Os países ricos compreenderão que o abuso não pode continuar (II)

Fala o presidente do Simpósio de Conferências Episcopais da África

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ROMA, domingo, 28 de novembro de 2004 (ZENIT.org).- «Os países ricos cedo ou tarde verão que não se pode continuar assim. Mas antes que isto aconteça, muita, demasiada gente morrerá e suportará sofrimentos que se poderiam evitar», afirma dom John Onaiyekan, presidente do Simpósio das Conferências Episcopais da África e Madagascar (SECAM), ao analisar a situação mundial.



Nesta segunda parta da entrevista concedida a Zenit, o arcebispo de Abuja (Nigéria), que é também membro do Sínodo dos Bispos, fala dos problemas do continente africano no atual contexto de globalização. Assim mesmo enfrenta os desafios da Igreja africana em sua obra de evangelização e de diálogo com as diversas instâncias políticas e sociais.

--Como julga a política dos Estados Unidos com respeito à África?

--Onaiyekan: Após os acontecimentos de 11 de setembro, os americanos creram que a África podia ser importante. Por exemplo, pense no caso de Nigéria. Há toda uma política interessada para este país que se estende até o Golfo de Guiné, porque aí está a alternativa ao petróleo do Oriente Médio que, pouco a pouco, faz-se cada vez mais problemático.

Os Estados Unidos vêem que têm de preparar um substituto. E, portanto, começam a usar palavras de ajuda à África é só desde esta perspectiva interessada.

Ainda que a falta de apoio aos programas das Nações Unidas sobre o aborto etc. forme parte da linha de Bush, sempre foi por sua conta, e não apoiou as Nações Unidas em seus bons programas. Como também foi contra as Nações Unidas pelo que diz respeito à guerra no Iraque.

Tomemos como exemplo o plano das Nações Unidas para um Tribunal Internacional de Justiça. Bush diz que não. Nenhum americano comparecerá ante um tribunal. Mas os outros países o aceitaram. Ou pense no Protocolo de Kioto...

Não vejo, portanto, sua falta de apoio às políticas pró-aborto nos países em vias de desenvolvimento como uma grande coisa. Não é nada. Como disse outras vezes, acerca da postura de Bush sobre o aborto: é certamente uma coisa boa estar contra esta prática, mas para ser bom cristão ou boa pessoa, um bom líder não basta estar contra o aborto. Se se preocupa muito com as crianças não-nascidas, tem de ter um pouco de sensibilidade ante os homens e mulheres que morrem no Iraque.

Se analisarmos os números das vítimas entre os rebeldes (ou civis) iraquianos, segundo minha opinião não se trata de uma batalha, mas de um massacre. E se as coisas são vistas claramente, muita daquela gente que recebeu a morte podia ser salva.

Porque, uma vez que se decidiu que estes são terroristas, e Bush deu a ordem de exterminá-los, já ninguém se pergunta se estão inermes ou não. Entre estes mortos seguramente haverá pobres pais de família, pobres mães de família. Mas quem irá agora controlar?

O mínimo que se pode dizer é que a idéia principal que impulsiona estas ações não surge dos valores evangélicos. Isto é claro. Eu creio que a vida humana é sempre sagrada, inclusive a vida de um terrorista. E que, como condenamos em 11 de setembro, temos também de condenar tudo o que sucedeu no Afeganistão e no Iraque.

Sobre este novo Milênio soma-se o perigo de ter algum país forte, que mandará nos outros que o deverão obedecer. Mas creio que tem de saber que isto não pode durar «per omnia secula seculorum». Enquanto o mundo pensar que somos todos iguais, mas uns mais iguais que outros, não haverá paz jamais.

Para mim, a perspectiva dos próximos cinqüenta anos é muito preocupante neste sentido.

--Qual é a situação de seu país, a Nigéria, na fase de transição para uma democracia estável?

--Onaiyekan: Quando nossos países não conseguem organizar-se bem, não podemos nem sequer começar a libertar-nos. Em minha opinião, nossa tarefa é a de libertar nossos países de quem nos tem submetido, só então poderemos começar a falar em modo coerente e fazer-nos sentir. O problema é que temos líderes corruptos, estúpidos, que reinam facilmente, e promovendo inclusive a exploração desde fora.

--Como atua neste contexto a Igreja?

--Onaiyekan: Depende de que Igreja se trata. Se pensar na Igreja oficial, nos bispos e nas conferências episcopais, então depende de qual é o grau de influência que têm suas declarações e também depende de todos católicos que há naquela zona. Porque, afinal de contas, o arcebispo de Abuja não é como o arcebispo de Manila.

O arcebispo de Manila tem todo um exército de católicos a seu lado, e se consegue passar a palavra aos católicos e estes respondem, o governo tem de estar atento. A mesma coisa sucede quando a Igreja na Polônia decide elevar a voz, e todos sabemos o que sucedeu.

Na Nigéria, ao contrário, a situação é diferente. Nossa força não é a de falar sempre como católicos, mas que temos de apresentar o bem do país. E então, ao discutir sobre o bem comum, tratamos de fazer de modo que o povo escute o valor intrínseco desta doutrina social, e não pelo fato de que provenha do Papa.

O bonito é que, na base de nossas experiências, quando pomos à disposição do povo as idéias fortes nas quais se funda a doutrina social da Igreja --como o bem comum, a justiça, a honestidade, o direito do homem e do cidadão, e o dever de governar retamente--, vamos notar um grande consenso.

E então tratamos de estender a mão a outro povo, não importa se são muçulmanos, com tal de que aceitem que um certo princípio é justo. Creio que a Conferência nigeriana fez capaz de construir uma reputação ao analisar corretamente, e ao julgar com lógica férrea, as situações, assim como no falar com coragem.

O que falta é saber quantas pessoas se farão portadoras destes valores. A quantos católicos do governo podemos confiar esta mensagem? Lamentavelmente, não podemos fazê-lo ainda. A razão para isto é que muitos de nossos católicos em política não foram formados na doutrina social da Igreja. São pessoas que freqüentaram as universidades estatais, nas quais não se ensina a política à luz dos valores morais, e inclusive a escola política à qual foram ensina a política suja que encontramos a nosso redor.

Tanto é assim que muitos católicos afirmam que para permanecer tais não podem seguir na política. E então para ter êxito há que deixá-la de lado, chegar a uma solução de compromisso, ou colocá-la entre parênteses.