Observador do Vaticano perante a ONU: Não nos acostumemos com os naufrágios de imigrantes

Dom Tomasi aborda em entrevista a tragédia que a Europa vive no Mar Mediterrâneo

Cidade do Vaticano, (Zenit.org) Redacao | 396 visitas

Imigrantes mortos no mar em barcas que, em vez de veículos de esperança, têm sido veículos da tragédia. “Desde que li num jornal essas palavras, faz algumas semanas, e palavras que, infelizmente, se repetem tantas vezes, o meu pensamento retornou continuamente a esse assunto, que é como um espinho no coração. E eu senti que tinha que vir hoje aqui rezar, realizar um gesto de solidariedade, mas também despertar as nossas consciências para que isto que aconteceu não se repita. Que não se repita, por favor”.

Mais de um ano já se passou desde que o papa Francisco pronunciou essas palavras na ilha italiana de Lampedusa, que sofre intensamente o drama dos naufrágios de embarcações precárias em que viajam imigrantes clandestinos vindos da África rumo à Europa. Um drama que continua vivo, com um número crescente de imigrantes que perdem a vida no Mar Mediterrâneo.

A Comissão Europeia afirmou que é impossível conceder novas ajudas para que o governo italiano lide com os desembarques constantes em sua costa. A este respeito, dom Silvano Maria Tomasi, observador permanente da Santa Sé perante as Nações Unidas em Genebra, declarou em recente entrevista à Rádio Vaticano que cerca de 23 mil imigrantes morreram entre os anos de 2000 e 2013  na tentativa de chegar aos pontos de entrada na Europa: a Grécia, a ilha italiana de Lampedusa, o arquipélago espanhol das Canárias e o sul da Espanha peninsular.

"A globalização da indiferença tem que ser vencida diante desta tragédia europeia. E nós nem sequer conhecemos as vítimas anônimas, que não são contabilizadas pelos organismos de controle e de vigilância das fronteiras. Existe o risco de nos acostumarmos com as notícias desses barcos que arrastam água abaixo pessoas e famílias com crianças, que investiram tudo para buscar uma vida digna", denuncia o prelado.

Tomasi recorda que a solidariedade não pode ser apenas uma teoria. "Diante da evidência da necessidade dos países europeus de mão-de-obra e de fortalecimento demográfico para manter a economia eficiente e a influência política, fazer dos imigrantes o bode expiatório das frustrações sociais e manipulá-los para atingir objetivos eleitorais se transforma numa estratégia, num mecanismo desonesto que promove o medo do outro e o preconceito. O resultado é a redução do imigrante a uma pessoa de segunda classe".

Dom Silvano Tomasi afirma que o primeiro passo para a solução é a "aplicação coerente das regras já definidas" e "o respeito dos instrumentos de proteção já em vigor". Para os países ricos, também é necessária "a aceitação da Convenção Internacional sobre a Proteção dos Trabalhadores Migrantes e das suas Famílias, que foi aprovada pela ONU em 1990 e entrou em vigor alguns anos mais tarde".

O observador vaticano considera um passo correto a decisão do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados de abordar em dezembro, no seu "Diálogo Internacional", a questão da proteção no mar, já que "o Mediterrâneo não é o único local de tragédias de imigração".

Para uma gestão eficaz do complexo sistema migratório no Mar Mediterrâneo, seria necessário que a Europa fosse até a raiz do problema e tomasse "medidas mais razoáveis, permitindo que os imigrantes em necessidade viessem à Europa legalmente e de forma ordenada", conclui o prelado.