Os dez mandamentos na África

O perdão: como a bíblia e o evangelho desenvolvem o homem e os povos do continente

Roma, (Zenit.org) Redacao | 594 visitas

O pe. Ermanno Battisti, há 40 anos em Guiné-Bissau, fundou a paróquia de Jesus Redentor e o Centro Artístico Juvenil Nacional na capital Bissau, além do Hospital Infantil Católico de Bor, na periferia de Bissau.

Perguntamos a ele, com base na sua experiência na África, por que a bíblia e o evangelho desenvolvem o homem e os povos africanos. Eis o seu testemunho:

A primeira contribuição ao desenvolvimento do homem africano, que nós, missionários, trazemos à África, é a difusão do conhecimento dos dez mandamentos, que expressam a vontade de Deus para a vida de cada homem e que são o seu fundamento.

A religião tradicional africana, pelo menos na Guiné-Bissau, que eu conheço bem, não dá essa base moral, porque não tem uma moral. A moral é definida caso a caso pelos anciãos da aldeia, de acordo com o que foi feito no passado e é útil hoje para a aldeia. Eles julgam o bem e o mal de acordo com a tradição e com a conveniência do momento. Por exemplo, roubar é ruim, mas se o homem de uma tribo rouba os animais de outra etnia e consegue escapar, então eles dizem que ele é corajoso e esperto. Outro exemplo: se uma criança nasce com alguma deformidade, é ruim deixá-la na aldeia, porque ela é um espírito maligno que depois vai fazer mal a todos. Então eles a abandonam na praia ou a levam para a selva, para deixá-la morrer.

Vou contar um fato. Uma menina nasceu prematura e a parteira declarou o seguinte, porque a menininha era muito pequena: "Esta aqui não é uma menina, é um espírito". O pai foi falar com o feiticeiro para saber o que fazer. E o feiticeiro, depois de consultar uns pedaços de madeira, disse que era preciso devolver a menina ao mundo dos espíritos da água, de onde ela tinha escapado para vir à terra fazer mal à aldeia. O homem pegou a criança, enrolou-a num pano e a levou até uma espécie de encarregado oficial da aldeia para fazer esse tipo de ritos. Ele esperou a maré baixar e deixou a criança abandonada no ponto mais baixo da praia, para que a maré a levasse embora quando voltasse a subir.

Mas à noite, quando o pai voltou para casa, ele encontrou a menina em cima da cama, ao lado da mãe. O cachorro da família tinha ido procurar a criança e a levou de volta para a mãe, carregando-a pela boca, com pano e tudo. O homem ficou assustado e correu de novo até o feiticeiro, que olhou para os pedaços de lenha e respondeu que tinha acontecido um erro: a menina não era um espírito da água, mas um espírito da floresta, e que era na floresta que ele tinha que abandoná-la. A mãe chorou, porque queria salvar a filha, mas o homem a pegou de novo e a entregou ao intermediário, que desta vez a abandonou na selva. Mas os planos de Deus eram diferentes. Mais uma vez, o incrível aconteceu: o cachorro a encontrou novamente e a levou para casa.

Ao rever a filha, o homem se apavorou tanto com aquela suposta perseguição dos espíritos que largou tudo e fugiu de casa. Mas a mãe interpretou que era uma intervenção direta de Deus e ficou com a menina, que cresceu e ficou mais forte a cada dia, como todas as crianças normais.

Anos se passaram e não se soube mais nada do pai, até que um dia, com 20 anos de idade, a jovem encontra um idoso desconhecido. Ele conta tudo para ela e pede que ela cuide dele. Joana aceita com alegria e fica sempre perto do pai até o dia em que ele morre, nos seus braços, convencido de que ela não era um espírito, mas simplesmente a sua filha.

A Joana é uma senhora muito ativa numa paróquia em Bissau. É uma mulher maravilhosa, uma das grandes cristãs do país, não apenas como mãe, mas como cidadã instruída capaz de difundir o Evangelho.