Para que o mundo seja salvo

Reflexões de Quaresma de Dom Alberto Taveira Corrêa, Arcebispo Metropolitano de Belém

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BRASILIA, quarta-feira, 14 de março de 2012 (ZENIT.org) - Sua Excelência, Dom Alberto Taveira Corrêa, Arcebispo Metropolitano de Belém do Pará, no Brasil, enviou para os leitores do Zenit uma reflexão de quaresma com a finalidade de ajudar-nos na preparação da vivência da, cada vez mais próxima, celebração da Páscoa do Senhor. Publicamos à seguir o seu texto:

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Por Dom Alberto Taveira Corrêa

Nestes nossos tempos, em que as dores e angústias ainda oprimem tão duramente os homens, a família humana chegou a uma hora decisiva no seu processo de amadurecimento. Progressivamente unificada, e por toda a parte mais consciente da própria unidade, não pode levar a cabo a tarefa que lhe incumbe de construir um mundo mais humano para todos, a não ser que todos se orientem com espírito renovado à verdadeira paz. A mensagem evangélica, tão em harmonia com os mais altos desejos e aspirações do gênero humano, brilha assim com novo esplendor nos tempos de hoje (cf. Constituição Pastoral “Gaudium et Spes”, do Concílio Vaticano II, n. 77), ao proclamar felizes os construtores da paz «porque serão chamados filhos de Deus» (Mt 5,9).

Continuamos a olhar para o alto, onde o “Filho do homem” está levantado, com o olhar da fé. Recebemos o anúncio de uma vida nova e corremos ao encontro de Jesus. É bom ouvir de novo que Deus enviou seu Filho para que todos tenham a vida eterna. É altamente consolador saber que Deus não enviou seu Filho ao mundo para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por ele (Jo 3,14-21).

O clamor pela salvação é real e urgente, tanto que as pessoas se agarram a botes “salva-vidas” dependurados nos barcos de suas aventuras diárias. Para muitos, é o emprego aguardado com ânsia e depois perdido inesperadamente. Um número significativo de homens e mulheres, jovens ou adultos, mergulha nos vícios das drogas, bebidas e a busca desenfreada do prazer, ou quem sabe o desrespeito sistemático e irresponsável pelos valores que dignificam a pessoa humana, como a religião e a verdade. Outros apostaram nas muitas loterias da vida, decepcionando-se depois com o dinheiro ganho a pouco custo, sem suor, sangue ou lágrimas. O apego quase idolátrico a uma pessoa, com as decepções consequentes do término de um relacionamento, leva não poucas vezes ao desespero. Fechar-se em si mesmo, no louco desejo de ser a pessoa independente, ou, quem sabe, a proclamação em alto e bom tom que a ciência responde a tudo e não precisa de Deus, seguida de uma crise pessoal profunda e prolongada, tudo isso é retrato do grito profundo, que brota de dentro da alma, dos homens e mulheres de todos os tempos, e hoje somos nós, pela salvação.

Deus não substitui nossos esforços humanos, nem oferece respostas simplistas para nossos questionamentos, já que nos deu inteligência. Ele não mantém alcance das mãos um controle remoto, para fazer-nos tropeçar ou erguer-nos de nossas quedas. Ele nos criou à sua imagem e semelhança, expressas na inteligência, na liberdade e na capacidade de amar. Somos muito parecidos com Ele, exceto no pecado. Mas justamente pela diferença fundamental, pois nos fez para o bem, não para a perdição, não para o ódio, mas para a comunhão plena com Ele e com os outros, oferece-nos continuamente a estrada da vidaem plenitude. Foia descoberta do apóstolo São Paulo, expressa de forma magnífica na Carta aos Efésios: “É pela graça que fostes salvos, mediante a fé. E isso não vem de vós: é dom de Deus! Não vem das obras, de modo que ninguém pode gloriar-se. Pois foi Deus que nos fez, criando-nos no Cristo Jesus, em vista das boas obras que preparou de antemão, para que nós as pratiquemos (Ef 2, 8-10). O mesmo apóstolo explicou o mistério de “portas abertas”: “Só ultimamente ele foi revelado pelo Espírito aos seus santos apóstolos e profetas. Eis o mistério: os pagãos são admitidos à mesma herança, são membros do mesmo corpo e beneficiários da mesma promessa, no Cristo Jesus, por meio do evangelho. Desse evangelho eu fui feito ministro, pelo dom da graça que Deus me concedeu segundo a força de seu poder. A mim, o menor de todos os santos, foi dada esta graça: anunciar aos pagãos a riqueza insondável de Cristo e mostrar claramente a todos como se realiza o seu plano escondido, desde toda a eternidade em Deus, que tudo criou (Ef 3, 5-8).

A Igreja, barca confiada a Pedro, viajando pelos mares da história, quer oferecer a todos os homens e mulheres o mesmo anúncio, dado de graça e na graça, pela misericórdia de Deus. Nenhum pecado ou miséria humana sejam considerados barreiras intransponíveis. Antes, chegue a todos, pelo testemunho de acolhimento dos cristãos, pelo abraço da Divina Misericórdia oferecido neste tempo de graça, através do Sacramento da Penitência ou pela disposição ao diálogo aberto e construtivo, com que desejamos estar presentes no mundo, o anúncio da porta aberta da salvação.

E como é pela graça que somos salvos, rezemos com a Igreja: “Ó Deus, que por vosso Filho realizais de modo admirável a reconciliação do gênero humano, concedei ao povo cristão correr ao encontro das festa que se aproximam, cheio de fervor e exultando de fé”.

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Dom Alberto Taveira é Arcebispo Metropolitano de Belém do Pará e acumula também essas outras funções na Igreja: Bispo Assistente Nacional da Renovação Carismática Católica, Por nomeação da Santa Sé é Assistente Internacional das “Comunidades Novas nascidas da Renovação Carismática Católica, membro do Conselho Administrativo da Fundação “Populorum Progressio”, Presidente da Fundação Nazaré de Comunicação, preside anualmente o “Círio de Nazaré” e é membro da Comissão Episcopal para os Textos Litúrgicos.