Olhar voltado à simplicidade dos romeiros e ao bem da sociedade (I)

Entrevista com o Arcebispo de Aparecida, Dom Raymundo Damasceno Assis

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Por Alexandre Ribeiro

APARECIDA, quarta-feira, 8 de abril de 2009 (ZENIT.org).- O presidente do CELAM (Conselho Episcopal Latino-Americano) e Arcebispo de Aparecida, Dom Raymundo Damasceno Assis, acaba de completar cinco anos à frente da Arquidiocese, meta de peregrinação de 8 milhões de romeiros ao ano, pessoas em sua maioria simples, que vêm expressar o amor a Maria, no Santuário de Nossa Senhora Aparecida.

Nesta entrevista especial a ZENIT, o Arcebispo fala sobre a vida da Arquidiocese, sua admiração pelos romeiros, as virtudes para se construir uma sociedade melhor, entre outros temas.

–O senhor acaba de completar cinco anos à frente da Arquidiocese de Aparecida. Como é ser Arcebispo da Arquidiocese que abriga o maior santuário mariano do mundo e de um local tão querido para os católicos brasileiros?

–Dom Damasceno: Vir para Aparecida foi uma surpresa para mim. Acho que Deus gosta das surpresas, e nós temos de nos adaptar a isso, procurando encarar os acontecimentos com o olhar da fé. Eu não conhecia bem a arquidiocese de Aparecida. Saí de uma arquidiocese onde eu era bispo auxiliar, em Brasília, capital do país, portanto, uma cidade muito maior. Depois que aqui cheguei, aos poucos fui me adaptando. Considero um privilégio ser arcebispo de Aparecida, capital mariana e religiosa do Brasil, como normalmente se diz. É um privilégio, primeiro porque é uma diocese pequena. Paulo  VI dizia ao cardeal Carlos Carmelo de Vasconcelos Motta, quando lhe escreveu, transferindo-o de São Paulo para cá, que Aparecida era uma diocese pequena, porém notável e muito querida por todo povo brasileiro, por ter nela a sede do Santuário da Padroeira do Brasil, o Santuário de Nossa Senhora Aparecida.

Eu fui percebendo que realmente é uma diocese pequena, mas muito importante. Essa importância cresce cada vez mais, porque o número de romeiros aumenta. Nós, hoje, temos cerca de 8 milhões de romeiros ao ano. Se nós olharmos esses romeiros que vêm a Aparecida, a diocese torna-se talvez a maior do Brasil, sob esse ponto de vista da peregrinação. São pessoas que merecem toda atenção pastoral do Arcebispo, dos sacerdotes que aqui trabalham, particularmente dos Missionários Redentoristas, que têm a missão, recebida da Igreja, de cuidar do trabalho pastoral do Santuário e também de sua parte material e administrativa.

Além dos romeiros, Aparecida é uma Arquidiocese que tem muitas casas religiosas. São mais de 30. Poucas dioceses têm isso. Aqui há inclusive três mosteiros de clausura, as Concepcionistas, as Clarissas e as Carmelitas. Essa presença dos religiosos, em número tão grande de casas, é realmente uma bênção, uma graça de Deus.

Pelo fato de ser uma arquidiocese pequena do ponto de vista territorial, isso permite o contato mais frequente do bispo com os sacerdotes e com os religiosos. Visito  cada uma das paróquias duas ou três vezes ao ano, o que provavelmente não acontece em outras dioceses, por causa do tamanho, das distâncias. Eu me encontro com o clero, se somarmos as visitas às paróquias e outros encontros, entre dez a quinze vezes ao ano.  Isso é realmente uma graça e um privilégio.

Do ponto de vista vocacional, hoje nós temos 14 seminaristas maiores, na teologia e na filosofia. As vocações aumentam e nós estimulamos muito a pastoral vocacional. Temos o plano de chegar a 30 seminaristas maiores. São apenas 17 paróquias. Assim, nós praticamente estaríamos trabalhando com a previsão de  dois futuros padres para cada paróquia. Mas não pensamos somente em nossas paróquias. Procuramos cultivar uma mística missionária nos seminaristas para que  possam estar dispostos a servir à Igreja onde for necessário. Aliás, o nome do nosso seminário é Seminário Maior Missionário Bom Jesus.

Aparecida é uma diocese que vai se projetando cada vez mais para fora do seu espaço geográfico. Isso com os milhões de romeiros e também com o alcance dos meios de comunicação de que nós hoje dispomos no Santuário, através dos quais atingimos praticamente o Brasil todo. Aparecida tem uma repercussão muito grande em todo Brasil. É um centro evangelizador muito importante.

–Como o senhor vê o amor do povo por Maria, ao observar as multidões de peregrinos que acorrem todos os anos a Aparecida?

–Dom Damasceno: Nós temos gente que chega de helicóptero, como temos gente que chega de ônibus, de carro, a pé, a cavalo. Temos o retrato de nosso país e das mais diversas camadas sociais. Nossa Senhora é a Padroeira do Brasil. É a nossa mãe, que não faz distinção entre seus filhos. Ela acolhe a todos, ama-os e os protege. Talvez por ser algo próprio de mãe, ela tem um carinho especial com os mais carentes, pobres. Algo como uma mãe que dedica um pouco mais de cuidado ao filho mais frágil e necessitado, o que não significa que ela ame menos os outros irmãos que são mais sadios e fortes.

A maioria dos  romeiros de Aparecida é como aquele que a Bíblia denomina como “os pobres de Javé”. São  pessoas simples, retas, que confiam em Deus, que não têm grandes bens materiais e não estão apegadas a eles. Maria é uma pessoa que certamente pertencia a esse grupo dos chamados “pobres de Javé”. Esses pobres se caracterizam justamente pelo abandono nas mãos de Deus e a confiança total n`Ele, seguros de que Ele, como Pai providente, nos conduz e nos atende em nossas necessidades.

Alguns bispos diziam na Quinta Conferência [Geral do Episcopado Latino-Americano e Caribenho, maio de 2007] que os romeiros também nos evangelizam. Porque nos ensinam  o desprendimento, a simplicidade da fé e a confiança em Deus, a capacidade de sacrifício e renúncia. Quanta gente vem e faz sacrifícios para cumprir uma promessa ou agradecer por uma graça.

–A fé e as virtudes do povo simples lhe trazem esperança?

–Dom Damasceno: Como eu disse, nós não só evangelizamos, mas também somos evangelizados. Os peregrinos alimentam nossa fé e a nossa vida espiritual. Nos dão exemplo de total confiança em Deus, de desapego das coisas materiais. Estes, às vezes, até renunciam alguma coisa que lhes faz falta no mês para fazer sua peregrinação, sua oferta, para que o Santuário possa realizar a missão que lhe cabe. A gente percebe isso através das cartas. Quantas pessoas dizem: “este mês eu não vou poder enviar a minha contribuição porque perdi o emprego, porque fiquei doente e tive de gastar mais dinheiro com remédio, porque minha filha ou minha irmã perdeu o emprego e eu tenho de ajudá-la”. Esse espírito de solidariedade e de renúncia está muito presente na vida do romeiro. Lendo as cartas a gente se comove. Nós que temos mais conforto, nem sempre possuímos este espírito de renúncia. Vemos a parábola do evangelho de Lucas (Lc 21) vivida, praticada concretamente pelo romeiro aqui em Aparecida: a viúva que depositou a moeda no templo deu mais do que os demais, porque os outros deram do que lhes sobrava, mas ela deu daquilo que lhe fazia falta.

–Há dois anos, o senhor acolheu Bento XVI em sua visita ao Brasil. Que momentos o senhor guarda de forma especial em sua memória, ao se recordar daqueles dias tão intensos?

–Dom Damasceno: Foi uma bênção muito grande para Aparecida a visita do Santo Padre Bento XVI. Toda visita do Papa a um país é sempre uma graça. Isso aconteceu aqui em Aparecida. Deus nos permitiu acolhê-lo no nosso Seminário Missionário Bom Jesus. Foi um compromisso que nós assumimos de acolher o Papa e sua comitiva da melhor maneira possível e dentro das nossas condições. A nossa surpresa, como sinal da graça e da proteção de Deus, foi encontrar tantas pessoas generosas que nos ajudaram a preparar o prédio do Seminário Bom Jesus para acolher dignamente o Santo Padre e sua comitiva. E depois deles, acolher também os bispos brasileiros delegados da Quinta Conferência. Nós os acolhemos aqui durante toda a Conferencia, ou seja, durante 20 dias. Graças a Deus conseguimos preparar o prédio da melhor forma possível. De uma maneira simples, modesta, mas com um conforto razoável para acolhê-los com toda dignidade e honra que mereciam estes nossos ilustres visitantes.

São muitos os frutos da visita. O Santo Padre pronunciou discursos importantes aqui. Sua presença, suas atitudes, seus exemplos, sua palavra realmente renovam a fé dos fiéis, o entusiasmo dos sacerdotes, dos religiosos. Houve ainda a Quinta Conferência, que nos deixou um belíssimo exemplo dos bispos, quanto a sua simplicidade, seu amor à Igreja, sua capacidade de trabalho. Eles vieram para esta cidade simples, pequena. Hospedaram-se em hotéis médios, onde foram acolhidos com muito carinho.

A Quinta Conferência nos deixou um documento muito inspirador, muito rico, que traz essa marca de Aparecida, portanto, uma responsabilidade muito grande para nós. A gente vê o nome de Aparecida continuamente presente nas conferências, conversas, pregações, em todo lugar da América Latina. O ano de 2007 foi de muitas graças para o Brasil, com a visita do Santo Padre, e muito particularmente, aqui, para a nossa Arquidiocese de Aparecida. Creio que é difícil medir os frutos desses dois acontecimentos, mas a cada dia, e cada vez mais, descobrem-se os resultados positivos que a visita do Papa Bento XVI e a V Conferencia produziram em Aparecida e no nosso Continente.

[A segunda parte da entrevista será publicada nesta quinta-feira]