Palavras de Bento XVI no Ângelus de 10 de agosto

As férias, dias de verdadeiro relaxamento

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BRESSANONE, segunda-feira, 18 de agosto de 2008 (ZENIT.org).- Publicamos a meditação que Bento XVI dirigiu na praça da catedral de Bressanone, no domingo 10 de agosto, por ocasião da oração mariana do Ângelus.

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Caros irmãos e irmãs

Há um ponto no Evangelho de Marcos, onde ele narra que, depois de dias de tensão, o Senhor disse aos seus discípulos: "Vamos sozinhos para algum lugar deserto, para que descanseis um pouco" (cf. 6, 31). E uma vez que a Palavra de Cristo jamais está unida exclusivamente ao momento em que é pronunciada, apliquei este convite aos discípulos também a mim e vim a este lugar bonito e tranquilo para descansar um pouco. Tenho que agradecer a D. Egger e a todos os seus colaboradores, a toda a cidade de Bressanone e à Região, porque me prepararam este lugar tranquilo, onde nestas duas semanas pude repousar, pensar em Deus e pensar na humanidade, e assim recuperar novas forças. Deus vos recompense por isto!

Deveria agradecer a muitas pessoas singularmente, mas farei algo mais simples: confio todos vós à bênção de Deus. Ele conhece cada um de vós por nome e a sua benção há-de chegar a cada um pessoalmente. Peço-o de todo o coração, e este seja o meu agradecimento a todos vós!

O Evangelho do Domingo hodierno leva-nos desde lugar de descanso à vida quotidiana. Descreve o modo como, depois da multiplicação dos pães, o Senhor vai à montanha para permanecer a sós com o Pai. Entretanto, os discípulos encontram-se no lago e com a sua miserável barquinha fadigam em vão para enfrentar o vento contrário. Talvez já ao evangelista este episódio se parecia com uma imagem da Igreja do seu tempo: como pequena barca, que era a Igreja nessa época, encontrava-se contra o vento da história e como parecia que o Senhor a tinha esquecido. Também nós podemos ver nisto uma imagem da Igreja do nosso tempo, que em muitas partes da terra se encontra a sofrer no seu caminho, não obstante o vento contrário, e parece que o Senhor está muito distante. Mas o Evangelho oferece-nos resposta, consolação e ânimo, enquanto ao mesmo tempo nos indica um caminho. Com efeito, ele diz-nos: sim, é verdade, o Senhor encontra-se junto do Pai, mas precisamente por isso não está distante, mas vê cada um, porque quem se encontra junto de Deus não se afasta, mas está perto do seu próximo. E na realidade o Senhor vê-os e no momento oportuno caminha na sua direcção. E quando Pedro, indo ao seu encontro, corre o risco de afogar, Ele toma-o pela mão e salva-o levando-o ao barco. Também a nós o Senhor estende continuamente a mão: e fá-lo mediante a beleza de um Domingo, fá-lo através da solene liturgia, fá-lo na oração com que nos dirigimos a Ele, fá-lo no encontro com a Palavra de Deus, fá-lo em múltiplas situações da vida diária Ele estende-nos a mão. E somente se nós tomarmos a mão do Senhor, se nos deixarmos orientar por Ele, o nosso caminho será justo e bom.

Por isso queremos pedir-lhe a fim de que consigamos sempre de novo encontrar a sua mão. E, ao mesmo tempo, isto implica uma exortação: que, em seu nome, também nós estendamos a nossa mão aos outros, àqueles que têm necessidade dela, para os conduzir através das águas da nossa história!

Queridos amigos, nestes dias voltei a pensar também na experiência vivida em Sidney, onde encontrei os rostos jubilosos de numerosos rapazes e moças de todas as partes do mundo. E assim amadureceu em mim uma reflexão sobre este acontecimento, que gostaria de compartilhar convosco. Na grande metrópole da jovem nação australiana, aqueles jovens constituíram um sinal de alegria autêntica, por vezes ruidosa mas sempre pacífica e positiva. Embora fossem numerosos, não provocaram desordens nem causaram qualquer prejuízo. Para se sentirem alegres, não tiveram necessidade de recorrer a modos grosseiros e violentos, ao álcool e a substâncias estupefacientes. Neles havia a alegria de se encontrarem e de descobrirem em conjunto um mundo novo. Como deixar de fazer um confronto com os seus coetâneos que, em busca de falsas evasões, vivem experiências degradantes que não raro acabam em tragédias devastadoras? Este é um produto típico da actual chamada "sociedade do bem-estar" que, para preencher um vazio interior e o tédio que o acompanha, induz a tentar experiências novas, mais emocionantes, mais "extremas". Assim, também as férias correm o risco de se dissipar numa vã busca de miragens de prazer. Mas deste modo o espírito não repousa, o coração não se alegra e não encontra paz, aliás, termina por ficar ainda mais cansado e triste do que antes. Referi-me aos jovens, porque são os mais sequiosos de vida e de experiências novas, e por isso também aqueles que mais arriscam. Mas esta reflexão é válida para todos nós: a pessoa humana só se regenera verdadeiramente na relação com Deus, e encontramos Deus quando aprendemos a ouvir a sua voz na paz interior e no silêncio (cf. 1 Rs19, 12).

Oremos para que, numa sociedade em que se corre sempre, as férias sejam dias de verdadeira distensão, durante os quais saibamos descobrir momentos para o recolhimento e a oração, indispensáveis para nos encontrarmos profundamente a nós mesmos e o próximo. Peçamo-lo por intercessão de Maria Santíssima, Virgem do silêncio e da escuta.

Depois do Angelus

São motivo de profunda angústia as notícias, cada vez mais dramáticas, dos trágicos acontecimentos que estão a verificar-se na Geórgia e que, a partir da região da Ossétia do Sul, já causaram muitas vítimas inocentes e obrigaram um grande número de civis a deixarem os próprios lares.

É meu profundo desejo que cessem imediatamente as acções militares e que se abstenham, também em nome da comum herança cristã, de ulteriores confrontos e retorsões violentas, que podem degenerar num conflito de alcance ainda mais vasto; pelo contrário, que se retome resolutamente o caminho da negociação e do diálogo respeitoso e construtivo, evitando assim ulteriores e dilacerantes sofrimentos àquelas amadas populações.

Convido, outrossim, a Comunidade internacional e os países mais influentes na actual situação, a envidarem todos os esforços para sustentar iniciativas destinadas a alcançar uma solução pacífica e duradoura, em favor de uma convivência aberta e respeitosa.

Juntamente com os nossos irmãos ortodoxos, oremos intensamente segundo estas intenções, que entregamos com confiança à intercessão da Santíssima Virgem Maria, Mãe de Jesus e de todos os cristãos.

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