Papa e Medvedev, um encontro de olho no patriarcado

Encontro de Bento XVI e Kiril I ainda terá que esperar

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Por Paul De Maeyer

ROMA, quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011 (ZENIT.org) - Na última quinta-feira, 17 de fevereiro, Bento XVI recebeu em audiência o presidente da Federação Russa, Dmitri Medvedev. "Bem-vindo, presidente. Este nosso encontro é muito importante”, disse o Papa ao saudar o Chefe de Estado. A significativa visita é a primeira de Medvedev depois da instauração das plenas relações diplomáticas entre a Santa Sé e a Rússia.

A tradicional nota difundida pela Sala Stampa vaticana após a visita empregou tons positivos para descrever o segundo encontro entre o Papa Ratzinger e Medvedev (o primeiro aconteceu em 3 de dezembro de 2009). "No decurso dos cordiais colóquios”, diz o breve texto, “ambos se mostraram comprazidos pelas boas relações bilaterais. Enfatizou-se a vontade de reforçá-las, inclusive com mais frequência, uma vez estabelecidas relações diplomáticas plenas”.

“Reconheceu-se”, prossegue a nota, “a amplia colaboração entre a Santa Sé e a Federação Russa, tanto na promoção dos valores específicos humanos e cristãos quanto no âmbito cultural e social. Destacou-se ainda a contribuição positiva que o diálogo inter-religioso pode oferecer à sociedade" (Assessoria de Imprensa do Vaticano, 17 de fevereiro).

O comunicado reflete o extraordinário processo de aproximação entre o maior e o menor país do mundo em extensão geográfica, iniciado em 1º de dezembro de 1989 com a histórica visita a João Paulo II do então (e último) secretário do Partido Comunista da União Soviética, Mikhail Gorbachov, o homem da “perestroika” e do “glasnot”. Este caminho de aproximação culminou no intercâmbio de embaixadores ocorrido no verão passado.

Por outro lado, enquanto mais de vinte anos já transcorreram desde o primeiro encontro de um chefe de Estado russo e um Pontífice romano, o encontro do chefe da Igreja católica e o líder da Igreja ortodoxa russa tem deixado o mundo à espera. Sob o precedente patriarca de Moscou e de Todas as Rússias, Alexis II, as relações entre Roma e Moscou eram gélidas. O grande sonho do Papa João Paulo II de se reunir com Alexis II -num terreno “neutro” se fosse preciso- nunca se tornou realidade por causa do “niet” do patriarca.

Alexis II, natural de Tallin, Estônia, desconfiava do primeiro Pontífice eslavo da história e era crítico ferrenho do “proselitismo católico” nas terras da União Soviética (URSS), para cuja dissolução o Papa Wojtyla contribuiu em certo grau. Numa entrevista publicada em setembro de 2002 por Família Cristã, Alexis II declarou que a resolução da Santa Sé de transformar em diocese as administrações apostólicas era “uma decisão infeliz” e “mais uma manifestação da ampla estratégia expansionista da Igreja de Roma”. “A parte católica sempre fala da presença de uma enorme quantidade de 'não crentes' na Rússia, que constituiriam uma espécie de terreno propício para a missão, uma massa que está em perene espera da chegada dos 'trabalhadores' católicos, semeadores e colhedores. É uma ideia inaceitável para a Igreja ortodoxa”, afirmou o patriarca.

Outra pedra no sapato do patriarca de Moscou foram os acontecimentos na Ucrânia, onde a derrocada soviética permitiu o renascimento da Igreja greco-católica. O que desatou a fúria no mundo da ortodoxia era o plano de elevar a patriarcado a Igreja greco-católica da Ucrânia. Em novembro de 2003, o patriarca ecumênico de Constantinopla, Bartolomeu I, mandou uma carta direta a João Paulo II para exprimir a sua oposição e irritação com esta possibilidade.

A primeira mudança positiva acompanhou a eleição de Bento XVI, sob cujo pontificado não voltou a falar-se do “novo” patriarcado. Em entrevista publicada no fim de abril de 2005 no jornal moscovita Kommersant, Alexis II louvou o Pontífice alemão pelo seu “poderoso intelecto”. “Todo o mundo cristão, incluído o ortodoxo, o respeita”, disse o patriarca. “Sem dúvida, existem divergências teológicas. Mas quanto à visão da sociedade moderna sobre a secularização e sobre o relativismo moral, sobre a perigosa erosão da doutrina cristã e sobre muitos outros problemas contemporâneos, nossos pontos de vista são muito próximos” (ANSA, 27 de abril de 2005).

Após a morte de Alexis II em dezembro de 2008, um segundo ponto de inflexão foi a eleição do metropolita de Smolensko e Kaliningrado, Kiril, como patriarca de Moscou. Na qualidade de presidente do Departamento para as Relações Exteriores do Patriarcado de Moscou, ele encontrou Bento XVI no Vaticano três vezes em três anos. A última foi em dezembro de 2007, por ocasião da festa patronal da paróquia ortodoxa de Santa Catarina de Alexandria, em Roma.

Entrevistado por L'Osservatore Romano depois do encontro, Kiril definiu o estado das relações entre o patriarcado de Moscou e a Igreja católica como “muito positivo”. “Temos na agenda muitos temas importantes. Penso na promoção de valores fundamentais para a vida da pessoa, que preocupam hoje a humanidade inteira e não apenas a Rússia” (8 dezembro de 2007). “Temos necessidade um do outro. Não devemos esquecer que Cristo pediu a unidade dos seus discípulos. Somos uma única família. Partilhamos os mesmos valores”, acrescentou o então número dois do patriarcado de Moscou.

São palavras muito significativas. Assim como o Kremlin reconheceu na Igreja ortodoxa um sócio para resgatar a Rússia pós-soviética de fenômenos como a queda dos nascimentos e o flagelo do alcoolismo, também o patriarcado de Moscou vê na Igreja católica um aliado na batalha contra a crise de valores e pelo anúncio dos conteúdos da mensagem cristã num mundo subjugado por um laicismo agressivo de máscara liberal.

Kiril confirmou a grande sintonia com Bento XVI no relatório que apresentou aos seus bispos em 2 de fevereiro de 2010, primeiro aniversário de sua entronização. Quanto às diversas questões em que ortodoxos e católicos estão em comunhão, “Bento adotou posições muito próximas das ortodoxas”, disse Kiril. “Isto é demonstrado pelos discursos, mensagens e opiniões de altos representantes da Igreja católica romana com os quais mantemos contato”, completou (L'Osservatore Romano, 4 de fevereiro de 2010).

Os tempos parecem, portanto, mais que propícios para um encontro ou reunião entre Bento XVI e Kiril I, ainda que isso não queira dizer que acontecerá logo. “Talvez num período de dois anos”, disse em dias passados a ZENIT o diretor do Inside the Vatican, Robert Moynihan. “Há muitas forças que se opõem a esta aliança que está se desenvolvendo”, observou (17 de fevereiro).

O atual número dois do Departamento para as Relações Exteriores do Patriarcado de Moscou, arcipreste Nikolai Balashov, disse que a Igreja ortodoxa russa e a Igreja católica romana “mantêm um regime de constante comunicação e consulta em diferentes níveis”.

E, segundo a opinião de ambas partes, se chegar o momento de uma reunião entre os chefes de ambas Igrejas, “nós comunicaremos à comunidade internacional”, disse o expoente ortodoxo (Interfax, 17 de febrero). Para Balashov, o contexto das relações entre as Igrejas não está vinculado à reunião de quinta-feira passada.