Os movimentos eclesiais: um dom do Espírito Santo

Ateneu Regina Apostolorum sedia congresso internacional preparatório para o encontro de Pentecostes

Roma, (Zenit.org) Luca Marcolivio | 853 visitas

O primeiro encontro de Pentecostes do papa Francisco com os movimentos eclesiais motivou a realização do congresso preparatório aberto ontem no Ateneu Pontifício Regina Apostolorum (APRA), de Roma.

“A primavera da Igreja e a ação do Espírito” é o tema dos dois dias reservados a um encontro de testemunho entre representantes, na maioria leigos, de realidades eclesiais como o Regnum Christi, os Focolares, a Renovação Carismática, o Caminho Neocatecumenal e a Comunidade de Santo Egídio.

Na primeira parte do evento, aberto pelo reitor do APRA, pe. Pedro Barrajón, LC, participaram dom Joseph Clemens, secretário do Pontifício Conselho para os Leigos, o pe. Gianfranco Ghirlanda, reitor emérito da Universidade Pontifícia Lateranense, e dom Ricardo Blázquez, arcebispo de Valladolid, na Espanha.

Dom Clemens apresentou especialmente o pensamento do papa emérito Bento XVI, de quem foi secretário quando ele ainda era conhecido “apenas” como cardeal Joseph Ratzinger, antes do pontificado. Já em 1998, no primeiro encontro de Pentecostes dos Movimentos, Ratzinger tinha saudado essa realidade como uma “esperança para a Igreja universal”.

Os movimentos, afirmava o futuro papa, surgem espontaneamente sem que haja um verdadeiro projeto humano: por isso eles são genuínos “dons do Espírito Santo”, além de “expressões da juventude da Igreja” e “protagonistas da missão, do compromisso social e das vocações sacerdotais e religiosas”.

No livro-entrevista “Informe sobre a Fé”, realizado em parceria com Vittorio Messori em 1985, o cardeal Ratzinger acolhia a realidade dos movimentos como uma das heranças mais luminosas de um concílio Vaticano II não isento de sombras.

Em 1999, Ratzinger falou da “perda de entusiasmo” e da “burocratização” como duas ameaças mortais para a Igreja de hoje, capazes de elevar barreiras dentro da Igreja em contraste com a expressão positiva da “variedade” e da “catolicidade”, manifestadas pelos movimentos.

Neste sentido, os movimentos favorecem a unidade da Igreja, sem por isso se achatarem todos no uniformismo. Eles são ainda geradores de “plena e integral catolicidade”, que se manifesta na “fé jovial e entusiasmada”, numa “alegria que contagia”.

Vivendo a realidade de um movimento, prosseguiu dom Clemens, o cristão aprende a vencer os próprios egoísmos e a cultivar uma fé autêntica, que o sustenta em todos os aspectos da vida, incluída a ação social.

A seguir, pronunciou-se o pe. Gianfranco Ghirlanda, SJ, que focou na natureza estrutural e jurídica dos movimentos, dentro dos quais podem conviver pessoas com vocações diversas: ao sacerdócio, à vida consagrada, à vida leiga e matrimonial.

Nos movimentos, o elemento comum a cada membro é o carisma e, em certo sentido, a “consagração” àquele carisma, ainda que os membros leigos não precisem adotar uma mudança de estado de vida.

O pe. Ghirlanda alertou sobre duas degenerações que devem ser evitadas: a pretensão de que um movimento se apresente de modo exclusivo como depositário autêntico da verdade da Igreja e o risco de que, quando se estabelece numa paróquia, ele vá se desenvolvendo “à margem da paróquia e não a serviço dela”.

Dom Ricardo Blázquez contou a experiência da sua própria diocese, em contato com o Caminho Neocatecumenal. “Temos que recuperar a alegria de crer para testemunhar o Senhor com a fé e com as obras”, disse o prelado, sublinhando que, numa sociedade fortemente secularizada, é importante começar de novo a partir da “iniciação cristã”.

Embora não existam carismas perfeitos, acrescentou ele, os movimentos como o Caminho Neocatecumenal apresentam “sinais de autenticidade” e são a justa resposta ao chamamento da Nova Evangelização.

“Entre pessoa e comunidade”, explicou Blázquez, “instaura-se uma relação vital para transmitir a fé”. Outro passo importante é o de aprender a perceber a Igreja não mais como uma “realidade exterior”, e sim “interior”.

A fé é tanto pessoal quanto eclesial e, se um cristão permanece sozinho, “ele está destinado ao naufrágio”. Outros elementos imprescindíveis são “o reconhecimento e o perdão dos pecados”, a “obediência” aos superiores, a “esperança na vida eterna”.

A mensagem cristã, concluiu, não deve ser transmitida “com orgulho”, mas com “franqueza, confiança e humildade”.