Para alguns... o negócio dos jogos de azar

Governos esperam impacientes os lucros através de impostos

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Por Pe. John Flynn L.C.


ROMA, terça-feira, 29 de setembro de 2009 (ZENIT.org). Nas últimas décadas, o jogo de azar expandiu como um rastro de pólvora nos Estados Unidos, enquanto, ao mesmo tempo, outros vícios seguem recebendo uma dura oposição. O êxito do jogo tem recebido pouca atenção acadêmica, mas um livro vem preencher este vazio.

Alan Wolfe, professor de ciências políticas no Boston College, e Erik C. Owens publicaram recentemente o livro "Gambling: Maping the American Moral Baylor" (Baylor University Press).


Como observa na introdução de seu livro, a quantidade de dinheiro implicada nesta indústria é considerável. Em 2005, estima-se um gasto de 84.650 milhões, e em 2006, praticamente um de cada quatro norte-americanos visitou um cassino -uma mudança radical, de uns anos para cá, quando Nevada era o único lugar onde o jogo era legal, observam os autores. Na verdade, o jogo é atualmente legal, de uma forma ou de outra, em 48 Estados, mais o distrito de Columbia.


"Meio a campanhas para deixar de fumar, reduzir o consumo de álcool e pouca tolerância para má conduta sexual para figuras públicas existe relativamente pouca oposição ao jogo", observam. Wolfe trata este curioso fenômeno em seu capítulo do livro intitulado "A guerra cultural que nunca existiu".


Há um século havia forte oposição ao jogo por parte das Igrejas, e os líderes evangélicos eram muito duros em suas críticas, denunciando como um vício. Wolfe explicava que esta oposição ao jogo era um subproduto da tendência puritana da cultura norte-americana.


Este puritanismo levou à campanha contra o álcool, que teve como consequência a era da proibição. Em contraste, Wolfe observava que a oposição religiosa ao jogo nunca se elevou até uma campanha coordenada em âmbito nacional. Além disso, alguns ativistas políticos associados a grupos cristãos se acrescentaram ao jogo e deram apoio.


Wolfe comenta também que, em geral, os líderes protestantes são pragmáticos na política e tendem a não criticar as práticas que são populares entre seus membros.


Não há causa comum


Também observou que, enquanto os cristãos e algumas feministas eram contra a pornografia, tal aliança não se formou a respeito do jogo. Isso apesar de que algumas feministas criticam o jogo, dado o impacto nas mães e nas famílias, quando os maridos jogam uma grande parte da renda familiar.


Em sua contribuição, John Dombrink, professor do departamento de criminologia, direito e sociedade na Universidade da Califórnia, comentava que muitos Estados decidiram solucionar seus problemas econômicos através da renda do jogo. Este era o argumento que utilizava o governador de Massachusetts, Devak Patrick, em 2007, quando anunciou o plano de permitir mais cassinos.


Isso pode conduzir a um conflito de interesses, acrescenta Dombrink. Podemos esperar que os operadores do jogo queiram maximizar seus lucros. Mas o que fazer quando o governo que regula é o mesmo que se beneficia?


Dombrink também explicava que, se a oposição ao jogo por parte dos conservadores silenciou, os assim chamados "progressistas" tomaram cuidado ao atacar a expansão do jogo legal.


A falta de oposição levou a uma relação estreita entre os operadores do jogo e o governo, observava R. Shep Melnick. Professor de política americana no Boston College, Melnick observava que as empresas dedicadas ao jogo gastaram milhões para ganhar os políticos e que, em alguns casos, ajudaram inclusive a elaborar o projeto de legislação que rege a indústria.


Ele cita um estudo que eleva em mais de 100 milhões de dólares a quantidade que a indústria do jogo gastou em política de corredores e contribuições para campanhas no período 1994-1996.


Os governos estatais, por sua vez, têm um crescente interesse no êxito do jogo. As loterias do Estado gastam cerca de 500 milhões de dólares ao ano em publicidade, segundo Melnick. Assim, como acabaram com a publicidade do cigarro, intensificaram seus esforços para expandir o jogo. A Comissão Federal do Comércio chegou inclusive a eximir as loterias estatais das regras publicitárias que regulam a verdade, acrescenta Melnick.


"Muitas das regras ordinárias se suspendem na política de loterias", comentava. Ao mesmo tempo, explicava que o público em geral compartilha a culpa. A gente pede mais serviços ao governo, mas resiste a qualquer tentativa de subir os impostos. "As loterias oferecem aos governos a solução a estas exigências em conflito".


"Um imposto que o povo faz fila para pagar, um imposto que cai sobre pessoas pobres que tendem a não votar. Quando políticos sob pressão poderiam resistir a isso?, observa.


Melnick detalhava a questão do impacto nos pobres. Aqueles que ganham menos de 10.000 ao ano gastam uma média de 600 dólares em bilhetes de loteria, enquanto os que ganham mais de 50.000 gastam menos de 250 dólares.


Indivíduos que só têm o estudo médio gastam em bilhetes de loteria quatro vezes mais do que aqueles com carreira universitária, e os negros, cinco vezes mais que os brancos.


Melnick argumentou que é questionável que a renda obtida por meio do jogo compense o suficiente para valer os efeitos daquilo que é um imposto regressivo sobre os pobres.


Efeitos prejudiciais


John P. Hoffmann, professor de sociologia na Universidade Brigham Young, examinava o dano causado pelo jogo. O jogo é geralmente colocado na categoria dos crimes sem vítimas, mas argumentava que esta tecnologia não é correta.


Problemas como o jogo têm efeitos negativos substanciais nas relações conjugais e no funcionamento familiar. Muita gente joga sem problemas aparentes, admitia Hoffmann, mas os estudos apontam que cerca de 9% dos jogadores correm risco, com outro 1,5% classificado como jogadores com problemas e 0,9%, considerados jogadores patológicos.


Estas porcentagens podem parecer baixas, mas se convertem em grandes números - milhões de pessoas - quando se considera a população total dos Estados Unidos, comentava.


Tratando-se da vida familiar, Hoffmann observava que o jogo patológico se associa a problemas de saúde mental e ao divórcio. Quando o jogo alcança níveis de problema, os filhos também são afetados de forma grave. Não só influencia no tempo que os pais passam em casa, as crianças também sofrem de uma sensação de falta de proximidade com os pais e de confiança neles mesmos.


Dimensão Moral


O jogo não é imoral segundo a educação da Igreja Católica, e a utilização de loterias e noites de bingo tem sido uma prática comum no financiamento paroquial e local da Igreja.


Como aponta o número 2413 do Catecismo da Igreja Católica, os jogos de azar "resultam moralmente inaceitáveis quando privam a pessoa do que é necessário para atender suas necessidades ou as do demais".


"A paixão ao jogo corre perigo de converter-se a uma grave servidão", adverte também.

Como podemos então resistir a este vício ou evitar os maus causados pelo jogo excessivo? Talvez a resposta consista em redescobrir uma vida redigida pela virtude.

"As virtudes humanas são atividades firmes, disposições estáveis, perfeições habituais do entendimento e da vontade que regulam nossos atos, ordenam nossas paixões e guiam nossa conduta segundo a razão e a fé", diz o Catecismo no número 1804.


A virtude cardeal da moderação parece apropriada quando se fala de jogo. A temperança, explica o número 1809 do Catecismo, "é a virtude moral que modera a atração dos prazeres e procura o equilíbrio no uso dos bens criados". Uma moderação e um equilíbrio que eventualmente faltam na cultura atual e não só quando se trata de jogo.