Paz e diálogo inter-religioso, núcleos do Sínodo da África

Fala Dom Isizoh, do Conselho para o Diálogo Inter-religioso

| 1774 visitas

CIDADE DO VATICANO, terça-feira, 1º de setembro de 2009 (ZENIT.org).- A África pode se converter em um exemplo para o resto do mundo com relação à convivência pacífica e o diálogo entre as religiões, especialmente com o Islã. Assim explicou, em uma entrevista publicada pelo L’Osservatore Romano em sua edição de 28 de agosto, Dom Chidi Denis Isizoh, membro do Conselho Pontifício para o Diálogo Inter-Religioso, em referência aos temas que serão tratados no Sínodo Especial para a África, previsto para o próximo mês de outubro.

Dom Isizoh, originário da Nigéria, explicou ao jornal vaticano que a experiência de diálogo entre as religiões é vivida na África cotidianamente, em todos os âmbitos e níveis, e que somente em alguns países existem conflitos.

Segundo o prelado, na maior parte dos lugares, cristãos em geral, animistas e muçulmanos vivem e trabalham juntos, apesar da centralidade que a religião ocupa em sua vida. A religião na África, explicou, “não é algo separado das demais atividades da existência: é estilo de vida”.

Este diálogo se baseia “na vida e na cooperação, em que cada pessoa expressa os ideais de sua religião: ser bons vizinhos, honestos, ajudar quem tem dificuldades, colocar o dinheiro e as capacidades à disposição do bem comum do povo, participar das decisões e lutar contra o crime”.

Concretamente, no caso do Islã, Dom Isizoh destacou que a relação é boa na maior parte dos países e que o conflito, em geral, é a exceção. “Esta é uma boa notícia que a mídia frequentemente não divulga”, comentou. Mais ainda, nos casos de conflito, muitas vezes os líderes políticos e alguns grupos com interesses “manipulam os sentimentos religiosos para alcançar seus próprios objetivos”.

“O diálogo entre cristãos e muçulmanos nos países da África Subsaariana tem uma vantagem importante: a tradição religiosa oferece um contexto sociocultural que dá a ambos a oportunidade de compreender-se”, explicou.

Precisamente este diálogo é necessário na educação, na gestão pública, na luta contra a pobreza e na instauração da moralidade na vida pública e privada.

Paz e desenvolvimento

Com relação ao tema do sínodo – “A Igreja na África ao serviço da reconciliação, da justiça e da paz” –, Dom Isizoh comentou que um dos maiores obstáculos que a paz encontra hoje no continente é a herança do colonialismo.

“Em sua maior parte, os países africanos sofrem as consequências da fusão inadequada e forçosa de povos diferentes – que a mídia define frequentemente como grupos tribais – realizada pelo colonialismo.”

Esta divisão arbitrária do território provocou sempre tensões entre estes povos, lutas de poder por controlar os recursos, como é evidente em países como a República Democrática do Congo, a Nigéria e o Sudão, entre outros.

“É verdade que, depois de muitos anos, os países menores e com menos grupos étnicos conseguiram aceitar esta união forçosa, mas os maiores deverão negociar e procurar compromissos ainda durante muitos anos”, acrescentou.

Este é um dos fatores que mais obstaculiza o desenvolvimento destes países. Outros são, indicou o prelado, “a avidez, o desejo de riqueza imediata, a corrupção e a pouca confiança nos líderes políticos”, além da “fuga de cérebros” causada pela pobreza, pela migração e pelo analfabetismo, e as “condições iníquas do comércio internacional”.

“Todos nós rezamos pelo êxito do sínodo. A escolha do tema mostra como a Igreja africana é vital em sua responsabilidade no continente”, concluiu o prelado.

A Igreja, ao apostar na reconciliação, “é a voz dos que não têm voz. Fala em nome dos oprimidos e dos marginalizados da sociedade. Conduz as pessoas feridas à reconciliação. A forma de fazê-lo será provavelmente um dos mais importantes pontos de discussão do próximo sínodo”.