Olhar voltado à simplicidade dos romeiros e ao bem da sociedade (II)

Entrevista com o Arcebispo de Aparecida, Dom Raymundo Damasceno Assis

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Por Alexandre Ribeiro

APARECIDA, quinta-feira, 9 de abril de 2009 (ZENIT.org).- O presidente do CELAM (Conselho Episcopal Latino-Americano) e Arcebispo de Aparecida, Dom Raymundo Damasceno Assis, acaba de completar cinco anos à frente da Arquidiocese, meta de peregrinação de 8 milhões de romeiros ao ano, pessoas em sua maioria simples, que vêm expressar o amor a Maria, no Santuário de Nossa Senhora Aparecida.

Confira a segunda parte desta entrevista especial a ZENIT, em que o Arcebispo fala sobre a vida da Arquidiocese, sua admiração pelos romeiros, as virtudes para se construir uma sociedade melhor, entre outros temas. A primeira parte pode-se ler em ZENIT, 8 de abril de 2009.

–Como foi para o senhor assumir tamanhas responsabilidades: arcebispo de Aparecida, acolher o Papa e a Quinta Conferência, tornar-se presidente do CELAM?

–Dom Damasceno: É como eu dizia no começo. Deus sempre nos surpreende em nossa vida. Cabe a nós ver nessas surpresas que Ele nos reserva a Sua vontade. E procurar então nos adaptar a essas surpresas, aceitar aquilo que Deus dispõe para cada um de nós, confiar nele e cumprir a missão que nos é confiada. A minha maior responsabilidade é a arquidiocese de Aparecida. Eu devo me dedicar de corpo e alma ao meu trabalho na condução desta porção do povo de Deus que está aqui. Mas depois da Quinta Conferência, Deus também me reservou esta surpresa, de ser eleito presidente do CELAM. Eu aceitei. Tenho por princípio não recusar, como também não pedir nada. Mas se Deus me pede um serviço, eu procuro confiar nele e me colocar à disposição. É uma tarefa sem dúvida de grande responsabilidade. É um Conselho, não é uma Conferência. Portanto, um Conselho que está a serviço das Conferências Episcopais, que desempenha um papel muito grande no sentido de aprofundar cada vez mais a comunhão entre as Conferências Episcopais aqui na América Latina e no Caribe e com o Santo Padre, pastor supremo da Igreja, e também colaborar com elas em tudo que for necessário.

–Pensando nos jovens que se preparam para, no futuro, assumir grandes responsabilidades, que virtudes o senhor destacaria que são necessárias cultivar para o bom exercício dos cargos e atribuições de responsabilidade?

–Dom Damasceno: Os jovens são as pessoas que devem estar em vigília permanente, acompanhando a caminhada do Brasil e se preparando para assumir as suas responsabilidades no futuro, seja na Igreja, seja na sociedade. É necessário que a Igreja cada vez mais abra espaço para os jovens nas comunidades, confie neles, ajude a prepará-los para viver sua fé no mundo de hoje, e assumir responsabilidades, sem medo do dia  de amanhã. Trata-se de responsabilidades que a própria vida vai apresentando a cada um deles, na medida em que vão crescendo e um horizonte mais amplo vai se descortinando ante seus olhos e sua formação profissional vai progredindo. A vida por si mesma vai se encarregando de oferecer oportunidades e responsabilidades a cada um de nós. E nós não devemos ter medo de assumi-las. Mas para isso precisamos nos preparar, confiar em nós mesmos, e principalmente, na ajuda de Deus.

É muito importante a atenção que a Igreja tem procurado dar aos jovens. Mas é importante que essa atenção seja dada concretamente no espaço onde eles vivem, na comunidade, na universidade, nos colégios. É preciso procurar o contato com eles, ir ao encontro deles, estar próximos e quem sabe também atraí-los para dentro do nosso espaço, para ali eles se sentirem bem, como em sua casa, e nós podermos oferecer aquilo que temos de melhor, que é justamente a fé em Nosso Senhor Jesus Cristo. Ele nos mostra um caminho de vida onde nós nos realizamos muito mais, onde nos sentimos felizes e fazemos muito mais bem aos outros. O caminho de Jesus é o caminho do amor, da solidariedade. Sabemos que o amor traduzido em solidariedade ao outro, em perdão, em justiça, em verdade, em respeito à dignidade do outro, aos seus direitos, esse caminho nos faz sentir felizes e colaborar com o mundo que nós queremos que seja melhor. O mundo só será melhor se cada um assumir a sua responsabilidade na sociedade.

É preciso colaborar com a solução dos problemas, não fugir, alienando-se da sociedade, fechando-se dentro de um individualismo, um egoísmo que parece muitas vezes cômodo, tranqüilo. Ninguém pode ser feliz se os outros não o forem, porque todos os problemas da comunidade e da sociedade afetam de alguma forma cada cidadão. Na medida em que eu procuro ajudar a solucioná-los, estou tornando este mundo melhor, melhor a vida dos outros, e em consequência também melhor a minha própria vida.

É preciso ter consciência disso: eu tenho o direito e o dever de viver numa sociedade mais segura, com mais paz e justiça, onde a dignidade humana é respeitada, onde os direitos de cada um são defendidos, mas para isso eu tenho de dar a minha contribuição. É preciso tomar consciência de que eu também sou co-responsável por isso. O mundo dentro do projeto de Deus é aquele onde todos se sintam irmãos e filhos de Deus, onde cada um tenha as suas necessidades fundamentais atendidas  e cada um procure ver no outro um irmão seu, criado à imagem e semelhança de Deus.

–Poderia destacar alguma virtude que cada um deveria desenvolver nesse caminho de construção de uma sociedade melhor?

–Dom Damasceno: Eu diria primeiro responsabilidade no exercício da própria profissão. Isso significa preparar-se bem para exercer a própria profissão e exercê-la bem. O cristão deve procurar exercer com mais responsabilidade e competência a sua profissão, talvez até mais do que um outro que não tenha fé. Porque a profissão para o cristão é uma maneira de praticar a caridade, o amor para com o outro. Isso é fundamental.

Grande parte de nossa vida é passada no exercício da nossa profissão. Passamos praticamente o dia todo exercendo uma profissão. A maior parte da vida, você passa realizando um trabalho, seja ele qual for. Então se você o faz com competência, com responsabilidade, está contribuindo para o bem e o desenvolvimento da sociedade. Como um médico, por exemplo, vai praticar a caridade para com o seu próximo? Em primeiro lugar, exercendo bem a sua profissão, com competência e responsabilidade. Fazer uma oferta na missa de domingo, pagar o dízimo, ajudar uma obra social também são maneiras de praticar a caridade. Mas a maneira mais própria dele, e certamente mais agradável a Deus, e certamente muito mais eficiente em termos de resultado, é o seu trabalho profissional feito com competência, responsabilidade e dedicação. Se a pessoa é um bom profissional, ela melhora o seu ambiente. Aqueles que estão ao seu lado não poderão trabalhar de qualquer jeito e ficar indiferentes.

O político, por exemplo, que é o político? É alguém que assume a responsabilidade de cuidar do bem da sociedade, do bem do cidadão. Ora, se esta pessoa faz isso com competência e responsabilidade, com honestidade, com consciência da dimensão e repercussão do seu trabalho, ela produz um bem imenso. E isso serve para todo tipo de trabalho. Não há trabalho mais nobre, mais digno. Todo trabalho é importante. E isso supõe, claro, que todo trabalho seja valorizado, reconhecido. 

Depois, destaco a consciência de ser cidadão. Portanto, de fazer parte de uma sociedade. É preciso ter consciência de que cada um é cidadão e responsável junto com os outros pelo  bem da sociedade. No âmbito profissional e em todos os outros âmbitos da vida, seja como pessoa casada, solteira, como habitante da cidade... É preciso ter consciência de solidariedade. Vencer o individualismo e o egoísmo. Precisamos pensar em todos e corrigir o ditado: “Cada um por si e Deus por todos”, por outro: “Cada um por todos e Deus por nós”.

–Em tempos de crise, de cansaço e desconfiança quanto ao futuro, a proposta da Igreja parece despertar um novo interesse. Cristo continua a seduzir os corações?

–Dom Damasceno: Jesus Cristo é o Caminho, a Verdade e a Vida. Ao fazer-se um de nós, Cristo nos deu a chave para entendermos o mistério da nossa existência, da criação. Deu-nos a chave para entendermos qual a nossa origem, que é Deus, e para onde nós estamos caminhando. E, ao mesmo tempo, com as suas palavras e atitudes, Ele não só veio para nos salvar, mas também veio, ao encarnar-se, mostrar o caminho a seguir, que é assumir os valores que Ele mesmo viveu aqui nesta vida. Fundamentalmente, para nós, o bem da sociedade, a nossa felicidade e a nossa realização consistem em trilhar os mesmos passos de Jesus, que se resumem no amor a Deus e ao próximo. Se procurarmos viver isso, então estamos contribuindo para um mundo melhor, contribuindo para construir um  mundo melhor do que este em que nós estamos vivendo.