Papa Francisco salvou a muitos durante a ditadura argentina

ZENIT entrevista a Nello Scavo, jornalista italiano e autor do livro "A lista de Bergoglio"

Roma, (Zenit.org) Thácio Siqueira | 318 visitas

A partir da segunda quinzena de janeiro de 2014, as Edições Loyola lançou no Brasil “A lista de Bergoglio”, novo livro-reportagem do jornalista italiano Nello Scavo.

A obra, que já conta com uma possível adaptação para o cinema e cujo prefácio é assinado pelo Nobel da Paz, Adolfo Pérez Esquivel, foi lançada recentemente na Itália e em Portugal, chegando a mais de 40 países. Só na Itália se encontra na décima edição.

Esta obra de Scavo retrata, sob o olhar de paz, piedade, compaixão e condescendência do Papa Francisco, o terror vivido na Argentina quando a ditadura eclodiu e os militares tomaram o poder. Foram 30 mil desaparecidos, 15 mil fuzilados, 500 recém-nascidos tirados de suas mães condenadas à morte pelo regime militar, e mais de 2 milhões de exilados que presenciaram o trágico golpe de 24 de março de 1976, na Argentina.

A obra, portanto, cobre o “Drama dos desaparecidos”, por meio de relatos de pessoas dissidentes, sindicalistas, sacerdotes, estudantes, intelectuais, crentes em Deus ou não, concedidos em entrevista a Nello Scavo. Destaca a história de pessoas salvas pelo então sacerdote jesuíta Jorge Mario Bergoglio, entre elas, o sindicalista Gonzalo Mosca, escondido no Colégio Máximo como “estudante em retiro espiritual”, posteriormente deportado para o Brasil, e relata testemunhos emocionantes de perseguidos políticos, entre eles, o do jesuíta e teólogo argentino Juan Carlos Scannone, no qual revela a estimativa da lista das pessoas (mais 100) que padre Bergoglio colocou em locais seguros.

A carta inédita escrita por Bergoglio à família do Padre Franz Jalics, um dos dois jesuítas sequestrados e torturados na Escola Superior de Mecânica da Armada (ESMA), também é mencionada no livro, além do encontro de Bergoglio com o almirante Emilio Eduardo Massera, para pedir a libertação imediata dos dois jesuítas detidos.

Scavo também relata a história dos três seminaristas do bispo mártir Enrique Angelelli, procurados pelo regime militar, que também foram escondidos por Bergoglio no Colégio.

Em entrevista a ZENIT, Nello Scavo fala um pouco mais da sua obra que na Europa está “encontrando mais interesse entre os não-crentes do que entre os católicos”.

Acompanhe a entrevista a seguir:

***

ZENIT: O livro "A lista de Bergoglio", lançado em novembro do ano passado na Itália, já superou a décima edição só nesse país, está chegando a mais de 40 países e, por fim, será transformado em filme. A que se deve todo esse interesse internacional?

Nello Scavo: Eu acho que para os leitores de todo o mundo, conhecer um Bergoglio inédito, um jesuíta corajoso a ponto de arriscar a sua própria vida, desperta muita curiosidade. Além disso, por meio dessas histórias, é possível aprender mais sobre o Papa Francisco. Muitas de suas ações de hoje parecem ter um fio que conecta diretamente à época da ditadura, quando ele tomava decisões corajosas a fim de manter a comunidade dos jesuítas unida e salvar a vida de dezenas de pessoas.

ZENIT: Você esteve 3 semanas na Argentina encontrando-se com os autores das diversas histórias que narra no seu livro. Foi difícil fazer "a lista de Nello", nesse sentido, ou seja, foi difícil contatar essas pessoas?

Nello Scavo: Tem sido um trabalho difícil por muitas razões. A maioria das pessoas contatadas não queria falar sobre esses fatos. Uma atitude estranha, mas justificada pela vontade de não querer tirar proveito da fama do papa Francisco para ter realizações pessoais. E depois muitos queriam respeitar a privacidade do Pe. Bergoglio, que nunca quis apresentar-se a si mesmo como um herói. Apesar disso, foi possível, com paciência e um pouco de sorte, encontrar os principais nomes e depois reconstruir "A lista de Bergoglio”.

ZENIT: A lista de Bergóglio está completa no seu livro ou tudo indica de que muitas outras pessoas salvas por Bergoglio ainda andam pelo mundo, ou já faleceram? Alguma outra pessoa já entrou em contato contigo por ter ouvido falar desse livro?

Nello Scavo: Acredito que a lista de pessoas que se beneficiaram com a proteção do futuro papa seja muito incompleta. E após o lançamento do livro fui contatado por outros argentinos, alguns dos quais vivem na Europa ou nos EUA, e que me disseram que foram ajudados, por Bergoglio e pelos jesuítas, a escapar dos assassinos contratados pelos chefes da ditadura. E depois há uma outra consideração a se fazer. Alguns dos "salvos" me fizeram notar que Bergoglio, cada vez que impedia a prisão de alguém, de fato, evitava que estas pessoas pudessem revelar aos torturadores os nomes de dezenas dos seus companheiros de atividade considerados subversivos. Especialmente os estudantes universitários, que trabalhavam em grupos muito grandes. Em suma, sem o trabalho de figuras como Bergoglio, hoje existiriam muito mais desaparecidos.

ZENIT: Esse livro mostra a força da ideologia que dominou a América Latina na época dos acontecimentos narrados. Mas, também pode ser uma forma de denunciar as nascentes ideologias que ainda podem colocar em risco nações e pessoas inocentes?

Nello Scavo: O que acontece no "Cone Sul" foi o resultado de políticas internacionais sem escrúpulos. O "Plano Condor" envolveu não só os líderes políticos e militares da América Latina, mas os principais membros do governo norte-americano. Eu acho que existem aspectos ainda mais misteriosos que merecem ser explorados. Infelizmente, mesmo na Igreja, houve aqueles que tomaram o partido dos torturadores. É um capítulo triste e doloroso. Mas esta história ainda pode ensinar muito para o mundo todo. Eu acredito que na América Latina como em outras áreas do mundo as ideologias foram somente um pretexto para afirmar e preservar um sistema de poder. E isso é demonstrado pelo fato de que na Argentina se chegou ao paradoxo de que uma ditadura nazi-fascista acabou aliando-se à União Soviética. E não tem nada de ideológico nisso, só o desejo de poder controlar e oprimir o povo.

ZENIT: Pe. Jorge Mario Bergoglio demonstrou coragem ao salvar tantas pessoas nessa época escura da Argentina. Será esse o motivo que o leva a ter coragem também para reformar a Igreja hoje, como Papa?

Nello Scavo: Eu não sou um teólogo, nem um historiador, nem um vaticanista. Mas apenas um cronista. Também posso afirmar que o Papa Francisco de hoje não é muito diferente do Pe. Bergoglio de ontem. E as histórias daqueles que o conheceram em anos assim tão atormentados confirma esta sensação e oferece novos pontos de reflexão.

ZENIT: Você é jornalista de um famoso jornal Católico, L'Avvenire. O seu trabalho, apesar de tudo, é uma obra jornalística e não de propaganda papal. O que faz da sua obra uma obra jornalística, que se mantém neutra a nível religioso e demonstra as verdades dos fatos?

Nello Scavo: Como expliquei no livro, eu não recebi nenhuma ajuda da comitiva do Papa.  De fato, justamente as pessoas mais próximas a Bergoglio se recusaram a apoiar a minha investigação e de responder às minhas perguntas. Para todos aqueles que acusam Bergoglio de ser um “ator”, um especialista do “jogo duplo”, e ao mesmo tempo suspeitam de que detrás do meu livro haja uma operação orquestrada pelo Vaticano, respondo com uma pergunta: se Bergoglio é realmente um “ator” e alguém que faz jogo duplo, teria sido tão ingênuo a ponto de encomendar uma investigação jornalística a um repórter católico?

ZENIT: Aqui no Brasil a obra foi lançada no dia 15 de Janeiro pelas Edições Loyola e já pode ser encontrada à venda por quem tiver interesse. A quem você aconselharia a leitura dessa obra? Só ao povo católico?

Nello Scavo: Na Europa, o livro está encontrando mais interesse entre os não-crentes do que entre os católicos. E isso porque da minha história emerge um Bergoglio, antes de mais nada, como homem. Embora se, como explicam algumas das testemunhas, sem a fé não teria sido possível superar os medos e desafiar os líderes da ditadura. E não é por acaso que do livro nascerá um filme com uma produção internacional. A diretora será Liliana Cavani, uma das maiores diretores a nível mundial. O roteiro, ao qual estou colaborando, será de Umberto Contarello, que acabou de ganhar o "Golden Globe” pelo filme “La grande Bellezza” e é candidato ao prêmio Oscar. A produção é guiada por Claudia Mori, que conquistou os direitos do livro, e outros importantes produtores cinematográficos internacionais querem apoiar o projeto cinematográfico

No Brasil, o exemplar pode ser adquirido pelo telefone: (11) 3385-8500 ou pelo e-mail: vendas@loyola.com.br