Os segredos da família Ratzinger

Livro-entrevista com o irmão do papa

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Por Jesús Colina

RATISBONA, terça, 16 de agosto de 2011 (ZENIT.org) – Ainda falta muito a ser descoberto sobre a história e a alma de Joseph Ratzinger. E só uma pessoa conhece os segredos dele: seu irmão Georg.

Muito será revelado em breve no livro “Mein Bruder, der Papst” (“Meu irmão, o papa”), uma entrevista com o padre Georg Ratzinger concedida a Michael Hesemann.

O mais velho dos Ratzinger conversou em Ratisbona com o prestigioso historiador, a quem ZENIT por sua vez entrevistou.

- Você acha que o livro ajuda a entender melhor a vocação de Joseph Ratzinger?

- Hesemann: Esta é a intenção do livro, que foi escrito por causa do sexagésimo aniversário de ordenação sacerdotal de Sua Santidade e do irmão dele, o padre Georg Ratzinger. O livro mostra a incrível e totalmente inesperada “carreira” dele, que segue uma espécie de plano escondido, que só pode ser obra da Divina Providência. Quando eu visitei a Escola de Evangelização da Comunidade do Emanuel, em Altoetting, um santuário mariano de importância central na infância de Joseph Ratzinger, escutei o seguinte lema: “Dá tudo e receberás mais”. E é exatamente esse o princípio que ele seguiu. Ele sempre deu tudo, serviu ao Senhor com todas as capacidades dele, e recebeu muito mais do que nunca teria imaginado ou desejado.

- Seu livro tem elementos novos da vida de Joseph Ratzinger e de Georg Ratzinger?

- Hesemann: Claro. Detalhes pessoais da vida familiar. E podemos descobrir o valor de outro slogan: “Família que reza unida, permanece unida”. A família Ratzinger foi uma espécie de baluarte contra as ondas de todos os períodos tempestuosos, incluindo o nazismo e os horrores da guerra. E eles acharam força num profundo senso religioso e na intensa vida religiosa. Hoje, quando muitas famílias são dilaceradas por problemas e divórcios, os Ratzinger poderiam representar um modelo positivo de família. O segredo deles é ser uma família que segue a vontade de Deus, uma família que é célula fundamental da Igreja. Com mais famílias assim, não teríamos esta falta de vocações!

- O que o surpreendeu nas conversas com o irmão do papa?

- Hesemann: Muitas cosas, mas a maior surpresa foi descobrir o caminho que levou Ratzinger à sé de Pedro. O dia mais importante da vida dele foi a ordenação sacerdotal, em 29 de junho de 1951, quando ele entendeu tudo o que podia dar às pessoas, permitindo que o Espírito Santo trabalhasse através dele. Ele adorava ser vigário numa paróquia de Munique! Mas depois, com aquela mente extraordinariamente brilhante, ele foi incentivado a ser professor de teologia. E gostou. Não queria ser bispo, tiveram que convencê-lo. Depois, o papa Paulo VI o nomeou arcebispo de Munique. Quando João Paulo II o chamou a Roma, ele deu toda uma série de motivos para ficar na Baviera, mas alguém o convenceu de novo. E desta vez foi o próprio papa quem teve que convencê-lo: “Munique é importante, mas Roma é mais importante”.

Ele sonhava em se aposentar e passar mais tempo com o irmão, escrever livros, mas foi eleito papa. Isso me lembrou as palavras que nosso Senhor disse a São Pedro: “Outro te cingirá e te levará para onde tu não queres” (João 21,18). Foi uma profecia que se cumpriu com o martírio do príncipe dos apóstolos. Mas ela descreve muito bem o que aconteceu com Joseph Ratzinger. Se você analisar a vida dele, vai ver que “alguém” o preparou para o ministério de Pedro desde o começo. Tudo é obra de Deus!

Outra surpresa foi ver a oposição incondicional da família Ratzinger aos nazistas, desde o início. O pai deles, que também se chamava Joseph Ratzinger, era um leitor assíduo da publicação católica mais anti-nazista, “Der gerade Weg” (O caminho direito), cujo redator, Fritz Michael Gerlich, foi um dos primeiros mártires católicos da Alemanha nazista. Ratzinger pai era chefe de polícia numa cidade pequena, Tittmoning, e sofreu sérias dificuldades já antes da chegada do nazismo ao poder, porque ele tinha ordenado a suspensão de vários encontros de nazistas e tinha entrado em confronto com os nazistas várias vezes. No fim, ele foi obrigado a dar um passo para trás na carreira e continuar o serviço num vilarejo, Aschau.

A entrada de Georg e Joseph no seminário, a decisão de virarem padres, naquela época era uma clara rejeição do nazismo, que se opunha fortemente à Igreja. Eles foram ridicularizados e discriminados por causa dessa decisão, mas seguiram a consciência. O pai dos Ratzinger, que na época vivia de uma pobre pensão, recusou as vantagens econômicas de aderir ao partido nazista. O adolescente Joseph Ratzinger conseguiu não participar da Juventude hitleriana, apesar de ser obrigatório. Ele simplesmente não participou. E quando foi obrigado a ser soldado, desertou e se livrou por milagre da cadeia e da forca prevista para os desertores.

- Que lugar ocupa a música na vida de George? E o que dizer de Joseph?

- Hesemann: A música sempre desempenhou um papel importante na vida da família Ratzinger. Seu pai não só cantava no coro de meninos em sua paróquia, mas também tocava o “zither”, uma cítara popular da música folclórica da Baviera. A mãe, que tinha sido governanta na casa de um maestro, estava em contato com a música clássica desde jovem. Assim, quando Georg descobriu seu enorme talento musical, contou com o incentivo de seus pais. Era fascinado por harmônica, então seu pai comprou uma, e ele tocou tão bem que quando tinha apenas 10 anos o pastor pediu para tocá-la durante a Missa para meninos.

Joseph compartilhava seu amor pela música e teve aulas piano. Ainda hoje, como Papa, ele toca piano, quando tem algum tempo. Encanta-lhe a música clássica, especialmente Mozart. Os jovens Ratinzger uma vez conseguiram ir ao Festival de Salzburg e ouvir um grande concerto. Hoje, quando Georg Ratzinger vai ver seu irmão, o Santo Padre pede-lhe que toque piano, o que realmente lhe encanta.

- Como é Georg Ratzinger?

- Hesemann: Cada encontro com ele foi realmente muito bonito. Ele tem um coração de ouro. Em muito poucas ocasiões vi um homem tão humilde, amável e afável como ele. Ao mesmo tempo, fiquei impressionado com sua memória, algo que ele compartilha com seu irmão. É um grande homem e, certamente, não apenas "o irmão do Papa", porque ele tem feito uma carreira notável por sua conta, como diretor do coro juvenil da Catedral de Regensburg (Regensburger Domspatzen em alemão), conhecido em todo o mundo. Eles oferecem concertos no Japão e nos Estados Unidos e em muitas outras partes do mundo. É também um compositor talentoso. Mas acima de tudo, um verdadeiro cavalheiro e um sacerdote de coração grande, profunda fé em Deus e agudo e sadio senso de humor.