Oscar Niemeyer e o Ano da Fé

Reflexão no sétimo dia do seu falecimento

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Por Leandro Arndt*

BRASILIA, quinta-feira, 13 de dezembro de 2012 (ZENIT.org) - Para muitos, as palavras do título parecem inconciliáveis. É verdade que o arquiteto brasileiro, durante a maior parte de sua vida, se disse ateu, e não consta que tenha se convertido no momento derradeiro - se o fez, porém, não terá sido o primeiro. Neste sétimo dia (12 de Dezembro) de seu falecimento, entretanto, passadas as primeiras emoções suscitadas pela morte, convém um olhar calmo para sua vida e, em especial, para sua obra, na qual podemos refletir sobre a beleza.

Catecismo da Igreja Católica (CEC), que somos chamados a estudar neste Ano da Fé, nos fala sobre ela especialmente nos números 2500 e 2501. Citando o livro da Sabedoria, explica como, por analogia, podemos conhecer o Criador a partir da grandeza e beleza das criaturas, pois a própria fonte da beleza as criou (Sb 13,3.5). Ainda que desconhecer a Deus seja insensatez, pois as obras estão aí para nos revelar o artista (Sb 13,1), nem mesmo o insensato é capaz da ignorar a beleza do universo. E foi na natureza que Niemeyer encontrou a inspiração para sua arte.

"Criado à imagem de Deus", o homem exprime também a verdade de sua relação com o Deus Criador pela beleza de suas obras artísticas. Aarte de fato é uma forma de expressão propriamente humana; acima da procura das necessidades vitais, comum a todas as criaturas vivas, ela é uma superabundância gratuita da riqueza interior do ser humano. Nascendo de um talento dado pelo Criador e do esforço do próprio homem, a arte é uma forma de sabedoria prática, que une conhecimento e perícia para dar forma à verdade de uma realidade na linguagem acessível à vista e ao ouvido. A arte inclui certa semelhança com a atividade de Deus na criação, na medida em que se inspira na verdade e no amor das criaturas. [CEC, 2501]

Com suas formas tantas vezes fluidas e curvilíneas, a arte de Oscar Niemeyer, imitava aquilo que ele encontrava "nas montanhas do meu país, no curso sinuoso dos seus rios, nas ondas do mar, no corpo da mulher preferida". Bela e grandiosa por imitação, mas também pela criatividade com que Deus lhe presenteou, a obra de Oscar é um convite a refletirmos sobre a relação do homem com seu Criador, por paradoxal que possa ser contemplar Deus a partir da ação de um ateu. A arte não existe como resultado da mera materialidade, e nem mesmo os animais podem ser artistas, pois agem pelo instinto. Somente ao homem, a quem Deus incumbiu de cuidar de seu jardim, é que cabe, à imitação de Deus, moldar e transformar a natureza.

Para apreciar a obra de Oscar Niemeyer, o leitor poderá percorrer as ruas de diversas cidades do mundo, ou, pela internet, acessar o obituário publicado pelo jornal The Guardian ou então a página dedicada ao arquiteto na Wikipedia, por exemplo.

*Leandro Arndt é historiador e estudante do Curso Superior de Teologia da Arquidiocese de Brasília. Mantém o blog Caritas in Veritate