Os mártires espanhóis não têm relação com nenhum dos lados da guerra civil do país

Eles foram assassinados única e exclusivamente por causa da fé, afirma a diretora do escritório para a Causa dos Santos da Conferência Episcopal Espanhola

Roma, (Zenit.org) | 674 visitas

São 522 os mártires que serão beatificados no dia 13 de outubro em Tarragona, Espanha. O processo de beatificação foi encerrado na última sexta-feira pelo papa Francisco. Até hoje, 1001 mártires da Espanha no século XX foram beatificados, onze dos quais já chegaram à canonização.

No encerramento da 66ª Semana Espanhola de Missionologia, celebrada em Burgos com o tema “Testemunhas da fé até a morte”, Encarnación González, coordenadora do processo, enfatizou que “a guerra civil não provoca mártires, mas vítimas” e ressaltou que “o mártir não empunhou armas; ele foi perseguido e assassinado única e exclusivamente por causa da sua fé”. Nem todos os mártires foram beatificados, devido ao estrito processo seguido pela Igreja. “O processo de discernimento foi bastante aperfeiçoado, porque a Igreja quer que seja dado culto só a quem merece de verdade”.

O escritório para a Causa dos Santos tem registros de 10.070 mártires da perseguição religiosa acontecida na Espanha no século XX, sem contar os inumeráveis leigos, dos quais não há um número definido. Muitos deles talvez não cheguem aos altares, sem que por isto sejam menos importantes. “As beatificações não são para eles, os mártires, e sim para nós. Para eles não acrescenta nada. Elas interpelam a nós”, afirma Encarnación.

Dos 522 mártires que serão beatificados em Tarragona, 100 eram sacerdotes, incluindo 3 bispos; 412 foram religiosos de 23 congregações; 7 eram leigos e 3 eram seminaristas. De todos eles, 68 nasceram na diocese de Burgos. Há 7 mártires que nasceram fora da Espanha, mas faleceram em seu território: eram originários da Colômbia, de Cuba, das Filipinas, da França e de Portugal.

“O século XX, paradoxalmente, foi o século da democracia e do terror”, prossegue Encarnación González, fazendo alusões às palavras de João Paulo II na carta Tertio Millennio Adveniente. “O século XXI também está sendo um século de mártires. O mártir é um apaixonado por Cristo que não se deixa intimidar, que olha para o crucificado e encontra a força para perdoar os seus perseguidores”, conclui.

Anastasio Gil García, diretor das Obras Missionárias Pontifícias (OMP), se erigiu como voz dos mais de 13.000 missionários espanhóis que estão no mundo, vivendo o martírio do cotidiano. Na conferência que abriu a sessão da manhã, ele explicou que os missionários são pessoas normais que foram chamadas por Deus à missão e que a Igreja enviou para anunciar o evangelho.

Gil destacou o compromisso da Igreja missionária com a educação, a saúde e a justiça. “A figura do missionário tem uma atração que nos desperta da letargia em que vivemos”, explica o diretor da OMP, concatenando frases de diversos missionários que falavam sobre a dificuldade da missão, a solidão e a alegria de transmitir Deus aos mais necessitados. “O grande tesouro dos missionários é um trabalho silencioso e escondido, sem desejar nada além de ser enterrados na terra de missão”.

Dom Braulio Rodríguez, arcebispo de Toledo e presidente da Comissão Episcopal de Missões da Conferência Episcopal Espanhola, denunciou em entrevista coletiva que a perseguição religiosa desencadeada contra os cristãos no mundo todo é silenciada sistematicamente pelos meios de comunicação. Ele mostrou admiração pelos missionários que “são testemunhas da fé não durante um fim de semana, mas até a morte”. Em suas palavras de encerramento da semana, ele convidou todas as comunidades a contemplar a comunidade de Jerusalém, da qual partiram todos os missionários, germe da nossa fé atual.