"Os conventos vazios devem estar abertos aos refugiados"

Durante sua visita ao Centro Astalli, Papa Francisco recordou que os pobres são "mestres privilegiados do nosso conhecimento de Deus"

Roma, (Zenit.org) Luca Marcolivio | 579 visitas

Uma multidão de cerca de mil pessoas acolheu o papa Francisco no início da tarde de hoje, no Centro Astalli, centro de acolhimento para refugiados administrado pelos jesuítas.

O Santo Padre fez uma visita ao Centro sem guarda-costas, acompanhado apenas pelo chefe da Gendarmaria do Vaticano, Domenico Giani, a bordo do Ford Focus, carro que utiliza normalmente para se locomover em Roma.

Ao chegar, o Papa foi acolhido pelo Cardeal Vigário para a diocese de Roma, Agostino Vallini, e três companheiros jesuítas: Padre Giovanni Lamanna, diretor do Centro Astalli; padre Carlo Casalone, provincial da Itália e padre Federico Lombardi, diretor da Sala de Imprensa do Vaticano. O Pontífice, em seguida, abraçou um grupo de refugiados africanos e trocou algumas palavras com eles.

Antes de entrar na cantina do Astalli, papa Francisco virou-se para cumprimentar a multidão atrás das barreiras que o aplaudiram por um longo tempo. Depois de conhecer algumas pessoas que serviam à mesa, o Papa se deteve em oração por alguns minutos na capela.

Outros refugiados foram recebidos pelo Santo Padre na Igreja de Jesus, ligada ao Centro por um longo corredor, onde está o túmulo do Padre Pedro Arrupe, fundador do serviço Jesuíta para os Refugiados.

Depois de ouvir as saudações do padre Lamanna, responsável pelo Centro, e de dois refugiados, um do Sudão e outra da Síria, papa Francisco fez seu discurso destacando que cada refugiado "traz consigo, sobretudo, uma riqueza humana e religiosa, uma riqueza a ser acolhida, não para ter medo”.

Roma, disse o Papa, depois de Lampedusa e outras localidades marítimas, é apenas uma segunda etapa para muitos refugiados. Na capital, estas pessoas deveriam “reencontrar uma dimensão humana” e muitasvezes, ao invés disto, tantas pessoas que tem escrito na sua ‘permissão de estadia’ “proteção internacional” são obrigadas a viver em situações degradantes, sem poder iniciar uma vida com dignidade, de pensar num futuro”.

O Santo Padre elogiou todas as estruturas, como o Centro Astalli, que não só dão algo para os refugiados, mas procuram entrar em um relacionamento com eles “reconhecendo-os como pessoas, empenhando-se em encontrar respostas práticas para suas necessidades”.

Acolher os mais pobres, recordou o Papa, foi um dos carismas da Companhia de Jesus, desde quando Santo Inácio de Loyola quis criar um espaço dedicado a eles na sua residência em Roma.

Quatro séculos e meio depois de o fundador, em 1981, outro jesuíta, padre Pedro Arrupe "fundou o Serviço Jesuíta para os Refugiados, e desejou que a Sé Romana fosse aquele local, no coração da cidade”.

O trabalho dos jesuítas, frisou Bergoglio, consisteem três palavras: Servir, acompanhar e defender.

Servir significa acolher a pessoa que chega com atenção, “curvando-se sobre quem tem necessidade, estendendo-lhe a mão, sem cálculos, sem temor, com ternura e compreensão, como Jesus inclinou-se e lavou os pés dos apóstolos”.

A "solidariedade" é a palavra chave de alguém que quer servir, especialmente os mais necessitados, sobretudo, no "mundo mais desenvolvido" onde tornou-se quase um "palavrão ", disse o papa Francisco.

“O pobres são também mestres privilegiados do nosso conhecimento de Deus; a sua fragilidade e simplicidade desmascaram os nossos egoísmos, as nossas falsas seguranças, as nossas pretensões de auto-suficiência e nos guiam à experiência da proximidade e da ternura de Deus, a receber na nossa vida o seu amor, a sua misericórdia de Pai que, com discrição e paciente confiança, cuida de nós, de todos nós”.

Conforme seu costume, papa Francisco fez uma série de perguntas à consciência dos fiéis, especialmente da diocese de Roma:“Me curvo diante de quem está em dificuldades ou tenho medo de sujar as mãos? Sou fechado em mim mesmo, nas minhas coisas ou me dou conta daqueles que têm necessidade de ajuda? Sirvo somente a mim mesmo ou sei servir aos outros como a Cristo, que veio para servir até dar a sua vida? Olho nos olhos daqueles que pedem justiça ou viro o olhar para outro lado, para não olhar os olhos?”.

Acompanhar é um passo além do que simplesmente acolher. "Não basta dar um sanduíche se não for acompanhado pela oportunidade de aprender a andar com as próprias pernas. A caridade que deixa o pobre assim como ele é, não é suficiente", disse o Papa.

Defender significa “ficar do lado daqueles que são mais fracos”. Este objetivo não deve ser confiado apenas a "especialistas" da Igreja, mas deve ser “uma atenção de toda a pastoral, da formação dos futuros sacerdotes e religiosos, do compromisso normal de todas as paróquias, movimentos e agregações eclesiais”.

A este respeito, o Papa dirigiu uma exortação especial aos institutos religiosos: “aler seriamente e com responsabilidade este sinal dos tempos”.Recordando que “os conventos vazios não servem à Igreja para transformar-lhes em albergues e ganhar algum dinheiro.

Os conventos vazios “não são nossos, são para a carne de Cristo que são os refugiados. O Senhor chama a viver com generosidade e coragem a acolhida nos conventos vazios” - acrescentou o Santo Padre alertando mais uma vez para não cair na tentação da “mundanidade espiritual”.