Patrimônio da fé

Reflexões de Dom Walmor Oliveira de Azevedo, arcebispo de Belo Horizonte

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BELO HORIZONTE, sexta-feira, 20 de julho de 2012(ZENIT.org) - Quando vier o Filho do Homem, será que vai encontrar fé sobre a terra? Com esta interrogação, Jesus conclui a narrativa de uma parábola contada aos discípulos e descrita pelo evangelista Lucas no capítulo 18. A finalidade da parábola é advertir que é preciso orar sem cessar. A oração revela e configura a compreensão de Deus. Por isso mesmo, é capítulo central na vivência da fé.

Essa questão é importante no tratamento e considerações sobre os números referentes ao tecido religioso do Brasil. Não basta apenas falar de porcentagens. É preciso debruçar-se sobre a questão da qualidade e da densidade atrás das estatísticas. Ora, a fé não é uma simples questão de opção individual na adoção de práticas e jeitos. Não se resume na consideração de quem ajuntou mais gente, neste ou naquele evento, ou a simples constatação dos crescimentos ou decréscimos numéricos. A fé é um patrimônio. Uma riqueza que aponta na direção do que alicerça cada pessoa, ilumina as indagações existenciais sempre instigantes a respeito da origem e destino de cada um. É patrimônio que transmite densidade própria e constitui o tecido da cultura. Uma textura cuja consistência pode garantir a vida de uma sociedade nas suas diferentes etapas históricas.

Minas Gerais, por exemplo, é uma referência que comprova a importância da fé, vivida e testemunhada como força de coesão e de configuração da cultura. A grandeza do patrimônio sacro do Estado é um marcante sinal dessa presença. A concepção e a vivência da fé se tornam determinantes nos rumos dados à sociedade, na competência para cultivar valores e, obviamente, na determinação da qualidade da cidadania. É preciso cuidado para que esse patrimônio não seja reduzido a números. O importante é preservar a vivência da fé com qualidade, alavanca importante e indispensável para o conjunto de outros importantes patrimônios que sustentam a vida na sociedade.

Nesse horizonte se inscreve a preocupação e responsabilidade que a Igreja Católica sabe ter no cumprimento de sua tarefa missionária. A Igreja não pode e não vai adotar dinâmicas diferentes de seus valores inegociáveis. Também não partilha e não vai partilhar o entendimento de que a fé é um simples nutriente existencial individualista. É preciso fazer contraponto a esse entendimento, para que não se corra o risco de uma compreensão do patrimônio da fé de maneira superficial, sem densidades indispensáveis e refém de interpretações distanciadas de critérios adequados, podendo arrebanhar muita gente sem legar a consistência própria que a autenticidade da fé cristã comprovadamente pode garantir.

No horizonte missionário dessa responsabilidade, o Papa Bento XVI convoca a Igreja Católica para a vivência do Ano da Fé, de 11 de outubro de 2012 a 23 de novembro de 2013, emoldurado pelas celebrações do cinquentenário do Concílio Vaticano II. O Concílio é horizonte novo para a Igreja no mundo e para o mundo na Igreja.  O Ano da Fé ocorre também no momento em que são celebrados os vinte anos da publicação do Catecismo da Igreja Católica, atendimento da demanda que a fé exige em aprendizagem de conteúdo e vivência mais autêntica. O propósito do Ano da Fé é uma renovada conversão a Jesus Cristo pela redescoberta da fé. Assim, todos os membros da Igreja serão testemunhas credíveis e alegres de Cristo Ressuscitado no coração do mundo, capazes de indicar a tantas pessoas a porta da fé.

Essa proposta é a consciência do cumprimento da própria tarefa missionária, por dinâmicas geradoras e sustentadoras da adesão pessoal a Cristo Salvador, pelo indispensável e livre assentimento à verdade que Deus revelou. A fé, portanto, não pode resumir-se em discursos de milagres ou na alimentação sentimental da existência. É, na verdade, uma resposta de obediência a Deus, capacitando cada um na expressão de sua liberdade e na compreensão coerente da existência, determinando rumos na cultura. Aprofundar nesse entendimento impulsionará a Igreja na sua renovação. Especialmente, garantirá à cultura o que só vem do patrimônio da fé.

Dom Walmor Oliveira de Azevedo

Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte