Papa Francisco e a doutrina social católica

O debate sobre a economia, a igualdade e a pobreza deve continuar

Roma, (Zenit.org) John Flynn, LC | 1471 visitas

Em apenas um mês como chefe da Igreja de Roma, o Papa Francisco deixou claro a sua preocupação com os pobres e o seu desejo de uma abordagem mais simples. 

As questões relativas à doutrina social da Igreja, a partir da pobreza, da distribuição de renda e da gestão das instituições financeiras, são certamente questões que estavam na agenda do dia nos últimos anos de turbulência econômica.

Jerry Z. Mullor, professor de História na Universidade Católica da América, publicou uma reflexão sobre o assunto na edição de março/abril da revista Foreign Affairs.

Em seu artigo, Capitalism and Inequality: What the Right an the Left Get Wrong (Capitalismo e Desigualdade: onde erra a direita e a esquerda), Mullor observa que a desigualdade está crescendo em todas as partes no mundo capitalista pós-industrial. O autor afirma que se esse processo continuasse poderia gerar repercussões contínuas contra o capitalismo em geral.

Mullor dá crédito ao capitalismo e a como ele tem "gerado um grandíssimo passo adiante no progresso humano", mas observa que este sistema trouxe consigo a insegurança e, com os últimos desenvolvimentos nos mecados financeiros e internacionais, crescentes riscos não somente para as classes mais desfavorecidas, mas também para a classe média.

As barreiras da igualdade de oportunidades foram quase totalmente reduzidas, reconhece Mulhor, mas nem todos tem as mesmas possibilidades de desfrutá-las. Um fator citado por Mullor é aquele da família. Os filhos criados por pai e mãe numa união estável têm a possibilidade de desenvolver as qualidades que levam ao sucesso na vida.

Depois de analisar vários fatores, Mullor conclui que "a desigualdade nas sociedades capitalistas avançadas parece ser crescente e inevitável."

O que fazer, então? A redistribuição ou os subsídios do governo parecem atraentes à primeira vista, mas ambos têm algumas desvantagens significativas. O autor recomenda incentivar a inovação, mantendo as redes de segurança pública e incentivando o acesso à educação.

Mullor exorta a encontrar o meio termo entre a política do privilégio e a política do ressentimento, que significa não incensar, nem demonizar o capitalismo.

Outros pensamentos interessantes sobre estes temas foram publicados na última edição do Journal of Markets and Morality (vol.15, n° 2), do Instituto Acton.

Em seu ensaio Illustrating the Need for Dialogue between Political Economy and Catholic Social Teaching (Ilustrando a necessidade de diálogo entre Economia Política e Doutrina Social da Igreja), Antonio Pancorbo, da Associação Espanhola para o Estudo da doutrina social católica, invoca um diálogo mais intenso entre a economia e a doutrina social católica.

Comentando sobre a última encíclica de Bento XVI, Caritas in Veritate, Pancorbo observa que a solução para a atual crise econômica não é simples e que ainda se debate se a chave seja um menor ou um maior papel do estado.

Pancorbo expressa várias críticas ao estado assistencial mas reconhece também o quanto seja comumente aceito que a sociedade tenha que prover as necessidades básicas da população. Admite que a Caritas in Veritate descreve a desigualdade como um mal social, mas, em seguida, argumenta também que é mais construtivo reduzir a pobreza, mais do que provar e eliminar todas as desigualdades.

"Parece que o pensamento econômico tenha que colaborar com a Igreja ao estabelecer linhas diretrizes para a ação que sejam moralmente aceitáveis, que não ignorem as leis econômicas e que proponham soluções factíveis às questões políticas e econômicas”, concluiu Pancorbo. Uma declaração, esta última, com a qual muitos poderão estar de acordo mas não fáceis de se colocar em prática.

Outro estudo, editado por Ryan Langrill e Virgil Henry Storr, da George Mason University, é intitulado The Moral Meaning of Markets (O significado moral dos mercados).

Os mercados são muitas vezes defendidos por razões pragmáticas, por sua eficiência econômica, observam os autores. Apelam, no entanto, a uma visão mais ampla, para considerar o papel das virtudes no contexto das transações de mercado.

Os mercados funcionam melhor, dizem Langrill e Storr, quando os atores possuem virtudes que vão além da prudência. Os mercados dependem da virtude e, ao mesmo tempo, promovem-na.

A ganância pode se tornar dominante no mercado, reconhecem os dois estudiosos, mas não é uma consequência inevitável, nem é a única maneira de alcançar a prosperidade.

"Celebrar o egoísmo não ajuda à causa do mercado", escrevem os dois estudiosos norte-americanos, que, no entanto, afirmam também que é errado olhar para os mercados como algo de “moralmente inferior” se comparados a formas alternativas de coordenação.

Um terceiro estudo focaliza a atenção mais uma vez sobre a questão da desigualdade: Biblical Warnings to ‘the Rich’ and the Challenge of Contemporary (advertências bíblicas aos "ricos" e o desafio da riqueza contemporânea), editado por Clive Beed, ex-membro do Departamento de Economia da Universidade de Boston, e Cara Beed, ex-membro do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Católica australiana.

Nos tempos bíblicos, não havia classe média e os níveis de riqueza mudaram dramaticamente desde então, observam os dois pesquisadores australianos, que, em seguida, admitem: "A existência de um grande fosso entre ricos e pobres é um anátema para os desígnios de Deus ".

As advertências da Bíblia para os ricos não se aplicam à classe média, afirmam os autores. No entanto, os cristãos têm a responsabilidade de ajudar quem é pobre e isso vale ainda mais para quem é rico.

Com os problemas econômicos que continuam a flagelar muitos países e um novo Papa que certamente continuará a chamar a atenção para os mais necessitados, a economia de mercado e a doutrina social da Igreja continuarão a ser temas muito debatidos.

[Tradução do Italiano por Thácio Siqueira]