Palavra e criação: como Deus se manifesta ao homem

Continuam as meditações do cardeal Ravasi nos exercícios espirituais do Papa

Cidade do Vaticano, (Zenit.org) Salvatore Cernuzio | 2079 visitas

O Deus da graça, o Deus da palavra, o Deus criador. As extraordinárias imagens usadas ​​pelo cardeal Ravasi nas catequeses antes dos exercícios espirituais traçam um caminho imaginativo que, pontuado pela poesia dos Salmos, parte das "cabeceiras sagradas do Jordão" para chegar até "os espaços siderais altíssimos e impressionantes", horizontes epifânicos em que Deus se mostra ao homem.

As reflexões do presidente do Conselho Pontifício para a Cultura, pregadas diante do papa e da cúria romana, são um convite a redescobrir o rosto de Deus a partir das páginas do saltério. Em particular, na segunda meditação dirigida na manhã de segunda-feira, o cardeal usou os Salmos 119 e 23 para descrever o amor vibrante que está presente na Palavra de Deus, chamada de “grande teofania que brilha nas trevas da existência”.

É a Palavra, de fato, o "primeiro rosto com que Deus se mostra", disse o cardeal. "A graça de Deus se confia à Palavra" e é importante notar que "o início absoluto do Antigo e do Novo Testamento são pontuados pela Palavra, pelo Verbo".

"No princípio era o Verbo ..."; "Deus disse...": são expressões que identificam a Palavra reveladora e ao mesmo tempo criadora. Porque a própria criação "é um evento sonoro", disse o cardeal, "é uma Palavra, a realidade paradoxalmente mais humana, extremamente frágil, porque se dissipa logo que é dita, mas, ao mesmo tempo, particularmente eficaz, porque, sem a Palavra, não haveria comunicação".

Ecoam os versículos do Salmo 119: “Lâmpada para os meus pés é a tua palavra”. A palavra é "direção em meio à neblina", é luz que abre uma janela para o horizonte "cinza", "incerto", da cultura moderna, em que, de acordo com o cardeal, "celebra-se a amoralidade" e reina a indiferença absoluta, a ponto de que "não há distinção entre doce e amargo, entre dia e noite".

Mas a palavra também é critério que indica "a verdadeira escala de valores", muitas vezes "calibrada em coisas, em dinheiro, em poder". E é também uma "profissão de amor", que leva a um "nível superior" de comunicação: a oração, diálogo íntimo com o Pai Eterno.

"Fonte de luz, de guia, de doçura, fonte de amor, de iluminação ética", o Logos é tudo isso e, o mais importante, para o cardeal, é "princípio de confiança". Uma confiança que, nos hinos litúrgicos, se exemplifica nos versos do Salmo 23, o chamado "canto do pastor".

Neste salmo, disse o presidente do Conselho Pontifício para a Cultura, Deus se revela como "pastor que conduz o rebanho e que é, ao mesmo tempo, companheiro de viagem", ressaltando "o valor da graça: verdade, por um lado, e amor, pelo outro".

Há, nestes versos, "uma partilha da estrada", disse o cardeal. Um caminho que não é "sem rumo", mas uma estrada com chegada: a farta mesa no templo para o sacrifício de comunhão, símbolo da liturgia que é também epifania de Deus.

Por esta razão, o Salmo 23 "é o salmo da confiança", disse Ravasi, porque mostra que "não estamos sozinhos no caminho da vida" e que "o objetivo a alcançar por meio da oração e da fé é a celebração da liturgia, quando comeremos juntos, sentados à mesma mesa".

Se a primeira epifania do Senhor é a Palavra, a segunda é a criação, "uma palavra diferente de Deus", que "contém uma música teológica silenciosa", como afirmava o comentarista do saltério, Gunkel. Explorando esta questão na terceira meditação, também na segunda-feira de manhã, o cardeal Ravasi falou de espaços astrais como "testemunhas animadas da obra criadora de Deus", e de homens incapazes de contemplar a criação que lhes foi confiada, a ponto de "humilhá-la", "devastá-la" e "usá-la apenas como instrumento".

"A falta de estupor no homem contemporâneo é sinal de superficialidade", denunciou o cardeal. O homem "se inclina somente para a obra das suas próprias mãos, incapaz de olhar para o céu, de ver em profundidade os dois extremos do universo e do microcosmo. O homem já não tem a percepção da terra como irmã".

É, portanto, necessário "redescobrir os poiemata, as harmonias de Deus na criação", criar "uma espiritualidade que, paradoxalmente, tenha a sua própria carnalidade". Caso contrário, como pressagiava Chesterton, "o mundo não perecerá por falta de maravilhas, mas por falta de maravilhar-se".

O presidente do Conselho Pontifício para a Cultura abordou, a seguir, um tema muito caro ao teólogo Bento XVI e a seu antecessor João Paulo II: a relação entre a fé e a ciência. "Dois magistérios não sobrepostos", disse o cardeal, recordando as palavras do cientista americano Gould: "diferentes, mas não totalmente separados".

"A fé se pergunta pelo fundamento; a ciência, pelo cenário". Uma responde ao "por quê"; a outra responde ao "como". Portanto, "elas precisam uma da outra para se completarem na mente do homem que pensa seriamente. (...) Isto nos leva às ‘duas asas’ para viajar pelo mundo do mistério, mas também da realidade" de que Ratzinger é testemunha rigorosa.

Existem, porém, alguns excessos que devem ser evitados, como indica Pascal: "excluir a razão; nada admitir a não ser a razão". Mas, ao mesmo tempo, há uma via que o próprio filósofo explica: "Temos que compreender as coisas humanas para poder amá-las; as coisas de Deus, temos que amá-las para podê-las compreender". O prelado acrescentou: "Primeiro temos que nos lançar no mar de fé, para depois começar a navegar".

Emblema destas duas vias, que rumam "em contraponto, não em oposição", é o sol duplo do Salmo 19. "O sol flameja no céu e nos fala da revelação cósmica. Mas a Palavra de Deus, que é outro sol, nos ilumina em plenitude. Eis a palavra reveladora e a palavra criadora".