Perante a criação, faz falta um “antropocentrismo relativo”

Bispos húngaros exortam a uma relação responsável com o meio ambiente

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Por Roberta Sciamplicotti

ROMA, sexta-feira, 13 de novembro de 2009 (ZENIT.org).- A Conferência Episcopal da Hungria acaba de lançar uma carta circular sobre a Defesa do Mundo Cristo, em cuja redação colaboraram durante vários anos diversos membros da Academia das Ciências da Hungria, professores universitários, teólogos e os próprios bispos. 

Na carta, os bispos húngaros asseguram que, perante a criação, a atitude dos cristãos deve estar baseada em um “antropocentrismo relativo”, que se afaste tanto de considerar apenas o ser humano, sem importar com o que o cerca, como do pensamento que nega as diferenças ontológicas entre homem e meio ambiente.

Os prelados sublinharam que “a degradação em rápida aceleração do meio ambiente natural e as mudanças climáticas globais converteram-se hoje em realidade”.

Para reduzir “e, sim é possível, evitar um comportamento que danifique o meio ambiente e empobreça o clima” fazem falta “esforços significativos” e “estratégias eficientes para adaptar-se às circunstâncias da mudança climática”.

“Para que a humanidade possa superar esta prova, devemos participar todos –recordam. O desafio que enfrentamos é substancial, mas nossa ação guiada pelos valores e a autolimitação podem influenciar positivamente na situação”.

Defender o meio ambiente, recordam os bispos húngaros, “significa mais que assegurar simplesmente condições de vida dignas às gerações presentes e futuras”, porque é fundamental para a “proteção e a promoção do bem comum e da dignidade humana”.

Os prelados recordam a “ecoteologia” e a “ecoética” cristãs, sublinhando que estas tomam distância do “antropocentrismo radical”, que considera o meio ambiente natural apenas em função dos “benefícios diretos para a geração atual”.

Este comportamento de fato “contradiz a responsabilidade confiada aos homens pelo Criador”. 

Do mesmo modo, a postura cristã se diferencia do “pensamento ecocêntrico”, que não considera as “fundamentais diferenças ontológicas entre os homens e a parte do meio ambiente natural que é exterior ao homem”.

O comportamento dos cristãos a respeito da natureza deve portanto basear-se em um “antropocentrismo relativo”, em termos de um modelo filosófico de pensamento e de teocentrismo se se olha desde o ponto de vista da fé, que reconhece também o valor intrínseco da natureza”.

Explicando a definição de “antropocentrismo relativo”, os prelados sublinham que se fala de antropocentrismo porque o homem “é a única criatura na Terra que Deus desejou para si”, enquanto o adjetivo “relativo” refere-se a que, ainda que o homem se diferencie da parte não humana do meio ambiente desde o ponto de vista “ontológico, ético e biológico”, ao mesmo tempo “forma uma unidade com ele, tendo em conta a natureza de cada ser e sua relação recíproca em um sistema ordenado, que é o cosmos”.

Neste sentido, o conceito de teocentrismo refere-se ao sentido do valor intrínseco da natureza, segundo o qual esta não é a semelhança de Deus, “mas uma realidade dependente de Deus, e não do homem”.

Preservar a criação, reconhecem os bispos húngaros, tem um significado de reconhecimento e louvor, porque “podemos preservar de modo crível apenas o que reconhecemos como bom e que vale a pena louvar”.

A ética cristã relativa ao meio ambiente, acrescentam, baseia-se em três valores conectados entre si: o “valor instrumental da natureza”, enquanto “parte do bem público, que serve à proteção e à evolução da dignidade humana”; o “valor simbólico da criação”, porque se refere diretamente a Deus e permite o “futuro escatológico” do meio ambiente, “que nos proporciona uma compreensão mais profunda, religiosa, do futuro do mundo que nos circunda”.

Para os bispos húngaros, “defender o meio ambiente e o clima é também parte da promoção do bem comum, que se pode realizar apenas através de uma ordem econômica que sirva ao interesse crível do homem”.

Os prelados citam os elementos fundamentais desta ordem, sublinhando a “limitação do objetivo da economia de mercado ao útil” e a mudança de papel do lucro. Se a economia utilitarista contemporânea fixou o objetivo de sua maximização, sustentam, na economia de serviço o lucro é “um instrumento que ajuda a fazer realidade valores e o bem comum”.

Neste contexto, os prelados concluem exortando a “adotar uma atitude universal, global, em que Deus e a ordem moral e natural criada por Ele alcancem a preeminência”.