Os desafios dos maronitas na diáspora (Parte II)

Entrevista com dom Habib Chamieh, bispo da comunidade maronita de Buenos Aires

Roma, (Zenit.org) Robert Cheaib | 386 visitas

Publicamos hoje a segunda e última parte da entrevista com dom Habib Chamieh, bispo dos maronitas de Buenos Aires. A primeira parte foi publicada em 25 de setembro.

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O encontro dos bispos abordou temáticas ecumênicas e inter-religiosas?

Dom Chamieh: Sim, falamos das relações ecumênicas com os irmãos ortodoxos e protestantes. Mas eu gostaria de destacar em especial a interessante fala do cardeal Jean Louis Touran, que abordou o diálogo com o islã e disse que nós temos duas tarefas fundamentais: a primeira é ajudar os muçulmanos a viver uma abertura cultural, porque o fundamentalismo se nutre e se aproveita da ignorância das pessoas. A segunda é ajudar os cristãos, que muitas vezes são analfabetos nos assuntos religiosos, para serem mais firmes e conscientes da sua fé. Eu acho interessante lembrar também que nós dedicamos um bom espaço à relação do ministério episcopal com a mídia e ao encorajamento do compromisso ativo dos leigos na vida das dioceses.

O papa Francisco criticou, por exemplo, os bispos que parecem mais “chefes de escritório” do que pais e pastores do povo de Deus. Quais foram os pontos do discurso do papa que mais o impactaram?

Dom Chamieh: Como novo bispo, eu fiquei mais tocado pelo convite do papa a não viver o ministério como uma ambição. É importante a comparação que ele fez sobre o bispo que aspira sempre a uma diocese "melhor" do que as outras, que, segundo o papa, é uma coisa parecida com o marido que está sempre olhando para a mulher dos outros. Eu vou guardar no coração, com certeza, a exortação do papa a não viver o episcopado com "mentalidade de príncipe". No papa Francisco nós tocamos com as mãos o desejo e a vontade de reforma. E o estilo dele, como bispo de Roma, que vive na simplicidade, na pobreza e perto do povo de Deus, já é um grande exemplo e uma exortação para nós.

O papa falou de três atitudes fundamentais no bispo: acolher com magnanimidade, caminhar junto com o rebanho e permanecer com o rebanho. Qual é a importância dessa presença qualitativa e qualificada nas “periferias existenciais”?

Dom Chamieh: É bom levar em conta que, quando o papa Francisco fala das periferias existenciais, ele fala com conhecimento de causa. Ele foi o arcebispo de uma grande metrópole e entende não só a importância, mas também a indispensabilidade de uma proximidade concreta do povo de Deus, das várias pobrezas, não só materiais, mas principalmente existenciais, de solidão, doença, falta de trabalho, etc. O papa nos transmite uma experiência que ele mesmo viveu em pessoa. Esse estilo de presença não é necessário apenas para o povo, mas é também o modo necessário para abrir o bispo à experiência verdadeira de Jesus Cristo. 

Antes de ser bispo, o senhor já viveu uma experiência missionária com os maronitas no Uruguai. Quais foram os desafios?

Dom Chamieh: Eu fui missionário no Uruguai durante três anos. O Uruguai é um país particular porque é a única nação realmente laica na América do Sul. Existe um forte anticlericalismo lá, uma marginalização da Igreja. A laicidade deles é comparável à francesa, que é a chamada laicidade negativa. Esse clima, lamentavelmente, envolveu um afastamento progressivo dos fiéis da vida da Igreja. O mesmo fenômeno aconteceu com os maronitas de lá. Os desafios foram dois: o primeiro, que muitos dos maronitas chegaram ao Uruguai faz mais de cem anos. Muitos deles nos tempos da perseguição otomana, em 1860. Quando chegaram lá, eles eram chamados de "os turcos", e, para fugir desse rótulo, muitos tentaram se integrar, se distanciando do próprio rito oriental. O segundo desafio tem a ver com o laicismo imperante, que também exerceu a sua influência negativa nos imigrantes maronitas.

E agora, na Argentina, a situação é diferente?

Dom Chamieh: Sem dúvida. A Argentina é uma nação com um forte senso católico. Existe abertura para o papel e para a contribuição da Igreja. Vamos lembrar que na Argentina existem cerca de dois milhões de pessoas de origem libanesa. É claro que isso não quer dizer que eles saibam falar a nossa língua ou que conheçam o nosso rito maronita. A diocese maronita na Argentina foi fundada em 1990, em tempos do papa João Paulo II. Foi fundada a eparquia de São Charbel para os maronitas. Como maronitas, nós temos quatro paróquias, duas delas em Buenos Aires.

Qual é a sua situação pessoal em Buenos Aires hoje?

Quando eu cheguei, vi que existem situações para ajustar o antes possível. Por exemplo, a sede episcopal maronita está muito longe da catedral maronita. Isso faz com que a vida de trabalho como bispo seja quase de ermitão. Uma das primeiras tarefas é encontrar uma residência com a igreja, para viver a vida de fé com os fiéis todos os dias e não só no domingo. E um dos primeiros projetos que eu quero realizar é construir um santuário para São Charbel.