O vestuário de Bento XVI

Entrevista com monsenhor Elia Volpi

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Por Alexandre Ribeiro

RIO DE JANEIRO, domingo, 27 de julho de 2008 (ZENIT.org).- Desde o início de seu pontificado, Bento XVI tem usado algumas peças de vestuário litúrgico e não litúrgico que têm gerado curiosidades por parte da mídia.

Para falar sobre as vestes do Papa, Zenit entrevistou o monsenhor Elia Volpi, liturgista, pároco da Igreja da Candelária no Rio de Janeiro.

—Que vestes e acessórios litúrgicos e não litúrgicos Bento XVI tem procurado resgatar desde o início de seu pontificado?

—Mons. Elia Volpi: O Papa Bento XVI, no “Início do Ministério Petrino”, isto é, no início do seu pontificado, resgatou o Pálio do primeiro Milênio e o Anel “Piscatório”, o anel de ouro com que os Papas selam os documentos mais solenes, mas que não colocavam no dedo. Este anel é chamado “piscatório” por ser caracterizado pela figura de Pedro pescador que puxa as redes para o barco.

O Pálio do primeiro Milênio foi confeccionado baseando-se em estudos históricos e, sobretudo, nos famosos mosaicos das basílicas de Roma, Ravena e outros antigos achados. Consiste num “cachecol” de lã branca, de 4 metros de comprimento e 10 centímetros de largura, com 5 cruzes vermelhas, fixado com 3 grandes alfinetes em forma de prego. Esse ornamento representa a ovelha perdida, ferida, procurada e encontrada, que o Bom Pastor leva ao pescoço e, ao mesmo tempo, o próprio Pastor, que se fez Cordeiro, ferido e morto, para salvar as ovelhas. As 5 cruzes vermelhas representam as 5 chagas do Crucificado, e os três grandes alfinetes-broches, os pregos com que foi cravado na Cruz.

O Pálio do primeiro milênio, amplo e solene, expressivo na sua visibilidade, que o Papa Bento tinha aprovado e resgatado depois de mil anos, foi usado até junho passado, mas a partir do dia 29, festa de S. Pedro e S. Paulo, se voltou a um modelo mais reduzido e semelhante ao da época barroca.

Ocasionalmente, usam-se paramentos de cunho barroco, como as casulas, preciosas pelos bordados, mas de gosto discutível (na parte anterior têm a forma de um violão), por isso são chamadas “casulas-violão”, bem como capas de asperges, mitras e rendas tradicionais.

O Báculo, a partir de Paulo VI, terminava com um Crucifixo do artista Scorzelli. Recentemente, o Papa Bento começou a usar uma Cruz maior, de forma não moderna.

O Papa não levava o báculo, como os bispos e os Abades, porque na antiguidade trazia o Livro dos Evangelhos, apoiado ao braço esquerdo. Quando os paramentos papais se tornaram vestuários complicados e exorbitantes, perdeu-se a expressiva imagem do Papa que caminhava como que conduzido pelo Evangelho.

Paulo VI achou belo apoiar-se no Crucifixo, mas a coisa não era totalmente certa, pelo fato que o Crucifixo não é apropriado ao papel de Báculo, apesar do significado bonito e inédito dado por Paulo VI.

Fora da Liturgia, o Papa Bento XVI, para defender-se do sol, voltou a usar o chapéu vermelho, chamado de “Saturno”.

Também os sapatos, que até Paulo VI eram de seda vermelha bordada com uma cruz em ouro (que se deveria beijar), com João Paulo II passaram a ser de couro escuro, enquanto que o Papa Bento XVI usa de couro bem vermelho.

Para defender-se do frio, deram ao Papa Bento XVI, anos atrás, o “Camauro”, espécie de touca de veludo, do mesmo tecido da murça, com as bordas de arminho. Usou-a uma só vez porque não ficou bem.

—Que significado tem o resgate dessas vestes e acessórios antigos?

—Mons. Elia Volpi: O porta-voz autorizado do vaticano explicou que o Papa Bento XVI deseja demonstrar, com estes resgates de vestuário, também exteriormente, continuidade em relação a seus antecessores: os papas passam, mas a tradição ultrapassa suas pessoas.

—Qual o senhor pensa ser a intenção do Papa com essa demonstração de um novo cuidado com as vestes litúrgicas e não litúrgicas?

—Mons. Elia Volpi: Pessoalmente, acho que o Papa quer facilitar ao máximo a plena comunhão com os Tradicionalistas que, a partir de Dom Lefebvre, criaram um cisma dentro do catolicismo, mas também valorizar o que geralmente é negligenciado pelo clero. Todavia, duvido que os tradicionalistas revoltados se rendam, pois suas contestações são mais complexas do que aparentam suas palavras.

A história do seu mal-estar explodiu com o Vaticano II, e os insensatos abusos litúrgicos favoreceram as contestações tradicionalistas, mas suas origens remontam à revolução francesa. Já tinham-se manifestado de várias formas e em tempos diferentes: na década de 20, Pio XI destituiu do cardinalato o famoso cardeal Billot por não renunciar ao integralismo tradicionalista.

Para terminar, permita-me um esclarecimento sobre a terminologia “vestes e acessórios antigos”: é bom distinguir antigo e velho. Os barrocos e pós-barrocos não são “antigos”.