo de terra vazio tinha frustrado bastante os pesquisadores, que, ao identificarem a edícula, tinham dado por certo que era aquele o único lugar em que poderiam encontrá-las. Mas a arqueologia, como se sabe, não é uma ciência exata. O que é dado como certo no campo de pesquisa é muitas vezes o que acaba não “fechando” nas contas práticas.

Durante as escavações da década de 1940, foi encontrado um nicho no muro de Constantino, ao qual, no começo, não foi dada, inexplicavelmente, nenhuma importância. Dentro dele foram encontrados ossos que acabaram sendo transportados para um local subterrâneo e empilhados durante cerca de dez anos numa pequena caixa de madeira, junto com uma série de materiais arqueológicos descobertos na mesma época. Em setembro de 1953, eles foram achados por Guarducci e transferidos para um ambiente mais adequado para a sua conservação, já que a umidade os afetava notavelmente. Mesmo assim, eles ainda não foram identificados de imediato.

Somente quando se decidiu aprofundar o estudo daquelas relíquias é que começaram a surgir detalhes interessantes sobre elas e sobre o contexto da descoberta. Foi constatado que as relíquias tinham sido achadas no interior do nicho aberto na parede da época de Constantino, inteiramente coberta de mármore pórfiro, geralmente usado para recobrir sepulturas de grande respeito. Entendendo-se então que a importância do nicho deveria ser relacionada diretamente com as relíquias desenterradas, começou uma análise mais minuciosa, confiada a especialistas do setor e a peritos em ciências experimentais, além de exames do ​​antropólogo Venerando Correnti. Sua identificação como pertencentes ao apóstolo Pedro foi anunciada pelo papa Paulo VI em 1968.

As análises revelaram que os ossos, correspondentes a cerca de metade do esqueleto, pertenciam a um indivíduo de cerca de 60 a 70 anos de idade, o que corresponde ao que sabemos sobre a idade aproximada de Pedro em seu martírio, e estavam envoltos em um pano de cor púrpura, coloração extraída de um molusco gastrópode, e tecido com ouro puríssimo. Os restos do tecido conservavam vestígios exatamente da mesma terra do antigo túmulo escavado no solo, sinal de que, antes da transferência ordenada pelo imperador Constantino, era lá, realmente, que os restos tinham sido sepultados.

O que foi evidenciado até agora seria mais do que suficiente para dissipar as dúvidas dos mais céticos, mas, tratando-se de um dos fundamentos mais importantes da história da Igreja católica, é necessário fazer todas as confirmações possíveis.

A análise do nicho do chamado "Muro G” revelou grafites em língua grega que trazem a frase “Pedro está (aqui) dentro”. Mas o elemento considerado absolutamente claro é fornecido pelo próprio posicionamento da basílica. O nicho do “Muro G”, que continha as relíquias, causou no eixo da primeira basílica um deslocamento significativo em direção ao norte. Esta variação do eixo não influenciou só a construção, mas também as contribuições sucessivas, tais como a cúpula de Michelangelo e o baldaquino de Bernini.

O reconhecimento definitivo das relíquias, possível através de fontes literárias e principalmente graças à contribuição da arqueologia, traz novos impulsos emocionais para quem nutre um grande envolvimento com esses lugares cheios de história e de religiosidade.

Tal reconhecimento das relíquias do Apóstolo Pedro, porém, não traz nada de novo aos ensinamentos religiosos em que acreditamos. Ainda assim, é um fato que certamente incentiva a reflexão sobre o quão importante pode ser para cada um de nós seguir os ditames do amor cristão, a paz e a fraternidade entre os homens, os mesmos homens por quem, como a história nos ensina, muitas pessoas têm sacrificado a sua vida terrena.