Papa responde com tranquilidade os jornalistas

Conferência de imprensa a bordo do avião

Roma, (Zenit.org) | 593 visitas

O Papa Francisco respondeu, no voo de regresso a Roma, às numerosas perguntas que ao longo de quase uma hora e meia, os 70 jornalistas a bordo, lhe dirigiram. Apresentamos a seguir alguns trechos publicados pela Rádio Vaticana. 

"Foi uma viagem bonita; espiritualmente, fez-me bem": o Papa estava visivelmente satisfeito com a experiência vivida com os jovens da JMJ no Brasil. "Encontrar as pessoas faz bem", continuou ele, "podemos sempre receber tantas coisas bonitas dos outros." E depois, uma referência às medidas de segurança que  levantaram algumas preocupações:


"Não houve nenhum acidente em todo o Rio de Janeiro, nestes dias, e tudo era espontâneo. Com menos segurança, eu pude estar com as pessoas, abraçá-las, saudá-las, sem carros blindados ... E’ a segurança de quem confia no povo. Realmente, há sempre o perigo que haja um louco ... oh, sim, que haja um louco que faça alguma coisa, mas também está o Senhor, hein? Mas, fazer um espaço de blindagem entre o bispo e o povo é uma loucura, e eu prefiro este risco".


O Papa agradeceu depois aos organizadores e operadores da informação pela preciosa colaboração dada para contar os eventos desta 28ª JMJ. “A bondade e o sofrimento do povo brasileiro”, disse-lhes, são os aspectos que particularmente o impressionaram nesta viagem:

"A bondade, o coração do povo brasileiro é grande, é verdade, é grande; mas, é um povo tão amável, um povo que gosta de festa e que, mesmo no sofrimento, encontra sempre uma maneira para procurar o bem de todos os lados. E isto faz bem: é um povo alegre, um povo que sofreu tanto!".

Uma referência indirecta, esta, à comovente visita à favela de Varginha, em contacto com a pobreza extrema e a dor de tantas famílias. E depois a maravilha do Papa Francisco, pela participação de mais de três milhões de jovens de 178 Países na Missa de encerramento do último Domingo, em Copacabana; mas também a oração, sublinhou o Papa Francisco, foi o leitmotiv desta JMJ, como no dia da visita ao Santuário de Nossa Senhora Aparecida:

"Aparecida, para mim, é uma experiência religiosa forte", disse o Papa. Evidentemente, o Papa Bergoglio recorda aquilo que este lugar, assim tão caro aos brasileiros, significou para a Igreja latino-americana, depois de ter sido a sede da V Conferência do episcopado do Continente, em Maio de 2007.
O Papa referiu-se também no colóquio com os jornalistas à próxima canonização dos dois pontífices João XXIII e João Paulo II: vão ser proclamados santos numa única celebração. Quanto à data, pensava-se no dia 8 de Dezembro, mas poderá ser adiada para a próxima primavera porque naquele período, na Polónia, as estradas estão cheias de gelo e os que vêm de autocarros, por não terem a possibilidades de vir a Roma de avião, correm o risco de não estar presentes. Sobre a sua escolha de viver de modo simples, em Santa Marta, o Papa respondeu:

“Eu não posso viver sozinho, ou com um pequeno grupo! Sinto a necessidade de estar com as pessoas, de encontrar gente, de falar
com a gente… Cada um deve viver como o Senhor lhe pede para viver. Mas, a austeridade – uma austeridade geral – creio que seja necessária para todos aqueles que se põem a trabalhar pela Igreja”.

Resolvida, em seguida, com a ironia e a simplicidade próprias do Papa Bergoglio, o grande “mistério” da pasta preta, levada pessoalmente na viagem ao Brasil:
“aí não estava a chave da bomba atómica! Mas trazia-a eu porque fiz sempre assim… E o que é que contém!? Está gilete, está o breviário, está a agenda, está um livro de leitura – trouxe um sobre
Santa Teresinha a quem sou devoto … andei sempre com a pasta, nas viagens: é normal. Mas temos de ser normais.”

O Papa abordou também temas mais delicados, como a reforma do IOR, dizendo: “não sei em que é que será transformado esse Instituto, se numa banca ou um fundo de ajudas, mas transparência e honestidade isto sim, devem ser os critérios em que se inspira esse organismo. O problema do IOR – continuou o Papa é “como reforma-lo, como sanear aquilo que deve ser saneado”.

Em seguida o Papa exprimiu a sua dor pelo escândalo criado por um monsenhor que acabou recentemente por ser encarcerado. Mas “existem santos na cúria– especificou –e, mesmo se existe um ou outro que não seja tanto santo, estes são aqueles que fazem mais barulho: sabeis que faz mais barulho uma árvore que cai do que uma floresta que cresce.


No que toca a temas éticos como o aborto e o casamento gay, o Papa voltou a sublinhar que não falou deles na JMJ de Rio, porque a posição da Igreja sobre isso é já conhecida e clara.

A uma pergunta sobre a questão da lobby gay no Vaticano, o Papa disse:
“Bem, escreve-se muito sobre a lobby gay. Eu ainda não encontrei ninguém que me tenha dado o bilhete de identidade no Vaticano com a escrita “gay”. Dizem que há. Creio que quando nos vemos perante uma pessoa assim, devemos distinguir o facto de ser uma pessoa gay do facto de fazer lobby, porque as lobbies não são boas. Não se trata duma coisa boa. Se uma pessoa é gay e procura o Senhor e tem boa vontade… mas quem sou eu para a julgar?”

Sobre a questão da comunhão aos divorciados que voltaram a casar-se, o Papa Francisco explicou que é um problema “complexo” que será tido em conta também pelo Conselho dos oito cardeais em Outubro próximo, mas recordou o que já dizia o cardeal Quarracino, segundo o qual metade dos matrimónios são nulos devido à imaturidade com que são contraídos.

Respondendo a um jornalista acerca do papel da mulher na Igreja, o Papa considerou que “se deve ir para a frente na explicitação do papel e do carisma da mulher” na Igreja e que não se fez ainda “uma profunda teologia da mulher na Igreja”.

O Pontífice falou depois dos movimentos eclesiais dizendo que “são necessários… são uma graça do Espírito”. Falou também da espiritualidade oriental com estas palavras: “temos necessidade… deste ar fresco do Oriente, desta luz do Oriente”.

Por fim, sobre a presença de Bento XVI no Vaticano disse: “É como ter um avô em casa, mas um avô sábio. Quando numa família o avô vive em casa, é venerado, é amado, é ouvido. Ele é um homem de grande prudência, não se imiscui. Eu já lhe disse várias vezes: “Mas Santidade, faça a sua vida, receba hóspedes, participe nas nossas iniciativas… “. Participou na inauguração e bênção da Estátua de São Miguel… Para mim, é como ter um avô em casa. O meu pai. Se tivesse uma dificuldade ou algo que não compreendesse, havia de telefonar e dizer “mas diga-me, acha que posso fazer isto, aquilo?”. E quando fui ter com ele para falar daquele grande problema do vatileaks, ele disse tudo com grande simplicidade… ao serviço”.