Papa Francisco declara que o genocídio armênio foi o primeiro do século XX

Ministro turco protesta contra afirmação feita pelo papa a um descendente das vítimas

Roma, (Zenit.org) Sergio Mora | 697 visitas

O papa Francisco recebeu no dia 3 de junho uma delegação encabeçada pelo patriarca armênio-católico da Cilícia dos Armênios, Nerses Bedros XIX Tarmouni. No final do encontro, quando uma das pessoas participantes cumprimentou o papa e afirmou ser descendente de uma vítima do massacre perpetrado pelos turcos, o papa lhe disse o que pensa sobre o caso: “O primeiro genocídio do século XX foi o dos armênios”.

As palavras do pontífice despertaram a ira do ministro de Relações Exteriores da Turquia, Ahmet Davouto Alu, que, três dias depois, em comunicado à embaixada da Santa Sé em Ancara e ao Vaticano, considerou as declarações do pontífice “absolutamente inaceitáveis”. Davouto Alu também acusou a Armênia de “distorcer o sofrimento armênio de várias maneiras para apresentá-lo como genocídio”.

As autoridades turcas sustentam que a guerra civil, a fome e as doenças foram as responsáveis pelas mortes em ambos os lados.

“O que se espera do gabinete do papa, com a responsabilidade da autoridade espiritual que ele tem, é uma contribuição para a paz mundial, em vez de promover a inimizade com acontecimentos históricos”, disse o ministro. E exigiu que a Santa Sé “se abstenha de tomar medidas que possam causar danos às nossas relações bilaterais”.

O papa Francisco já tinha manifestado a sua opinião sobre o genocídio armênio em outras oportunidades, como no livro que recopila as suas conversas com o rabino de Buenos Aires, Abraham Skorka. Em 2006, no 91º aniversário do início do genocídio dos armênios, o então cardeal arcebispo de Buenos Aires o qualificou como “o mais grave crime da Turquia otomana contra o povo armênio e contra toda a humanidade”.

Por sua vez, o embaixador armênio junto à Santa Sé, Mikayel Minasyan, declarou que “o papa Francisco expressou grande solidariedade perante os fatos vividos pelo nosso povo e reiterou a sua proximidade e atenção”. E completou: “A nossa nação foi a primeira que se converteu ao cristianismo”. Neste ano, aliás, pela primeira vez na história, os armênios terão um embaixador residente em Roma, o que reitera as boas relações com o Vaticano.

Sobre o assunto, o primaz da Igreja armênia apostólica de Guygark, Sebouh Chiljyan, se juntou ao debate e afirmou: “O papa se baseia na verdade histórica. A Turquia precisa olhar para esta dor e enfrentar o problema do genocídio”.

A República de Armênia é um país sem saída para o mar, situado no Cáucaso meridional, entre a Europa e a Ásia. Sua cultura histórica e política é considerada europeia. Tem raízes em uma das mais antigas civilizações do mundo e sua data tradicional de adesão ao cristianismo é o ano de 301, tendo sido o primeiro país na história a se declarar oficialmente cristão. Em 1920, foi anexada pela União Soviética e recuperou a independência em várias etapas durante os anos 1990.

O patriarcado da Cilícia dos Armênios foi constituído em 1742, tem sede no Líbano e estende a sua jurisdição a todos os fiéis armênio-católicos, qualquer que seja o país em que vivam.

A Argentina, onde reside uma importante comunidade de origem armênia, reconheceu oficialmente o genocídio de 1,5 milhão de pessoas, cometido entre 1915 e 1923. De Buenos Aires, a diretora do Conselho Nacional Armênio da América do Sul, Carolina Karaguezian, declarou que “o Estado turco pretende convencer a comunidade internacional de que o papa agiu sob a influência da visão unilateral armênia”. E acrescentou que “a Turquia tenta impor a negação e a censura não só aos seus próprios cidadãos, mas a todos aqueles que, em qualquer parte do mundo, entendem que o caminho para a paz entre as nações é a memória, a verdade e a justiça”.