Pela primeira vez em séculos a Igreja sai das coordenadas Europeias

Entrevista com o cardeal Abril y Castelló, núncio emérito em Buenos Aires

Roma, (Zenit.org) Sergio Mora | 993 visitas

O papa Francisco ontem, em sua primeira saída do Vaticano para a basílica de Santa María Maior foi rezar diante da imagem da padroeira de Roma. Cardeal Arcipreste do santuário, o turolense Abril y Castelló esteve nessa saída, foi núncio apostólico na Argentina do 2000 ao 2004, quando Bergoglio era cardeal, e narrou novos particulares a ZENIT.

ZENIT: Como surgiu a idéia da visita do Papa Francisco a Santa Maria Maior?

- Cardeal Abril y Castelló: Desde a tarde de ontem me disse que queria fazer uma visita a Santa Maria Maior, e lhe respondi que muito bem, que claro que sim, e que se queria que o acompanhasse. E me disse que sim, que claro.

Então o acompanhei. Também veio o cardeal Agostino Vallini. Na basílica não havia pessoas, por razões de segurança, foi um momento de oração muito bonito à Virgem, depois que entregou-lhe um buquê de flores. Permaneceu rezando um momento em silêncio, depois cantando todos a Salve Regina.

Ontem me disse especificamente, quero rezar à Virgem para confiar-lhe todo o meu pontificado. Para que o abençoe e me ajude.

ZENIT: E depois?

- Cardeal Abril y Castelló: Mostrei-lhe a parte restaurada da capela da frente, que ainda não está completamente aberta ao público, chamada Sistina, sempre na basílica de Santa Maria Maior, que como todos sabemos é onde Santo Inácio de Loyola celebrou a primeira missa. O papa gostou muito de como ficou a capela. Depois cumprimentou os colaboradores mais próximos.

ZENIT: Daqui foi para a via “Della Scrofa”?

- Cardeal Abril y Castelló: Depois foi buscar as suas coisas na residência da "Via della Scrofa", e quando pegou suas coisas, num determinado momento aconteceu isso, que ele foi pagar. Eu lhe disse: santo padre, deixe que depois nós arrumamos isso. E ele me disse: não, não, não, eu  pago. E depois me esclareceu: se eu te disse que não é porque quero deixar claro que o papa não se aproveita nem um pouco das coisas da Igreja. Foi um exemplo magnífico e que define o que ele é.

ZENIT: Bergoglio tinha passagem de ida e volta. E isso da residência, indica que pensava voltar à ela depois do conclave?

- Cardeal Abril y Castelló: Claro que não tinha pago porque pensava: no dia que eu vá embora pago tudo junto. E isso o define muito.

ZENIT: O nome de Francisco já é um programa

- Cardeal Abril y Castelló: Sobre o nome, a princípio, porque não escutamos bem, pensamos que era ou São Francisco de Assis ou São Francisco Xavier. Durante o jantar perguntei-lhe e me disse muito claramente que era em honra e homenagem a São Francisco de Assis.

ZENIT: Havia satisfação entre os cardeais?

- Cardeal Abril y Castelló: Sim, sim, acho que sim. Foi recebido com grande alegria, porque acreditamos que pode fazer muito bem. Logicamente, isso é uma grande mudança. Não quero dizer revolução, porque é uma palavra que não combina; mas acho que é uma grande mudança, que pela primeira vez em muitos séculos tenhamos saído das coordenadas europeias, não falemos das italianas que prevaleceram por tanto tempo, mas que foi mais longe e se disse: onde está quase a metade da Igreja.

ZENIT: Será importante para a América Latina?

- Cardeal Abril y Castelló: Temos de levar em conta este fato, quase metade da Igreja vive lá, e, portanto, que haja um papa nativo daí, acho que fará que o sintam mais deles. E esperamos que isso permita uma evangelização mais eficaz e mais dinâmica. E que possa ser acompanhada por pastores e por fieis.

ZENIT: Está mais do que claro que o Papa não foi eleito pelos jornalistas, mas pelo Espírito Santo!

- Cardeal Abril y Castelló: Graças a Deus, devo dizer, porque em tantas ocasiões davam certas interpretações tremendas. Eu lhes dizia, estas interpretaçoes são interpretaçoes de vocês, se arranjem entre vocês os jornalistas.

ZENIT: Poderia ser melhor do que isso?

- Cardeal Abril y Castelló: Claro que quem quiser pode teoricamente fazer a hipótese que quiser, mas eu acho que esta é uma opção magnífica, magnífica. Acho que seria difícil uma melhor nesse momento. É o Espírito Santo que tem dado a sua inspiração. Vemos o Santo Padre muito sereno, muito tranquilo, acho que vai fazer um grande trabalho, e esperamos e peçamos por ele.