Papa lamenta reações à remissão da excomunhão dos seguidores de Lefebvre

Agradece aos «amigos hebreus» que ajudaram a restabelecer a amizade e a confiança

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Por Roberta Sciamplicotti

CIDADE DO VATICANO, quinta-feira, 12 de março de 2009 (ZENIT.org).- Frente à turbulência da paz entre os cristãos e os judeus, assim como dentro da própria Igreja, por causa da remissão da excomunhão, em 21 de janeiro passado, dos quatro bispos ordenados ilegitimamente por Dom Lefebvre em 1988, a Santa Sé divulgou hoje uma carta do próprio do Papa aos bispos de todo o mundo, na qual ele explica os fatos e as motivações deste caso, esperando «contribuir para a paz na Igreja». 

O Papa dirige esta «palavra esclarecedora» sobre o caso aos bispos, lamentando que este gesto tenha «suscitado por múltiplas razões dentro e fora da Igreja Católica uma discussão de uma veemência como não se havia visto há muito tempo». 

Muitos bispos, reconhece o pontífice, «sentiram-se perplexos perante um fato que se verificou inesperadamente e era difícil de enquadrar positivamente nas questões e nas tarefas atuais da Igreja. 

Ainda que muitos bispos e fiéis «estivessem, em linha de princípio, dispostos a considerar positivamente a decisão do Papa pela reconciliação, contra isso levantava-se a questão acerca da conveniência de semelhante gesto quando comparado com as verdadeiras urgências duma vida de fé no nosso tempo». 

Outros, ao contrário, «acusavam abertamente ao Papa de querer voltar atrás, até antes do Concílio – lamenta. Desencadeou-se assim uma avalanche de protestos, cuja amargura mostrava feridas que se remontam mais além deste momento». 

O Papa dirige por isso esta carta aos bispos, na qual explica os pormenores de sua decisão, admite os erros de comunicação cometidos e expressa suas profundas motivações, além de explicar o que vai acontecer com a Fraternidade São Pio X. 

O «caso Williamson»

Em primeiro lugar, o Papa confessa que o caso do bispo lefebvrista Richard Williamson, que em uma entrevista concedida à televisão sueca negou o Holocausto, supôs «uma contrariedade para mim imprevisível». 

O que ele qualifica como «gesto discreto de misericórdia» para aqueles bispos «apareceu como algo completamente diverso: como um desmentido da reconciliação entre cristãos e judeus e, consequentemente, como a revogação de quanto, nesta matéria, o Concílio tinha deixado claro para o caminho da Igreja». 

«O convite à reconciliação com um grupo eclesial implicado num processo de separação transformou-se no seu contrário: uma aparente inversão de marcha relativamente a todos os passos de reconciliação entre cristãos e judeus feitos a partir do Concílio – passos esses cuja adoção e promoção tinham sido, desde o início, um objetivo do meu trabalho teológico pessoal.»

O Papa afirma que não pode menos que «deplorar profundamente» esta confusão causada pela sobreposição entre ambas as questões, e que isso «tenha perturbado a paz entre judeus e cristãos e também a paz dentro da Igreja». 

Reconhece também que «acompanhar com atenção as notícias disponíveis através da internet» lhe teria dado a possibilidade de «conhecer tempestivamente o problema», algo que o Papa «tirou como lição» para o futuro. 

Mas o que mais entristeceu o Papa foi a reação de muitos católicos, «que no fundo poderiam saber melhor como tudo se desenrola, se sentirem no dever de atacar-me e com uma virulência de lança em riste». 

«Por isso mesmo sinto-me ainda mais agradecido aos amigos judeus que ajudaram a eliminar prontamente o equívoco e a restabelecer aquela atmosfera de amizade e confiança que, durante todo o período do meu pontificado – tal como no tempo do Papa João Paulo II –, existiu e, graças a Deus, continua a existir», acrescenta. 

As explicações foram «insuficientes» 

O Papa reconhece também que outra das falhas neste caso foi «de não terem sido ilustrados de modo suficientemente claro, no momento da publicação, o alcance e os limites do provimento de 21 de Janeiro de 2009».

Neste sentido, volta a esclarecer o que significa a excomunhão, por que se aplicou aos seguidores de Dom Lefebvre e por que, pelo mesmo motivo, foram suspensas agora. 

Naquele momento, as ordenações levadas a cabo por Dom Marcel Lefebvre sem mandato pontifício, ou seja, de forma válida mas ilegítima, significava «o perigo de um cisma, porque questiona a unidade do colégio episcopal com o Papa». 

«Por isso a Igreja tem de reagir com a punição mais severa, a excomunhão, a fim de chamar as pessoas assim punidas ao arrependimento e ao regresso à unidade», explica.

«A remissão da excomunhão tem em vista a mesma finalidade que pretende a punição: convidar mais uma vez os quatro bispos ao regresso», acrescenta.

Para este gesto foi necessário que os interessados exprimissem o «seu reconhecimento, em linha de princípio, do Papa e da sua potestade de Pastor, embora com reservas em matéria de obediência à sua autoridade doutrinal e à do Concílio». 

O Papa esclarece novamente que esta medida «afeta pessoas e não instituições», e que a Fraternidade São Pio X «não possui posição canônica na Igreja», devido a «razões doutrinais e não disciplinares». 

«Enquanto a Fraternidade não tiver uma posição canônica na Igreja, também os seus ministros não exercem ministérios legítimos na Igreja», reitera. 

O cisma de 1988

Os quatro bispos ordenados no dia 30 de junho de 1988 por Dom Marcel Lefebvre, dos quais foi retirada a excomunhão no dia 21 de janeiro passado, são Bernard Fellay –superior da Fraternidade São Pio X–, Bernard Tissier de Mallerais, Richard Williamson e Alfonso de Galarreta.

A excomunhão latae sententiae deles foi declarada formalmente com um Decreto do prefeito da Congregação para os Bispos. Ao dia seguinte, o Papa João Paulo II constituía a Comissão Pontifícia Ecclesia Dei para favorecer a volta à comunhão com a Igreja às comunidades afetadas por esta decisão. 

Em 15 de dezembro de 2008, Dom Fellay havia enviado uma carta ao cardeal Darío Castrillón Hoyos, presidente da Comissão Ecclesia Dei, pedindo em seu nome e no dos outros três prelados a remissão da excomunhão. 

Decreto de 21 de janeiro de 2009 explicava que o Papa, «paternalmente sensível ao mal-estar espiritual manifestado pelos interessados por causa da sanção de excomunhão, e confiando no compromisso expressado por eles na citada carta de não economizar esforço algum para aprofundar em necessárias conversas com as autoridades da Santa Sé nas questões ainda abertas», decidia «reconsiderar a situação canônica dos bispos». 

«Com este ato se deseja consolidar as relações recíprocas de confiança, intensificar e tornar mais estáveis as relações da Fraternidade São Pio X com a Sé Apostólica», assim como «ser também um sinal para promover a unidade na caridade da Igreja Universal, e por seu meio, chegar a remover o escândalo da divisão», declarava o Decreto.