Os integrismos

Liberdade religiosa versus fundamentalismo irreligioso

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MADRI, terça-feira, 25 de janeiro de 2011 (ZENIT.org) - Apresentamos, a seguir, um artigo escrito pelo espanhol Rafael Navarro-Valls, catedrático da Faculdade de Direito da Universidade Complutense de Madri e secretário-geral da Real Academia de Jurisprudência e Legislação da Espanha.

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Em rápida sucessão, o Senado espanhol (18 de janeiro) e o Parlamento Europeu (20 de janeiro) acabam de aprovar duas resoluções condenando os ataques no Egito, Nigéria, Filipinas, Chipre, Irã e Iraque contra as minorias cristãs. Anteriormente, a França já o tinha feito. Explícita ou implicitamente, nessas declarações é rejeitada a instrumentalização da religião no conflito político, enquanto se faz uma vigorosa defesa da liberdade religiosa.

O que os redatores repelem - em minha opinião - é esta visão ingênua do estado de saúde dos direitos humanos, em que muitas vezes se toma a parte pelo todo: acreditar que, uma vez que o Ocidente tem um reconhecimento aceitável de direitos humanos, isso acontece em todos os lugares. Isto é o que está sendo chamado de "Síndrome de Internet": a confortável ilusão de um mundo agradavelmente globalizado, que ignora que mais de metade dos habitantes da Terra desconhece as novas tecnologias.

Na verdade, o integrismo é uma sombra ameaçadora que se estende por grande parte do mundo, causando a erosão dos direitos humanos. Sua existência é tentacular, pois tem diversas versões. Há um integrismo supostamente religioso que, na verdade, é uma forma de fanatismo irreligioso. O fanático é irreligioso na medida em que recorre à violência, que uma visão razoável da religião rejeita e odeia. Por esta razão, as recentes condenações do Ocidente contra os ataques integristas aos cristãos do Oriente não podem ser interpretadas como formas de islamofobia, precisamente porque o que é rejeitado é a escura vertente política dos fanáticos, que costumam amparar-se em cortinas de fumaça supostamente religiosas.

Entende-se, assim, que 70 personalidades muçulmanas tenham publicado um manifesto com o expressivo título "Islã, ridicularizado pelos terroristas". Refere-se explicitamente às "atrocidades cometidas em nome do Islã" contra os cristãos no Egito e no Iraque. Afirma que "estes assassinos não são do Islã e não representam em absoluto os muçulmanos". Especificamente, rejeita o que eles veem como a invasão da própria identidade religiosa por parte de "falsários" que empunham a religião como uma arma destrutiva. O melhor teste para avaliar o grau de respeito aos direitos humanos é a liberdade religiosa. Daí que o alarme do Ocidente seja justo.

Mas, junto ao fundamentalismo supostamente religioso, existem outros mais subterrâneos, que costumam se expandir em áreas do Ocidente alegadamente respeitosas dos direitos humanos. Não me refiro tanto ao fundamentalismo de base freudiana, que dissolve a religião em ilusórias manifestações psíquicas, mas ao que Jorge Semprún chama de "fundamentalismo da purificação social". Aquele que, mesmo no dia-a-dia tende a eliminar a disparidade, nas complexas relações entre consciência civil /consciência religiosa, decreta ditatorialmente que a segunda é apenas um resíduo em um horizonte agnóstico.

Uns e outros fanáticos - os do Oriente e os do Ocidente - são os mesmos que colocaram em circulação uma espécie de polícia mental, cujos agentes se dedicam a uma caça às bruxas, na qual a primeira vítima é sempre a liberdade. Como disse Holmes há muito tempo: "A mente do intolerante é como a pupila dos olhos: quanto mais luz recebe, mais se contrai".