Papa pede a países muçulmanos que respeitem minorias

Liberdade religiosa é mais que liberdade de culto com restrições

| 1287 visitas

CIDADE DO VATICANO, segunda-feira, 10 de janeiro de 2011 (ZENIT.org) - Bento XVI pediu hoje aos países muçulmanos, especialmente no Oriente Médio, mais respeito pelas minorias cristãs, bem como uma maior liberdade religiosa em países de regime comunista, como a China e Cuba.

A questão da liberdade religiosa foi, mais uma vez, como está sendo em seus últimos discursos, o foco de sua intervenção durante a tradicional audiência de início de ano com os membros do Corpo Diplomático acreditado junto à Santa Sé, realizada hoje na Sala Régia do Palácio Apostólico.

O Papa quis recordar, no início de seu discurso, os trágicos atentados contra os cristãos, ocorridos durante as recentes festas de Natal, assim como o Sínodo Especial dos Bispos para o Oriente Médio.

Um dos pontos que o Papa sublinhou, ao recordar a situação dos cristãos nos países muçulmanos, foi a distinção entre uma verdadeira liberdade religiosa e a simples liberdade de culto, reconhecida nesses países.

"A liberdade religiosa não é plenamente aplicada quando se garante apenas a liberdade de culto, demais a mais com limitações", destacou o Papa.

Por isso, exortou esses países a promover "a plena tutela da liberdade religiosa e dos outros direitos humanos com programas que, desde a escola primária e no quadro do ensino religioso, eduquem para o respeito de todos os irmãos em humanidade".

Referiu-se, em primeiro lugar, à situação dos cristãos no Iraque, mostrando sua "consternação" pelos "atentados que semearam morte, sofrimento e desconcerto entre os cristãos do Iraque, a ponto de os impelir a deixar a terra onde seus pais viveram ao longo dos séculos".

O Pontífice quis renovar seu apelo urgente às autoridades civis e religiosas iraquianas a "trabalharem para que os seus concidadãos cristãos possam viver em segurança e continuar a prestar a sua contribuição à sociedade de que são membros com pleno título".

Em segundo lugar, quis recordar o recente atentado contra a comunidade copta de Alexandria, sinal, segundo ele, da "urgente necessidade que há de os governos da região adotarem, não obstante as dificuldades e as ameaças, medidas eficazes para a proteção das minorias religiosas".

"Será preciso dizê-lo uma vez mais? No Médio Oriente, os cristãos são cidadãos originários e autênticos, leais à sua pátria e fiéis a todos os seus deveres nacionais. É natural que possam gozar de todos os direitos de cidadania, de liberdade de consciência e de culto, de liberdade no campo do ensino e da educação e no uso dos meios de comunicação", recordou, citando a mensagem conclusiva do recente sínodo.

Neste sentido, o Papa elogiou "a atenção pelos direitos dos mais débeis e a clarividência política de que deram prova alguns países da Europa nos últimos dias, pedindo uma resposta concertada da União Europeia a fim de que os cristãos sejam defendidos no Médio Oriente".

"Pelo que diz respeito aos Estados da Península Arábica, onde vivem numerosos trabalhadores emigrantes cristãos, espero que a Igreja Católica possa dispor de adequadas estruturas pastorais", pediu o Papa.

Paquistão e Ásia Oriental

Continuando com seu percurso pela Ásia, Bento XVI incidiu mais uma vez sobre a situação do Paquistão, especialmente a criada pelo abuso da lei antiblasfêmia, no tristemente conhecido caso de Asia Bibi, mulher cristã condenada à forca por suposta blasfêmia.

O Papa pediu ao país que leve a cabo "os esforços necessários para ab-rogar" esta lei, "tanto mais que é evidente que a mesma serve de pretexto para provocar injustiças e violências contra as minorias religiosas".

"O trágico assassinato do Governador do Punjabe mostra como é urgente caminhar neste sentido: a veneração a Deus promove a fraternidade e o amor, não o ódio nem a divisão", afirmou.

Também se referiu às "situações preocupantes, por vezes com atos de violência, podem ser mencionadas no Sul e Sudeste do continente asiático, em países que aliás têm uma tradição de relações sociais pacíficas".

"O peso particular de uma determinada religião numa nação não deveria jamais implicar que os cidadãos pertencentes a outra confissão fossem discriminados na vida social ou, pior ainda, que se tolerasse a violência contra eles", afirmou o Papa.

Com relação a isso, sublinhou a importância de que o diálogo inter-religioso "favoreça um compromisso comum por reconhecer e promover a liberdade religiosa de cada pessoa e de cada comunidade".

"Enfim, como já recordei, a violência contra os cristãos não poupa a África. Os ataques contra lugares de culto na Nigéria, precisamente enquanto se celebrava o Natal de Cristo, são outro triste testemunho disso mesmo", acrescentou.

Países comunistas

Por outro lado, o Papa quis recordar a situação dos cristãos nos países de regime comunista, especialmente a China e Cuba.

Neles, apesar de que "a Constituição reconhece certa liberdade religiosa", a vida das comunidades religiosas "torna-se difícil e por vezes até precária, porque o ordenamento jurídico ou social se inspira em sistemas filosóficos e políticos que postulam um estrito controle - para não dizer um monopólio - do Estado sobre a sociedade".

"É preciso que cessem tais ambiguidades, de maneira que os crentes não se vejam lacerados entre a fidelidade a Deus e a lealdade à sua pátria", afirmou o Papa.

Pediu especialmente que se garanta "às comunidades católicas a plena autonomia de organização e a liberdade de cumprir a sua missão, de acordo com as normas e padrões internacionais neste campo".

"Neste momento, o meu pensamento volta-se de novo para a comunidade católica da China continental e os seus Pastores, que vivem um período de dificuldade e provação", disse o Papa.

Por outro lado, quis dirigir "uma palavra de encorajamento às autoridades de Cuba", para que "o diálogo, que felizmente se instaurou com a Igreja, se reforce e amplie ainda mais".

Em outro momento, o Papa insistiu em que "a dimensão religiosa é uma característica inegável e irrefreável do ser e do agir do homem, a medida da realização do seu destino e da construção da comunidade a que pertence".

"Por isso, quando o próprio indivíduo ou aqueles que o rodeiam negligenciam ou negam este aspecto fundamental, geram-se desequilíbrios e conflitos a todos os níveis, tanto no plano pessoal como no interpessoal."

O direito à liberdade religiosa "é o primeiro dos direitos, porque historicamente se afirmou em primeiro lugar e ainda porque tem como objeto a dimensão constitutiva do homem, isto é, a sua relação com o Criador".

"Parece-me que a sociedade, os seus responsáveis e a opinião pública hoje se dão conta em medida maior, embora nem sempre de maneira exata, desta grave ferida infligida à dignidade e à liberdade do homo religiosus, para a qual já várias vezes senti necessidade de chamar a atenção de todos", concluiu.