Palavra dada

Reflexões de Dom Alberto Taveira Corrêa sobre o Advento

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BELÉM DO PARÁ, sexta-feira, 30 de novembro de 2012 (ZENIT.org) - Há relatos de pessoas mais velhas, carregadas de sabedoria e de experiência de vida, que dão conta de um tempo no qual um “fio de bigode” significava compromisso, palavra dada que não podia ser quebrada. E as crianças sempre se impressionaram com um adulto que diz que “palavra de homem não volta atrás”. Muitos de nós sonhamos ser adultos, porque chegaria o tempo em que nossa palavra seria valorizada e não nos mandariam ficar longe, quando se tratava de conversa de gente grande. Palavra dada, sinal de compromisso e exigência de coerência!

Sabemos que a palavra entrou em crise e a verdade foi relativizada. Assistimos a espetáculos de corrupção, as opiniões têm preço e até elimina-se a vida em função de interesses vis. Sonhamos com o cumprimento das promessas dos homens públicos e de novo apostamos, de tempo em tempo, acreditando que um dia as coisas vão mudar. Já é um sinal positivo sempre recomeçar pela expectativa positiva, quando chega o final de um ano e todos se rejubilam com o futuro a ser acolhido e conquistado. Começando de cada um de nós, é bom recobrar o valor dos compromissos assumidos. E vamos ser sinceros, pouco a pouco nos tornamos mais sérios e responsáveis!

Conforta-nos a certeza dada pela fé cristã de que Deus nunca falta com sua Palavra, tanto que o Verbo Eterno do Pai se fez homem, um de nós, testemunha fiel da verdade, ele mesmo “a Verdade”. Foram séculos de preparação, alimentados pelas profecias messiânicas. Um povo teimoso na esperança preparou a estrada para a vinda de Deus. O profeta Jeremias, visto por alguns como pessimista, é, entretanto, portador de palavras consoladoras que sustentaram gerações: “Dias virão, quando cumprirei as promessas que fiz à casa de Israel e à casa de Judá. Naqueles dias, naquele tempo, farei brotar de Davi um rebento dado à justiça, que vai implantar a justiça e o direito no país. Nesse dia Judá estará salvo, Jerusalém vai se deitar confiante e o nome que lhe darão será Senhor-nossa-Justiça” (Jr 33,14-16). E Deus efetivamente cumpriu sua promessa. Em Jesus Cristo, Deus e Homem verdadeiro, a Palavra de Deus se realizou. Todas as pessoas que a Ele acorrem e o acolhem como Salvador e Redentor experimentam em sua vida a transformação profunda, radical e definitiva. Dependendo de Deus, dá para dormir em paz! Não vêm dele os ruídos das bombas ou da violência.

A memória da Igreja, feita presente no ano litúrgico, faz-nos contemplar, com profundidade crescente, o mistério de Cristo. Tanto é verdade que nos introduz continuamente na novidade, levando-nos a entender a perene provocação positiva advinda da experiência da fé. Não somos os mesmos que éramos antes de nossa conversão, houve uma virada de página. Quando acolhemos a palavra da misericórdia, vinda de Deus através de sua Igreja, sabemos que seu perdão é terrivelmente sério e comprometedor, com as consequências decorrentes.

Se a Deus nos dirigimos em oração, sabemos que ele não brinca, mas escuta realmente e cumpre sua palavra. Se porventura nos parece encontrá-lo surdo, é bom olhar o arco de algumas etapas de nossa existência para constatar que nos atendeu sempre, dando-nos mais do que ousamos pedir e proporcionando-nos o melhor para nossa vida e salvação. É que, sendo suas criaturas, o Senhor nos conhece profundamente, mais do que nós mesmos, sabendo das motivações tantas vezes inconscientes de nossos atos e intenções. Deus, Pai eterno e amoroso, nos vê como filhos e nos educa, conduzindo-nos na estrada da felicidade. Consequência é a alegria de viver, sem alimentar pessimismo e amargura.

Esta certeza nos infunde serenidade diante dos acontecimentos (cf. Lc 21,25-28.34-36). Os diversos tempos e o nosso tempo viram acontecer guerras, revoluções, violência, perseguições e desastres naturais. Muitos não conseguiram ficar “de pé” (cf. Lc 21,36), apavorados diante dos problemas. Outros ficaram insensíveis na gula e na embriaguez de todos os tipos, ou se afogaram nas preocupações da vida (cf. Lc 21,35). Para outras pessoas, os desafios se transformaram em pedras que caíram sobre suas cabeças e viram-se em verdadeiras armadilhas. Quem permaneceu atento e orando com serenidade, vive bem cada momento presente e descobre a maravilhosa obra de Deus que se realiza em sua vida e na vida dos outros, pois sabe que está nas mãos de Deus e fidelidade é marca de seu modo de agir.

No tempo do Advento, com o qual se abre o novo ano litúrgico da Igreja, vem da sabedoria do Apóstolo São Paulo o roteiro de vida que queremos acolher, certos de que a ele estão ligadas as promessas de Deus, cuja realização é segura: “O Senhor vos faça crescer abundantemente no amor de uns para com os outros e para com todos, à semelhança de nosso amor para convosco. Que ele confirme os vossos corações numa santidade irrepreensível, diante de Deus, nosso Pai, por ocasião da vinda do nosso Senhor Jesus, com todos os seus santos. Enfim, nós vos pedimos e exortamos, no Senhor Jesus, que progridais sempre mais no modo de proceder para agradar a Deus. Vós o aprendestes de nós, e já o praticais. Oxalá continueis progredindo cada vez mais” (1 Ts 3,12-4,2).

A convivência com Deus e com seu plano de amor acontece sem sobressaltos. Não é necessário esperar fenômenos extraordinários da natureza para acordar as pessoas. Temos os “sinais dos tempos” (cf. Lc 12,56-59)! O exercício diário é olhar ao nosso redor e descobrir a imensa quantidade e qualidade de presenças de Deus e da ação do seu Espírito Santo, convidando-nos a responder positivamente aos seus apelos, amando a Deus e o próximo. Continuaremos na labuta do dia a dia, mas daremos uns aos outros e ao mundo a contribuição de um sentido novo para a existência, brotado da fé cristã que professamos.