Obama com o papa Francisco: pontos para a imagem de um presidente cada vez menos popular

O professor Giovagnoli, da Universidade Católica de Milão, comenta o primeiro encontro entre o papa e o chefe de Estado e explica por que não convém a Obama abordar certos "temas polêmicos"

Cidade do Vaticano, (Zenit.org) Salvatore Cernuzio | 466 visitas

“O presidente está ansioso para encontrar o papa Francesco”. A declaração da porta-voz do National Security Council (NSC) da Casa Branca, Caitlin Hayden, alimentou a já viva curiosidade em torno do encontro entre o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, e o papa Francisco. O encontro já vinha chamando a atenção de analistas políticos e vaticanistas, em especial pelos temas que serão discutidos a portas fechadas e que parecem conter mais discrepâncias do que concordâncias, embora não faltem vários pontos de vista em comum.

ZENIT conversou sobre tudo isto com Agostino Giovagnoli, professor de História Contemporânea na Universidade Católica de Milão.

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Qual é o significado da visita? Podemos interpretá-la como um movimento estratégico em face das próximas eleições nos EUA? Talvez para ganhar o voto dos eleitores católicos?

Giovagnoli: Eu acho redutivo interpretar a visita do presidente Obama só do ponto de vista da estratégia política. Obama sempre declarou simpatia e admiração pelo pontífice e citou palavras dele em vários discursos. Acredito que, pela parte do presidente, exista uma exigência de interagir com um ator imprescindível do cenário internacional. E, sem dúvida, é uma vantagem de imagem estar perto de quem foi escolhido como o homem do ano...

A revista Fortune citou o papa há poucos dias como um dos líderes mais influentes do mundo. Mas, na mesma lista, falta o nome de Obama...

Giovagnoli: Essa classificação me parece excessiva... Claro que há uma verdade, a popularidade de Obama caiu muito nesta fase, enquanto a de Francisco é muito apreciada, especialmente pelos católicos, tanto conservadores quanto progressistas. Mas, usando as palavras do pontífice, é necessário prestar atenção para não transfigurar a imagem do papa e fazer dele uma espécie de "Super Papa". Porque além de ir contra o desejo do Santo Padre, essa visão trairia a própria escolha do testemunho baseado na simplicidade, do homem que segue o evangelho e que não de um "artífice dotado de superpoderes". Eu acho que essas classificações refletem a perda de um mundo que está em busca de líderes críveis, num momento em que muitos líderes internacionais, incluindo o próprio Obama, refletem um déficit de credibilidade.

Apesar da enorme popularidade, não faltam críticas contra o pontífice nos Estados Unidos depois da Evangelii Gaudium, especialmente por causa da visão econômica do papa, que alguns definiram como "marxista".

Giovagnoli: Francisco mesmo já respondeu a essas críticas com grande espírito, dizendo que não se ofendeu por ser chamado de marxista porque conhece muitos marxistas de boa fé, pessoas boas. Indo além da brincadeira, esse tipo de ataque contra o papa representa uma coisa velha, a tentativa de guiar o cristianismo, o catolicismo, com base em correntes ideológicas de direita ou de esquerda... Isso é radical e é totalmente negado por um pontificado que, embora tenha se declarado desde o primeiro dia do lado dos pobres e dos mais fracos, não se determinou nunca em posições políticas ou ideológicas. Essas acusações revelam o despeito e a preocupação de quem enxerga o cristianismo como um instrumento a serviço dos seus próprios interesses.

A que você se refere?

Giovagnoli: Existem nomes e sobrenomes de grandes doadores da Igreja católica norte-americana que manifestaram publicamente essas preocupações. Homens de negócios católicos que se incomodaram, pensando também no dinheiro prometido para as restaurações da catedral de Nova Iorque. Mas isto é só um aspecto da questão. Eu diria que mais profunda é a realidade de um mundo que instrumentalizou o catolicismo fazendo dele uma espécie de ideologia do ocidente e dos seus valores. Mas isso pertence a uma época que Francisco superou amplamente. Colocando de novo a centralidade no evangelho, o papa anulou, ipso facto, certos tipos de operações ideológicas.

Como você mesmo afirmou, Obama já expressou mais de uma vez a simpatia e admiração pelo pontífice. Qual é a relação que existe entre os dois?

Giovagnoli: Eu não sei se existe uma relação. Eu acho que Obama intuiu no magistério deste papa, que tem posições muito críticas há muito tempo sobre os excessos do liberalismo, da lógica dos mercados, da globalização, um campo em que ele também precisa se mover. Um papa assim, que está declaradamente do lado dos mais fracos, é um interlocutor que apresenta oportunidades importantes para um presidente que, de alguma forma, está procurando valorizar algumas escolhas do seu governo que até agora não foram muito apreciadas pelo seu próprio eleitorado.

Já faz certo tempo que alguns bispos dos EUA lideram uma dura batalha contra as posições de Obama que contrariam a doutrina da Igreja e até a liberdade religiosa, em assuntos como aborto, uniões gay, anticoncepcionais etc. É plausível que esses temas delicados sejam tocados neste encontro?

Giovagnoli: É possível, naturalmente, mas eu consideraria um movimento ingênuo e contraproducente. Acho que não convém a Obama tocar nestes problemas. O episcopado norte-americano está dividido: entre os bispos também há posições desconexas, mas a maioria fez críticas fortes. Eu imagino, então, que não seja de interesse do presidente focar a conversa nesses temas, até porque, realmente, não podemos esperar que o pontífice dê respostas contrárias aos princípios afirmados pelos bispos norte-americanos, que são os princípios da Igreja católica. Eu tenho certeza de que a discussão vai abordar outros assuntos de interesse comum.

Quais, por exemplo?

Giovagnoli: A paz, em primeiro lugar. Depois, questões internacionais e os temas ligados aos pobres, ao desenvolvimento internacional mais equilibrado, e assim por diante.

Por trás das divergências, na sua opinião, há pontos em comum entre Obama e Bergoglio?

Giovagnoli: A política de Obama é um pouco difícil de identificar. Em especial, ultimamente, ele vem mostrando algumas oscilações que tornam difícil decifrá-la. É claro que há elementos, principalmente no projeto inicial do presidente, como ir ao encontro das exigências de um novo diálogo internacional, uma relação mais madura com o mundo árabe e islâmico, a preocupação com a paz, que o premiou com o Nobel da Paz em 2009, e também a atenção pelas classes mais desgastadas, superando essa lógica do capitalismo compassivo do seu predecessor. Eu diria que esses elementos do "programa", mais do que da política de Obama, podem encontrar uma fonte de apoio nos ensinamentos do papa Francisco, embora eles obviamente estejam num patamar mais alto e mostrem mais robustez.